Cinco crianças e adolescentes, de 11, 12, 13 e 14 anos, fugiram do “Recanto Samaritano Complexo do Aconchego” no Jardim Milena, na noite do dia 31 de agosto. A fuga é mais um retrato da fragilidade da instituição, criada para abrigar e proteger crianças que foram retiradas de suas famílias por serem vítimas de maus tratos, abusos e negligência. Essa é a terceira fuga registrada pelo Comércio no abrigo em um ano e três meses, desde que iniciou as atividades em Franca. O Conselho Tutelar afirma que ocorreram outras fugas, mas não soube precisar quantas foram. A Prefeitura também não dispõe destes números.
Para as autoridades, essas ocorrências são esperadas, uma vez que o público atendido não está acostumado a obedecer regras e tem liberdade para circular na entidade. O promotor da Infância e da Juventude Augusto Arruda Neto promete investigar a situação para impedir novas fugas no Recanto do Aconchego.
Os cinco internos fugiram no dia 31 de agosto. Funcionários registraram boletim de ocorrência no dia seguinte. Não há detalhes de como os menores conseguiram deixar a instituição sem que fossem notados pelas mães sociais, responsáveis por cuidar de grupos pequenos de crianças e adolescentes abrigados. Suspeita-se que, durante a noite, tenham pulado o muro, embora seja cercado por arame farpado.
Uma das meninas, de apenas 11 anos, ficou uma semana desaparecida. Só foi localizada ontem, por policiais, na rua. Por decisão do Juizado da Infância e da Juventude, ela foi desligada do abrigo e voltou a morar com sua mãe. A garota de 12 anos, que teria liderado a fuga do grupo, também voltou para sua família. Foi desligada da entidade porque já havia apresentado problema de indisciplina. Um casal de gêmeos de 14 anos e uma menina de 13 anos tiveram mais uma chance e voltaram para o Recanto. “As crianças ficaram expostas a riscos. Sabemos que muitos adolescentes são rebeldes, mas é preciso fazer algo para evitar as fugas”, disse o conselheiro tutelar Lucas Verzola.
Procurado ontem para comentar o caso, o juiz da Infância e da Juventude, José Rodrigues Arimatéa, pediu para um dos funcionários do cartório informar que não se pronunciaria porque “o Recanto do Aconchego é de competência do município”.
O secretário de Ação Social, Roberto Nunes Rocha, disse que o abrigo não é uma prisão e tratou as fugas com naturalidade. “Essa situação, apesar da surpresa que causa, é uma coisa normal em se tratando de crianças e adolescentes. Eles são naturalmente curiosos, propensos a aventuras e quebras de regras. Até em famílias normalmente estruturadas alguma criança, de vez em quando, some”.
Para ele, não há problemas na conduta dos funcionários da instituição. “As crianças vieram de um ambiente conturbado, não têm conhecimento nenhum de regras e disciplina e isso facilita ocorrências do tipo. Não quer dizer que os funcionários não estão dando a devida atenção. Eles são muito responsáveis e o atendimento está dentro dos conformes”.
Os responsáveis pelo Recanto foram procurados pela reportagem na tarde de ontem. Por telefone, uma funcionária que se identificou como Vânia disse que a atual coordenadora, Ana Paula, estava em audiência no Fórum e que seria avisada para entrar em contato com a reportagem. Não o fez. O Comércio da Franca esteve no Fórum, mas Ana Paula não estava no local e, sim, uma outra funcionária que não estava autorizada a dar entrevista. Ela informou que a coordenadora estava com gripe e talvez pudesse atender a reportagem hoje.
Para o atendimento no abrigo, a Prefeitura trabalha em parceria com a Associação Presbiteriana Bom Samaritano. A instituição atende em média 50 usuários.
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