Ódio


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Acho que nada aproxima mais o ser humano da irracionalidade do que a ação movida pelo ódio, sentimento que nos priva do poder de raciocínio. Neste mundo há muita coisa repulsiva que a gente deseja mudar, mas não é através do ódio que vai conseguir, pois é um sentimento corrosivo, extremamente maléfico. Quem odeia se tortura, se corrói internamente. Mira y Lopez, no clássico livro Os Quatro Gigantes da Alma, escreveu: “O ódio é a ‘cólera em conserva’, ou seja, uma atitude iracunda que se cronifica, estratifica e adquire especiais peculiaridades, pela insuficiente descarga de seus impulsos destrutivos”. Por isso, feliz de quem consegue preencher a mente com bons pensamentos, o coração com bons sentimentos. Perder tempo desejando ou tramando o mal para alguém denota pobreza de espírito, desarranjo emocional. A pessoa ressentida acaba isolada. Quem vive em paz consigo mesmo não aborrece os outros. O ódio que a pessoa carrega revela seu conflito íntimo. Embora o ódio faça pensar em reação a uma ofensa sofrida, muitas vezes a ofensa nem foi praticada. Inveja, medo, despeito, por si só, gera ódio. É a aversão gratuita. Não raro, a pessoa odiada nada fez de mal. Quem detesta alguém é porque, no fundo, vê certo valor nesse alguém; do contrário o ignoraria. Em homicídios de autoria desconhecida, às vezes, há uma estupefação geral porque a vítima era uma boa pessoa. ‘Não tinha inimigos’, dizem. Ledo engano. Quem tem qualidades também atrai inveja, ódio, inimigos. Não devia ser assim, mas é. O ódio, além de negativo, é um sentimento burro. É atraso de vida. “Guardar ressentimentos é tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra” (Einstein). Tem um sem-fim de coisas melhores para se fazer. Para quem tem ocupações produtivas e úteis, não sobra tempo para nutrir ódio nem por coisas nem por pessoas, por mais insensatas sejam estas. Mesmo que surja um motivo para raiva, é necessário lidar com ela de forma a superá-la e livrar-se dela. O rancor é como lixo, deve ser jogado fora diariamente, não se deve deixar acumular. Todos já ouvimos alguém dizer que foi guardando mágoa, guardando, até que um dia explodiu e... fez besteira. O ódio torna insustentável a convivência. Assim, tanto na órbita espiritual quanto na material, o segredo é acumular coisas boas e úteis e descartar as ruins, para ter paz. “A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos” (Einstein). Retribuir ódio com ódio é insensatez. Melhor ignorá-lo. Às vezes, o ódio vem de uma paixão não correspondida. Irracionalidade pura. Uma das ações mais rasteiras é a clássica ameaça “se você não ficar comigo, não fica com mais ninguém”. Quando o ódio tenta nos dominar, basta ignorá-lo. Assim, ele se desintegra, decompõe-se. A gente tem mania de dizer que odeia isso, odeia aquilo. Isso não é bom. Seja qual for a causa, não há razão para guardar ódio. O mundo é grande o suficiente para abrigar todos; cada um pode viver sua vida pacificamente e de acordo com suas preferências. Avenha-se com a própria consciência quem a viola. Como nem tudo na vida nasce pronto, o melhor a fazer, quando vem uma ofensa, é eliminar logo a indignação, ao invés de alimentá-la. Não é bom agir por impulso. O modo mais inteligente de evitar ações insanas é deixar uma considerável distância entre o pensamento e a ação, para que no percurso seja possível esfriar o ódio e voltar à sensatez. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’ – paulopereiracosta@uol.com.br

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