Dentro desta caixa mora um homem


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<b>CASA IMPROVISADA</b> - Morador de rua se abriga em uma caixa de papelão na Avenida Elisa Verzola Gosuen
<b>CASA IMPROVISADA</b> - Morador de rua se abriga em uma caixa de papelão na Avenida Elisa Verzola Gosuen
Com a vida reduzida a dias de bebedeira, restos de comida e um cobertor, eles só sabem o que significa ter um emprego, parentes e um teto quando pinçam na memória o passado. Incômodo para muitas pessoas, os moradores de rua têm se transformado num problema crônico em Franca. Levantamento feito até agosto pelo programa Busca Ativa, da Secretaria de Ação Social, apontou que na cidade há pelo menos 219 pessoas vivendo nestas condições. O número é mais que o dobro do cadastrado em janeiro deste ano quando foram encontrados 104 moradores. Flagrá-los deixou de ser algo raro. Nas portas dos bancos, sentados nas calçadas, praças e nas principais avenidas de Franca, vê-los se tornou uma cena frequente. A maioria dos moradores de rua é homem, de meia idade, tem algum vício e desavenças familiares. Nesta semana, ao passar por uma praça na Avenida Eliza Verzola Gosuen, uma caixa grande caída no chão chamou a atenção da reportagem. A surpresa foi maior quando descobriu-se que aquele papelão é usado como moradia por um homem. Para se proteger do vento, CRL, um senhor de 45 anos, se enrola nos seus dois cobertores e permanece dentro da caixa doada por um “amigo de rua”. Ele veio de Minas Gerais. Morava em Coronel Fabriciano, cidade a 600 quilômetros de Franca. Em 2007, após se separar da mulher, com quem dividiu a mesma casa durante 21 anos, deixou de ter residência fixa. Passou a viver mudando de cidade e dormindo nas ruas. Deixou a terra onde vivia para não ficar no mesmo lugar que a ex-mulher. A escolha lhe custou a distância dos dois filhos. Só de pensar no nome dos jovens de 18 e 21 anos, CRL chora. “É saudade”, diz, enquanto enxuga os olhos. Ele disse que fala por telefone com os filhos de vez em quando, mas não detalhou como. CRL disse que os meninos não fazem ideia de que está vivendo nas ruas, que depende de doações para comer, que passa dias sem banho e com frio. O fim do casamento ocorreu por causa do vício. Motorista, ficava dias fora de casa, mas quando chegava, não conseguia se separar da bebida. CRL consome pinga desde os 15 anos. Não há chances de reatar com a ex-mulher. Ela arrumou outra pessoa. Ele chegou a Franca pedindo carona nas estradas. Está há algumas semanas na cidade, instalado na praça da Avenida Eliza Verzola Gosuen, dentro da caixa transformada em quarto. Na bagagem que transporta, CRL tem dois cobertores, as roupas do corpo, o RG e carteira profissional. A vontade dele é conseguir um novo registro no documento e recuperar a dignidade. Acredita que só empregado deixará a cachaça. “Não dá para ficar sem bebida à noite. Uma porque já estou acostumado. Outra que não tem como enfrentar a rua sem bebida. Bebo para ter coragem. Bêbado você não tem medo de nada”. Quando desceu em Franca, CRL chegou a passar uma noite no Abrigo Provisório, mas não quis permanecer lá. Embora a população de moradores de rua oscile muito, a Prefeitura lançou no início do ano o programa Busca Ativa para tentar resgatar a vida dessas pessoas. A partir de um mapeamento feito em janeiro, a Secretaria de Ação Social, com apoio da Guarda Municipal, Polícia Militar e Polícia Civil, faz um trabalho de convencimento dos mendigos para que deixem de viver nas praças, prédios abandonados ou sob viadutos. Quando aceitam, são levados para o Abrigo Provisório. Muitos não permanecem na entidade porque o consumo de bebidas alcóolicas e drogas é proibido. Cabe aos funcionários do Abrigo Provisório encaminhar esse público para internação em fazendas de recuperação, às suas cidades de origem (a Prefeitura paga as passagens) ou para cursos profissionalizantes. Adair Carvalho, administrador do Abrigo, percebeu aumento no número de moradores de rua na cidade. “O pessoal de Franca é muito bom, sempre ajuda. Tem morador que fala que ganha até R$ 30 por dia só pedindo nas ruas da cidade, por isso eles querem estar aqui”.

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