A Semana da Pátria sempre trouxe o Hino Nacional Brasileiro à baila. Neste ano o foco passou a ser uma apresentação da cantora Vanusa, em março, durante o Primeiro Encontro Estadual de Agentes Públicos, na Assembléia Legislativa de São Paulo.
A cantora foi infeliz na interpretação. Errou, trocou palavras, alterou a pronúncia de algumas. Desafinou, nem terminou o Hino. A rainha do iê-iê-iê safou-se de um desastre maior, graças à paralisante intervenção do locutor. O vídeo da apresentação caiu na internet mas somente agora ganhou notoriedade. A cantora está sendo massacrada pela opinião pública. Os comentários atingem até a vida pessoal dela. Muitas manifestações sobre a interpretação musical irregular estão carregadas de erros de gramática.
Será que os raivosos críticos, pelo menos, entendem a letra do Hino Nacional? Entre cantar errado e não saber o que se está cantando, qual seria o pior? A primeira ação pode ser mais vantajosa. Cantar faz bem. Mesmo errando a letra ou não tendo talento.
O que não é o caso de Vanusa. Ela é afinadíssima. Considera-se francana, por ter morado em Franca. O pai dela foi goleiro da Francana. Depois, seu irmão iniciou carreira aqui, também jogando no gol. A trajetória musical da intérprete sempre se pautou pelo sucesso. A música Manhãs de Setembro pode ser considerada um hino. Já, Mudanças exalta a feminilidade de maneira poética: "(...) Hoje eu vou mudar / Porque sou mulher / Com dúvidas e soluções / Com erros e acertos / Amores e desamores`. Serviu de bandeira às feministas.
Outros críticos manifestaram apoio ao decreto da Ditadura Militar que proibia a execução pública do Hino Nacional por um único intérprete, como se fosse uma canção popular. Várias gravações individuais foram retiradas do mercado em décadas passadas. Quanta ignorância! Quanto mais divulgação da letra, maior se torna a possibilidade de promover o patriotismo.
O que importa é cantar. Quem não sabe a letra, canta um lá-lá-lá. Dom não se aprende, mas a ler, sim. Principalmente com entendimento. Faça uma pesquisa sobre a compreensão da primeira estrofe do Hino Nacional: `Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heróico o brado retumbante, / E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos, / Brilhou no céu da Pátria nesse instante`. Pouca gente sabe a mensagem desses versos.
Aprender verbo faz bem. Os quatro versos são formados por apenas duas frases. Os verbos delas são: ouvir e brilhar. Sabendo que plácidas significa calmas, brado quer dizer grito e retumbante é o mesmo que ressoar alto, basta colocar a frase na ordem direta (sujeito + verbo + complemento verbal): "As margens plácidas do Ipiranga (rio de São Paulo) ouviram o brado retumbante de um povo heróico".
Nos outros dois versos, fúlgidos quer dizer brilhantes ou luzentes. Pela ordem direta da frase tem-se: "E, nesse instante (do grito de independência), o sol da Liberdade brilhou em raios fúlgidos no céu da Pátria". Apesar da metáfora, que assim seja!
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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