Como mencionei no meu texto anterior – Comportamento, disponível para leitura em http://www.comerciodafranca. com.br/materia.php?id=46844 –, é comum policiais que querem entrar em agência bancária, para tratar de assuntos pessoais, portando arma de fogo. Alguns até dão voz de prisão, por crime de desacato, ao vigilante que se recusa a destravar a porta giratória. Muitos ingressam na Justiça com ação de indenização por danos morais contra o banco, alegando constrangimento.
Reitero meu entendimento de que o policial só pode entrar armado se estiver trabalhando e for acionado para atender a alguma ocorrência no interior da agência. Ou seja, no exercício da função. Do contrário, não. Ainda que fardado e em horário de trabalho, ele não pode entrar armado se vai, por exemplo, pagar uma conta ou descontar um cheque no caixa; isso não faz parte da função. A norma a todos é imposta. Afinal, que falta faz a arma dentro do banco? Acatar a norma não traz nenhum desprestígio à nobre profissão policial. Alguns policiais indagam: `como fica minha segurança pessoal?`.
Fica a mesma dos outros usuários. A situação põe frente a frente o direito e o dever: o direito que o policial pensa ter, por possuir autorização para andar armado mesmo fora do serviço, e o dever que o vigilante, no seu ganha-pão, precisa cumprir. Um pouco de bom senso resolve a questão. Garantir a segurança de todos os usuários e clientes é muito mais importante e necessário do que ceder à vontade de um só, que nenhum prejuízo sofre por ficar uns minutos separado do revólver. Se alguém souber de algum policial que tenha morrido por estar desarmado dentro de uma agência bancária, me conte, pois eu nunca ouvi falar. Os policiais estaduais estão desvalorizados e desprestigiados, isso é notório, mas por questões outras (baixos salários, excesso de trabalho etc); contra isso sim devem lutar, e contam com o apoio de toda a população.
O mundo está caótico. Para melhorá-lo, cada um de nós precisa repensar as próprias atitudes, resgatar a índole pacata, a natureza tranquila, a paciência, o bom humor, a educação. Ser pacífico não é ser fraco. Criam-se conflitos por motivos fúteis. Questiúnculas que podem ser resolvidas com um mínimo de calma acabam em tragédias, agigantam-se, multiplicam-se. Sentir-se ofendido por causa de futilidade revela pobreza de espírito. Nas pequenas desavenças está a oportunidade de cultivar a tolerância e o equilíbrio que serão úteis na hora de enfrentar grandes problemas. É desumano criar caso, querer expor à humilhação quem, por um motivo ou outro, não pode reagir. Num restaurante, vi um senhor de idade, sem motivo, destratar o garçom que lhe tratou com polidez; foi tamanha a boçalidade que perdi o apetite.
Não se pode deixar dominar pelo egocentrismo. Pessoas que têm mais dinheiro ou profissões com alguma parcela de poder, aí incluídos os políticos, precisam acatar regras a que todos estão sujeitos, ter tirocínio para saber quando estão investidas da autoridade e quando não estão, distinguir o que pode do que não pode. Quanto mais autoridade, mais responsabilidade. As prerrogativas do cargo devem ser usadas no desempenho da função e não para benefícios pessoais. Mais importante do que se portar bem numa situação conflituosa é agir preventivamente e evitá-la; se é possível prever, é possível evitar. Ser encrenqueiro sem motivo revela desarranjo emocional, questões íntimas mal resolvidas, falta de paz interior.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro `Pensando na Vida` – paulopereiracosta@uol.com.br
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