Andarilho troca casa da irmã pela rua


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ACF ainda era uma criança de colo quando deixou a pequena Jeriquara para viver em Franca. Depois da morte do pai, quando tinha apenas um ano, sua mãe, com os cinco filhos pequenos, se mudou para cá em busca de uma vida melhor para as crianças. Criou três meninas e dois meninos lavando e passando dez malas de roupas por semana. Lavava na cisterna porque não tinha tanquinho. Foi mãe e pai para eles. “Ela foi uma guerreira”, orgulha-se ACF, caçula da família. Problemas de coração levaram a mãe há cerca de sete anos. ACF soube que ela só fechou os olhos para partir depois de fazer um apelo à uma das filhas: cuidar bem dele. O pedido foi atendido. Z., a irmã que mora na região Leste da cidade, mantém um quarto “montadinho”, com televisão e um som, além de um guarda-roupas completo, que “só de camisetas deve ter umas 30”. Quando quiser, pode repousar, tomar banho e comer na casa dela. Mas ele teima em trocar o colchão, travesseiro e o conforto de ter um teto para abrigá-lo pelos papelões no chão e cobertor vermelho estendidos sobre a calçada do prédio da antiga Mogiana, na Estação. Antes, a irmã resgatava ACF, mas se cansou da insistência do irmão de 49 anos em voltar para a rua. Faz dois anos que ele está nesse vai e vem. Agora é ele quem decide quando vai ficar em casa. “Estou na rua, mas estou feliz. Ainda sou feliz. Fico uns dois meses e volto para minha irmã”, garante. Os quatro irmãos dele têm moradia. ACF não tem “porque jogou tudo no lixo por causa do álcool”. Diz que a dependência o fez trocar a mulher pela pinga. As primeiras doses de cachaça tomou quando era um garoto, em idade de brincar. Bebe desde os 12 anos. Passou “duros” meses internado numa fazenda para vencer o vício. Conseguiu. Ficou três anos vencendo a tentação de voltar a beber. Mas, em 2005, durante uma “daquelas excursões” para Porto Seguro, lugar que era “doidinho” para conhecer, tomou uma cerveja. O gole foi fatal. “Perdi a sobriedade. Fiquei três anos bem, mas não teve mais jeito”. ACF diz que não se arrepende de ter terminado o romance de oito anos por causa da bebida “porque depois que a porcaria está feita não adianta querer fazer diferente”. Ele vive de mendicância. Se alimenta das refeições que pede para os outros e alimenta o vício com os trocados que ganha. Quando pede moedas, fala a verdade: “é pra comprar pinga”. ACF faz planos. Quer ter uma chácara para tomar conta e cuidar da criação. Pretende morar sozinho. Herdeiros, ele não tem. Nem vai ter. O médico fez exames e atestou: ACF nasceu estéril. A família só continuará crescendo na casa dos irmãos. Uma das irmãs tem oito filhos, “um pertinho do outro, com um ano de diferença entre um e outro”, conta com pitada de orgulho e intimidade. Como faria qualquer tio.

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