Uma longa e tensa viagem


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Cada país europeu tem uma legislação antidrogas própria, mais ou menos repressora. De um lado, entre as mais benevolentes, está a Holanda e do outro, Suíça, por exemplo, com leis mais duras. A diferença de postura das autoridades reflete-se até no valor que os mulas recebem para entrar nesses lugares e no preço da droga: 20 mil euros no primeiro caso e até 40 mil no segundo. Cláudio foi para Amsterdan com 128 cápsulas de 10 gramas cada uma no estômago. Entrou, não foi abordado e levou a droga para o lugar combinado. Em Zurique, na Suíça, também transitou sem problemas. Mas numa das viagens que fez para a Itália achou que sua sorte tinha acabado. Os agentes federais italianos furaram seus sapatos, abriram e rasgaram sua mala com um canivete, jogaram suas roupas no chão e depois de um voo de 15 horas e mais três detido no aeroporto o fizeram engolir seguidos copos de água e tomar um comprimido que ele não sabe dizer o que foi. Teoricamente, a droga acondicionada no estômago foge à detecção dos aparelhos de fiscalização dos aeroportos, mas levá-la dentro do corpo é uma tarefa que muita gente não consegue levar ao fim. A montagem das cápsulas é simples. Num trabalho tanto artesanal quanto solitário, a cocaína vai sendo separada em porções de 8, 10 ou 12 gramas. Depois de receber o pó, um saquinho de sacolé será amarrado, enrolado com fita durex. Deve ter a espessura de um dedo e para ficar redondo bastam alguns movimentos de vai-e-vem com o pé, no chão. É a vez do papel alumínio, que confunde os sensores das máquinas de raios-X e mais durex. As pontas são arredondadas com fogo de isqueiro. O trabalho em seguida será o de mergulhar as cápsulas em uma mistura de água com limão para eliminar resíduos da droga, que podem aparecer em eventuais exames de urina. Depois de tudo isso, chega o delicado momento de engolir tantas cápsulas quantas for possível. Cláudio engolia 30, depois outras 30 e assim por diante. Nas longas viagens sobre o Oceano Atlântico não podia comer nada e tinha que evitar bebida alcoólica, sucos, frutas e refrigerantes. “Qualquer coisa pode soltar seu intestino, então não comia. Por outro lado, se recusasse tudo o que a aeromoça oferecesse, iria gerar des-confiança. A saída era pegar, mexer, esconder e depois jogar fora”, disse Cláudio. O grau de pureza da cocaína que é levada para a Europa é sinônimo de um bom dinheiro para o mula, mas uma ameaça que cresce a cada minuto. Apenas dois gramas da variedade co-nhecida por escama de peixe são suficientes para matar uma pessoa. Em muitas ocasiões, o personagem dessa reportagem buscou a droga na fronteira com a Bolívia, a partir da cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. No lado boliviano, chegava procurando pelos corretores que o levariam ao local em que a cocaína o esperava. O teste da pureza era feito ali mesmo. Geralmente um grama da coca é misturado a mercúrio e fervido em uma colher ou no bulbo de uma lâmpada incandescente. O mercúrio consome com as impurezas e aí o que sobra é uma pedra pura de cocaína. Ao pesá-la, se a ba-lança acusar 95 mg, a tal escama de peixe, significa que seu grau de impureza é de 5%. “Esse é o grau de pureza que os europeus e-xigem. Aqui no Brasil beira 0,35. Às vezes, a pessoa aqui pega um quilo e faz três, misturando soro de cavalo (substância dormente), pó de giz, comprimidos de Aerolin (remédio usado para asma), que aceleram os batimentos cardíacos”. Na Bolívia, o pagamento pelo carregamento era feito entre o comprador e o vendedor. Mulas, como Cláudio só tinham que testar a droga, embalar e engolir. Ao chegar ao destino, era levado para um hotel onde começaria o trabalho de expelir as cápsulas, através das fezes. Doses generosas de óleo de peixe ajudavam no trabalho. Do hotel ou residência em que estava só saía quando a última porção de cocaína estivesse caída no chão. No banheiro de um hotel ita-liano, Cláudio lembra que precisou defecar sob os olhares de um nigeriano, o tempo todo ao seu lado dentro do banheiro. ‘Quando saíram as primeiras cápsulas ele pegou com a mão mesmo, lavou, abriu e cheirou. E saiu dando pulos de alegria pelo material que tinha recebido”. Foi a prisão de um amigo na Itália que teria levado nosso personagem a abandonar as viagens. O dinheiro ganho, que chamou de amaldiçoado, não lhe rendeu muita coisa e, descontados os prejuízos que teve, mal conseguiu comprar uma casa para deixar para suas duas filhas. O restante foi gasto com mulheres, noitadas, roupas e carros. “Tudo tem sua hora. Quando vi que não dava mais, eu parei. As pessoas continuaram me procurando por um bom tempo, mas não quis mais”, disse ele. “Estou mencionando isso tudo com você, mas vou levar comigo. Não vou ter coragem de dizer para as minhas filhas o que já fiz”, completou.

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