<p>A gripe suína assustou a população de Franca durante a semana e alterou a rotina de escolas, hospitais e de profissionais que trabalham no setor de Saúde. Na quarta-feira, duas mortes ocorridas em curto espaço de tempo chocaram e causaram medo. A primeira foi a do empresário José Gaspar da Silva, 50. Ele estava internado desde a madrugada de terça-feira, no Hospital Unimed, em decorrência de uma pneumonia. São fortes as suspeitas de que o vírus H1N1 possa ter sido a causa da morte. Exames encaminhados para o Instituto Adolf Lutz, em São Paulo, ainda não ficaram prontos. </p>
<p><br />Poucas horas depois, a sapateira Daniela de Souza Félix, 22, grávida de sete sete meses, morreu no Hospital Regional de Franca. Neste caso, não houve dúvidas: a gripe suína foi a causa.</p>
<p><br />Até a tarde de sexta-feira, 12 casos da doença já haviam sido confirmados, sendo três na Escola Pestalozzi. As aulas de duas turmas dos 5º e 6º anos foram suspensas até o dia 15 de setembro. Outros 17 exames de pacientes suspeitos de estarem com a doença ainda estão sendo analisados. Para o secretário municipal de Saúde, Alexandre Ferreira, o vírus H1N1 já está instalado na cidade. “Temos pacientes que ficaram doentes e que não sabemos de onde ele pegou o vírus. Não entrou em contato com paciente nenhum doente. Isto caracteriza a transmissão comunitária”.</p>
<p><br />Responsável por registrar todos os casos ocorridos na cidade, Ferreira admite que o número real pode ser bem maior do que o oficial. Para ele, a doença já ocorre em grande escala. “A gente passa, realmente, por uma epidemia. Franca passa por uma epidemia, como passa o Brasil”. </p>
<p><br />Apesar do elevado número de casos e do medo que toma conta da população, o secretário de Saúde afirma que não há motivo para pânico. “Conseguimos montar um sistema de atendimento que a população pode ficar tranquila. O Estado tem a medicação e temos condições favoráveis nos hospitais para o tratamento”. Nesta entrevista concedida sexta-feira em seu gabinete, Alexandre Ferreira afirmou que é uma vítima em potencial e que já pode ter contraído a gripe. </p>
<p><strong>Comércio - Uma pessoa morreu, outra morte está sob suspeita, 12 casos já deram positivo e outros 18 ainda aguardam o resultado dos exames. Há dúvidas de que o vírus H1N1 esteja circulando em Franca?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Não. Agora temos transmissão comunitária na cidade. Temos pacientes que ficaram doentes e que não sabemos de onde eles pegaram o vírus. Não entraram em contato com pacientes doentes. Isto caracteriza a transmissão comunitária. Felizmente conseguimos montar um sistema de atendimento e a população pode ficar tranquila. O Estado tem a medicação e temos condições favoráveis nos hospitais para o tratamento. O Ministério da Saúde fala que 70% das síndromes gripais já são pelo H1N1. Se já são, o número de pessoas gripadas que tem na cidade é muito grande, mas poucos têm problemas respiratórios. Poucos estão internados.</p>
<p><strong>Comércio - Há uma epidemia em Franca hoje?<br />Alexandre Ferreira -</strong> A gente passa, realmente, por uma epidemia. Franca passa por uma epidemia, como passa o Brasil. O mundo tem uma pandemia de H1N1. São vários países e continentes transmitindo uma mesma doença ao mesmo tempo. </p>
<p><strong>Comércio - O número real de casos na cidade pode ser muito maior do que o oficial? <br />Alexandre Ferreira -</strong> Há três meses o Ministério da Saúde determinou que a gente não poderia mais colher exames de todas as pessoas. São colhidos materiais apenas das pessoas que tiverem Drag (Doença Respiratória Aguda Grave), que estão internadas ou para investigação de surtos em escolas ou indústrias (nos casos de surtos são examinados apenas três pessoas por local, mesmo que o número de suspeitos seja maior). Quando o Ministério determina que não se vai mais colher exame de todo mundo, ele está assumindo que não vai contar mais o número de casos. Só é visto qual é a porcentagem da população que desenvolve sintomas graves. Hoje, por exemplo, numa escola que tem três crianças positivas, se aparecer dez crianças com os mesmos sintomas, podemos considerar que elas tiveram gripe, mas por vínculo epidemiológico. Só que elas não entram na estatística, pois o Ministério disse para nós que não adianta mais contar vínculo epidemiológico.</p>
<p><strong>Comércio - Então vai perder a conta...<br />Alexandre Ferreira -</strong> Vai perder a conta. Quando o Ministério determina que é para colher exame só de quem tem Drag e para avaliação de surto, ele desiste de contar. Em um escola do Bonsucesso, por exemplo, colhemos quatro exames e eles mandaram um de volta. Então, eles assumiram que não vão mais contar casos.</p>
<p><strong>Comércio - Há um local mais perigoso na cidade? Aquele em que vocês apontariam como sendo de risco?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Não, não há. O que a gente diz para todos é: evitem aglomerações de pessoas. Se tiver que ir na escola, por exemplo, deixe todas as portas e janelas abertas para que possa circular ar. As mães não devem mandar as crianças para as escolas caso elas estejam gripadas. Com isto, vai proteger não só o filho dela, mas toda a comunidade de alunos. Não tem um lugar da cidade mais problemático. O que há são situações complicadoras, como aglomeração de pessoas, ambiente fechado e contato direto com pessoas doentes. Pessoas doentes devem ficar em casa.</p>
<p><strong>Comércio - O fato de as escolas terem prolongado as férias adiou o aparecimento de casos da doença em Franca?<br />Alexandre Ferreira -</strong> O que estava se pretendendo, quando as férias foram prolongadas, é que as crianças que estivessem viajando pudessem desenvolver os sintomas sem estar na escola. Fizemos um levantamento e o número de crianças com síndrome gripal, em julho, aumentou no Pronto-Socorro Infantil em vez de diminuir. O que se esperava é que as crianças ficassem em casa e que não houvesse transmissão entre elas. Quando fizemos o teste, vimos que houve mais transmissão nas férias do que nos dias com aulas.</p>
<p><strong>Comércio - O senhor é a favor da suspensão das aulas? Muitas pessoas estão dizendo que é melhor perder um ano de escola do que perder a vida.<br />Alexandre Ferreira -</strong> Tem que se estudar caso a caso. Falar que todas as escolas vão fechar por causa da gripe não vai resolver nada, pois as crianças e adultos vão entrar em contato com o vírus na comunidade. As crianças não vão deixar de ir brincar na praça, de jogar bola com os vizinhos, de ir ao shopping ou de se encontrar com outras pessoas. Se todo mundo ficasse numa redoma, se ficasse dentro de casa, você conseguiria (evitar a transmissão), mas isto é utópico. Agora, nas salas de aula onde houver mais de 20% das crianças com sintomas, é preciso suspender. Esta é uma orientação do Ministério da Saúde.</p>
<p><strong>Comércio - Por que as grávidas são mais vulneráveis à doença?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Elas têm uma condição hormonal, imunológica, diferenciada em função da própria criança. O organismo da grávida “entende” a criança como uma apêndice, como não sendo normal do corpo dela. Com isto, o nível de segurança é reduzido para manter a gravidez. Por isto que grávida precisa tomar cuidado, precisa fazer seis exames pré-natais, não pode ter infecção urinária, não pode ter pneumonia e não pode ter contato com pessoas doentes.</p>
<p><strong>Comércio - Qual é a recomendação para as grávidas?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Ela tem que evitar aglomeração de pessoas, tem que evitar contatos com pessoas doentes, evitar trabalhos que as possam expor a um volume de pessoas. Na Secretaria de Saúde retiramos as grávidas que faziam o atendimento direto com o paciente e as colocamos para fazer trabalho de administração. É uma maneira de proteção. Aquelas que deixam de trabalhar, mas que vão a locais de aglomeração, estão se expondo do mesmo jeito.</p>
<p><strong>Comércio - A sapateira Daniela Félix, que estava grávida e morreu por causa da doença, quarta-feira, manteve contato com familiares e amigos. Dezenas de pessoas foram ao seu velório. Elas devem ficar atentas? A Secretaria de Saúde vai fazer um monitoramento?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Agora, com a transmissão comunitária, não adianta eu colocar todos os esforços para acompanhar quatro ou cinco pessoas que tiveram contato com uma paciente positiva e que poderão desenvolver sintomas. Não posso mais fazer isto. Conversamos e orientamos as pessoas. Se tiverem algum problema, elas podem nos procurar direto que vamos achar caminhos mais rápidos dentro da rede para dar encaminhamento e orientar os médicos que forem acompanhá-las. Os próximos dez dias é o período crítico destas pessoas que entraram em contato com ela, mas o período de transmissibilidade desta grávida ocorreu dentro do hospital, dentro da UTI. Quem tem de tomar cuidado são só as pessoas que foram visitá-la. Ela passou o período que estava transmitindo dentro do hospital.</p>
<p><strong>Comércio - O empresário José Gaspar da Silva, 50, também morreu durante a semana sob a suspeita de ter contraído o vírus H1N1. Já há alguma confirmação sobre a causa da morte?<br />Alexandre Ferreira -</strong> É um paciente que passou num hospital particular na sexta-feira, depois passou no domingo e na segunda. Na terça-feira, ele foi internado. Nesta situação, colhemos o material. Após a internação, ele evoluiu para a morte. Ainda estamos aguardando o resultado do exame. É uma possibilidade ele ter contraído o H1N1 também, mas temos que esperar. Era um paciente diabético, que estava dentro do grupo de risco.</p>
<p><strong>Comércio - Além das grávidas, portadores de diabetes também precisam de cuidados especiais...<br />Alexandre Ferreira -</strong> Tecnicamente, a grávida é um fator risco. A diabetes, hipertensão, doenças crônicas, degenerativas, pulmonares, hepáticas, cardíacas e renais definem um grupo de risco. São pessoas que precisam de um pouco mais de cuidado. Até o momento só vimos complicações em diabéticos. O histórico é este. Aqui em Franca, a diabetes forma um grupo de pessoas que precisa ser atendido com mais cuidado. Estamos informando os médicos que, se chegar uma pessoa com síndrome gripal sendo diabético descontrolado, é preciso fazer um acompanhamento mais próximo, pois é um paciente que pode complicar.</p>
<p><strong>Comércio - Os hospitais de Franca estão preparados para enfrentar o vírus?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Os hospitais têm estrutura para enfrentar qualquer doença. A estrutura está preparada, mas o que temos de fazer a todo instante é treinamento dos cuidados a serem realizados em relação a transmissão da doença dos pacientes para os profissionais de saúde e para outras pessoas que estão internadas. </p>
<p><strong>Comércio - Todos os casos sob suspeita são comunicados à Secretaria de Saúde?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Sim, mesmo porque temos gente da vigilância epidemiológica dentro dos hospitais a todo instante. A única coisa que tivemos dificuldades, há um mês e meio, foram alguns médicos específicos, que faziam plantões no PS, no Regional e na Unimed. Houve caso em que o mesmo médico atendeu o paciente e não notificou. Descobrimos o paciente e, depois, fomos atrás do médico. Fizemos o auto de infração e aplicamos multa. Ele foi punido, pois tinha que fazer a notificação.</p>
<p><strong>Comércio - Há alguma recomendação para se esconder casos com a finalidade de não alarmar a população?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Pelo contrário. A Vigilância Epidemiológica recolhe e avalia as informações para ver se são corretas. Depois das avaliações, temos de dar publicidade de tudo o que acontece. A divulgação é importante para as pessoas se precaverem e não ficarem pensando que estão livres do problema. A partir do momento em que souber dos casos e saber como se prevenir, a pessoa ficará mais tranquila e sabedora do risco que corre.</p>
<p><strong>Comércio - Há uma previsão para o fim desta pandemia de gripe suína?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Historicamente as pandemias de influenza pegam bastante pessoas no primeiro ano, crescem assustadoramente o número de casos no segundo ano e, no terceiro, elas caem. </p>
<p><strong>Comércio - Então o pior está por vir?<br />Alexandre Ferreira -</strong> A gente só vai saber disto daqui a três ou quatro meses. Quando entrarmos no verão teremos como avaliar o comportamento da doença para prever o que acontecerá no ano que vem. O importante é que hoje não se fala mais de gripe no México, nos Estados Unidos e na Europa.</p>
<p><strong>Comércio - Em qual local a pessoa que está com a suspeita da doença deve buscar o remédio?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Primeiro deve procurar um médico para fazer a avaliação. Se ele achar que há indicação e prescrever, o remédio deve ser retirado na DRS no Distrito Industrial. O Estado tem garantido o remédio. Acredito que não faltará. O Tamiflu tem dado uma reação adversa grande e o médico tem que acompanhar o paciente. No site da Prefeitura (<a target="_blank" href="http://www.franca.sp.gov.br/" target="_blank">www.franca.sp.gov.br</a>) há informações de como deve ser feita a dispensação desta medicação. No site também separamos informações do Ministério da Saúde para escolas, para restaurantes, bares, hospitais, médicos, pais, professores e creches. Há toda a orientação necessária para as pessoas. Também temos um e-mail (<a target="_blank" href="mailto:saude@franca.sp.gov.br" target="_blank">saude@franca.sp.gov.br</a>) para as pessoas fazerem indagações aos profissionais técnicos da Vigilância Epidemiológica.</p>
<p><strong>Comércio - O senhor visita todas as unidades de saúde do município, vai a todos os hospitais e mantêm contato com pessoas infectadas. Podemos dizer que é uma vítima em potencial?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Como ando para todos os lados, tenho uma exposição maior ao vírus. Não sei te falar se já peguei ou não.</p>
<p><strong>Comércio - Fez o exame?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Não, não fiz.</p>
<p><strong>Comércio - Então o senhor pode ter a gripe hoje?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Já posso ter tido.</p>
<p><strong>Comércio - Seu filho está na escola?<br />Alexandre Ferreira -</strong> Meu filho está escola desde o dia 17. Ele não frequentava antes. Está feliz e contente. Os pais estão tranquilos. Não tem como a gente entrar no desespero.</p>
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