Um pouco de tecnologia


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Há pouco encontrei um dos meus leitores e ouvi uma reclamação, acredito, bastante justificada: em minha coluna estou dedicando muito pouca atenção aos aspectos tecnológicos que envolvem a produção de calçados. Há certa razão nesta reclamação. Acreditava que, escrevendo coluna num jornal diário de grande circulação, como é este Comércio, não cabia escrever sobre aspectos e problemas técnicos tão freqüentes na indústria. Não pretendo me tornar comentarista econômico. Numa palestra, não faz muito tempo, recebi nota zero como economista e nota dez, como técnico da indústria de calçados, avaliações que levei bastante a sério e tratei de esquecer. Nas minhas colunas semanais abordo muito mais aspectos gerais, tanto da indústria de calçados brasileira como da mundial, principalmente, sobre perspectivas e tendências. Mas um pouco de tecnologia de vez em quando não pode fazer mal a ninguém. Acontece que, ao encontro fortuito com este amigo, seguiu-se assistência a uma indústria, onde verifiquei completo desconhecimento das mais elementares regras para uma boa e permanente colagem. É verdade que as indústrias recebem visitas periódicas dos técnicos dos fabricantes de colas, com a missão de instruir e controlar as técnicas adequadas e necessárias para uma boa colagem, principalmente, quando se trata de colagem de solas. Antigamente, cem por cento das solas eram costuradas sobre o cabedal, além do reforço da colagem. Hoje, quase todas as solas são coladas e, ocasionalmente costuradas pelo método de blakeação. O nome da ação deriva do coronel Blake, inventor do método no século dezenove. Todas as colas produzidas hoje no Brasil por indústrias tradicionais são de ótima qualidade. São tão boas, que aceitam toda espécie de maus tratos e — ainda colam! Infelizmente, esta já não é colagem de cem por cento de segurança, mas ainda é o suficiente para segurar a sola sobre o cabedal, durante um bom tempo. A colagem em si, é um processo químico e físico, com parâmetros bem definidos e que não sendo obedecidos na íntegra e rigorosamente, podem comprometer o resultado da operação. Sabemos que nosso operariado não prima pela instrução. Que tende a facilitar as operações para o lado deles de todas as maneiras. Se a supervisão e controles não forem rigorosos, a tecnologia e o resultado final sairão prejudicados. No processo de colagem não existem atalhos, não existem facilitações. Ou a receita é obedecida na sua íntegra ou o resultado será parcial e o produto sairá prejudicado. Nos anos de 1974 e 1975, na então Faculdade Pestalozzi de Ciências, Educação e Tecnologia, sob os auspícios do Ministério da Indústria e Comércio, foi executado o projeto “03.02.03”, de Elaboração de Normas Técnicas e Estudos sobre Padrões de Qualidade em Calçados Nacionais. À Faculdade Pestalozzi foi confiada a parte de Processos de Colagem. A tarefa foi desenvolvida em mais de 12 mil testes com diversidade de colas e de materiais. Fui coordenador do projeto e tinha como assistentes e pesquisadores Luiz Tacca Júnior, Romeu Caetano Cintra e Maria Aparecida da Silva. O projeto foi concluído e recebeu elogios do presidente da Secretaria da Tecnologia da Presidência da República (Governo Geisel), Dr. José Walter Bautista Vidal. Os resultados foram, posteriormente, publicados em forma de livro. Com isso quero deixar patente que o assunto de colagem foi tratado com muita seriedade e técnica a partir da iniciativa do governo, há mais de trinta anos atrás. A matéria é complexa, por envolver muitos fatores. Entre os mais importantes e que podem influenciar o resultado de boa colagem devem ser considerados: (a) viscosidade da cola, (b) componentes básicos da cola, (c) materiais a serem colados e seu teor de graxa, (d) dureza dos materiais a serem colados, (e) preparo físico da superfície a ser colada, (f) preparo químico de superfície a ser colada, (g) modo de aplicar a cola e a sua quantidade, (h) uso de isocianato (conhecido como acelerador, reticulante e outros nomes), (i) tempo de secagem da película de cola, (j) reativação da cola, o tempo e a temperatura, (k) tempo e pressão da prensagem, (l) temperatura do ar ambiente, (m) umidade relativa do ar, (n) tempo da maturação (conhecida como cristalização) da colagem antes de ser submetida ao uso. Como se vê, são numerosos fatores. Basta desobedecer um deles e a colagem, fatalmente, será comprometida. Para quem conhece o ambiente das fábricas e a falta de responsabilidade da grande maioria dos operários, não constitui surpresa o número de devoluções e reclamações por parte dos clientes. Mas, para os responsáveis pela produção a culpa é sempre da cola! E o técnico do fabricante da cola, para não despertar animosidade e não alimentar discussão que poderia perder um cliente, prefere fechar os olhos e aceitar os fatos. A produção de calçados, hoje, virou engenharia de precisão. Improvisações ou achologia não têm mais espaço na indústria. Mas, será que vamos precisar de mais uma geração para isso ser entendido? <b>Primavera-verão 2010</b> Mais de 50 desenhistas e fabricantes italianos vão participar da exposição primavera-verão 2010, Shoe & Leather Fair Middle East and Fashion Arábia, no Abu Dhabi National Exhibition Centre, entre 26 e 28 de outubro. A participação foi organizada pela Associação dos Fabricantes Italianos (ANCI) e a Comissão Italiana de Comércio (ICE). <b>AINDA A EXPOSIÇÃO</b> Mr. Christopher Hudson, diretor executivo da Mecom Forums, organizadora da feira, declarou que a delegação italiana é a maior já vista nesta região. Com isso, segundo ele, os italianos demonstram o valor que atribuem às republicas árabes e ao Oriente Médio como mercados importadores que retiveram a capacidade da demanda por artigos de excelente qualidade e luxo. Completa, dizendo que “estamos contentes que os visitantes terão oportunidade de ver tantos exportadores italianos mostrando novos desenhos, tendências, além de destacarem também as características que distinguem o calçado italiano pela criatividade, estilo, inovação e materiais de qualidade”. Mais de 150 empresas de outros países como Brasil, França, Alemanha, México, Espanha e Reino Unido também participarão. <b>Zdenek Pracuch</b> <i>Sapateiro, shoemaker</i> pracuch@comerciodafranca.com.br

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