O que revela muito de nós é a forma como nos comportamos em situações de contrariedade. Certa vez, quando era escriturário de banco, depois de preencher numa Olivetti o cadastro de um cliente, levei para o gerente assinar. Vendo várias letras rebatidas por cima de outras, ele recusou-se a assinar e mandou que eu refizesse o trabalho. Minto se disser que gostei. Mas fazer o quê? Brigar com ele? Refiz e ele assinou.
O fato que me desagradou teve um efeito prático positivo. Os meus trabalhos datilografados passaram a ter outra cara. De fato, quem usou máquina de escrever sabe que não adiantava, por exemplo, querer fazer um `r` virar um `f` batendo este em cima daquele sem antes apagar. Ficava feio e denotava desmazelo. Antes disso, eu havia trabalhado sete anos numa padaria. Havia frequentes demissões e trocas de funcionários, por brigas com o patrão. Na época, fui o único a permanecer. Não por ser melhor do que os outros; fiz muita besteira e inúmeras vezes deixei bravo o seu Nazih. Só que, quando ele me repreendia, eu baixava a cabeça e ficava quieto, sem retrucar. Ele era o patrão e podia exigir que eu trabalhasse direito.
Dia desses, num jogo do campeonato brasileiro de futebol, o centroavante Washington reclamou acintosamente do árbitro porque este deixou de apitar uma saída lateral da bola. O árbitro lhe advertiu com o cartão amarelo. Ao invés de acatar, o jogador teve uma reação desrespeitosa, com gestos afrontosos. Resultado: levou cartão vermelho, foi expulso e prejudicou seu time. É comum policiais irem ao banco cuidar de algo pessoal e achar que têm o direito de entrar portando a arma de fogo que usam no trabalho. Ao serem barrados, aprontam um escarcéu. Sem razão. O policial precisa entender que as normas de segurança valem também para ele. Se ninguém pode entrar armado, ele também não. Policiais existem para resolver problemas, não para criá-los.
A vida em sociedade não prescinde de regras. Se cada um de nós as acata, tudo flui melhor. Precisamos ter noção de tempo e lugar, saber a hora de ceder. Há situações em que se deve baixar a cabeça, resignar-se, acatar a autoridade; o empregado perante o patrão, o aluno diante do professor, o filho frente ao pai etc. Não se trata de aceitar tudo passivamente, mas de ter discernimento suficiente para saber comportar-se. Mesmo quando cremos ter razão, podemos tentar demonstrá-lo sem fazer barulho, criar caso, tumultuar. Quase sempre é possível chegar a bom termo nos conflitos com um pouco de calma, de bom senso, de serenidade, sem jogar lenha na fogueira. Se for inevitável `soltar os cachorros`, que seja depois de esgotar os meios pacíficos de busca da solução.
Às vezes descontentamos alguém porque o que fazemos está abaixo da nossa capacidade, e então somos instados a fazer melhor. Em vez da revolta, o correto é reconhecer o erro e buscar a melhora. Devemos empregar todo o nosso potencial e agir com a vontade firme de obter bons resultados. O que deve impulsionar-nos é algo que vem do nosso íntimo, um elevado senso de autoexigência, um esmerado juízo de valor, porém dentro do campo da lucidez, sem ultrapassar a linha que separa da cegueira. Ou seja, temos de fazer bem feito para atender à nossa sã consciência e não para angariar admiração e reconhecimento. Ser admirado é melhor do que ser repudiado, mas tudo é mera consequência do nosso modo de ser e agir.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro `Pensando na Vida` – paulopereiracosta@uol.com.br
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