Foi assim. Pensava sobre Desapego. A favor do hábito, dessa mania de guardar tudo - embora esteja careca de saber que somos o que decidimos ser - lanço mão da genética: minha mãe era assim, minha avó era assim. Mas meu pai não era; minha outra avó, também não.
Eu sou de guardar. Guardo papeizinhos, gravurinhas, santinhos, convites, fotografias, vestidos, pedaços de rendas, discos de vinil, enxoval bordado feito para o primeiro filho, primeiro cobertor das crianças, primeiro dentinho, desenhos das netas, lentes e armações de óculos antigos, bijuterias fora de moda, apliques de cabelo, sapatos que não servem mais. Sabe aquelas bolsas americanas de metal? Tenho um monte, até repetidas, pois em número acrescidas pelas que mamãe deixou ao morrer: às minhas - algumas sem uso - somaram-se as dela, novinhas igualmente. Sou incapaz de dar para alguém os vestidos manequim quarenta que nunca mais vão me servir, nem que eu emagreça vinte quilos.
Estola de pele? A cinza, um dia, vai ser alvo da chacota das netas. Convite de formatura? Tenho. Estão numa caixa em cima do guarda-roupas. Blusas de laise de minha avó? Tenho. Pra que servirão? Não faço idéia.
Pior que essa tranqueira material que facilmente pode pegar fogo e desaparecer num instante dos meus olhos e das minhas caixas, são as dores, as sensações de impotência, as mágoas, os não-ditos, as omissões, os não-feitos, indelicadezas, lembranças, frustrações, raivas, a inércia, ausências, as presenças prometidas e não cumpridas, as restituições que não fiz, as promessas que nunca paguei..., que insisto em guardar comigo.
Carrego nas costas e no peito muitas dores: rejeição, saudade de pessoas que não voltam mais e de outras que nem fazem sentido mais na minha vida. Fotos, histórias, fatos, letras de música e algumas poesias, essas de cor. Caminho com a certeza de estar permanentemente comigo a tristeza de não ter completado um monte de projetos.
Vieram de onde menos esperava as palavras e a conseqüente sugestão para nova postura. A pessoa dizia o óbvio que, como sempre - pelo menos para mim - é o impossível, o irrealizável, o oculto, o absurdo, o assombroso... Falava da necessidade de abrir mão para abrir caminho, dar espaço para o novo. Dizia que reter, guardar, armazenar - seja o que for - é desperdício de energia. Que esse negócio de guardar ‘para usar um dia’, ‘numa eventualidade’, ‘numa ocasião especial’, ‘numa determinada situação’, é atraso de vida. Que isso impede que procuremos, efetivamente, viabilizar novidades.
Fiquei atenta. Não acredito em premonições - embora seja mulher e mulher, como todo mundo sabe, tem um sexto sentido. Não acredito em discursos retirados dos livros de ajuda. Arrepio só de pensar em sermão. Mas é agosto. Mês dos ipês floridos, das flores amarelas caídas sobre a grama seca, mês de cachorro louco e dias aziagos. Mês da morte de Vargas e de Marilyn Monroe.
Mês do folclore... Eureca! Só podia mesmo ser a conjunção desses vários fatores para me deixar sensível às palavras de uma dama das manhãs da televisão! Verdade, nunca lhe vi um programa inteiro e torço o nariz para qualquer referência às suas palavras. Naquela manhã atípica, rompida a barreira do orgulho, desarmada pela surpresa, sem vaidades tolas e sem prepotência, ouvi palavras simples que, mesmo classificadas como obviedades, calaram fundo, mobilizaram-me e vieram de encontro à minha necessidade interior.
Não, não sei se vou tomar jeito. Provavelmente continuarei abusada, orgulhosa, vaidosa, nariz arrebitado. Continuarei guardando, armazenando, juntando, ‘mocozando’ inutilidades. Claro, continuarei a atribuir a incapacidade de mudar, antes à genética do que à minha própria vontade. Vai entender o que se passa na minha cabeça e no meu coração...
<b>CULINÁRIA </b>
No livro de receitas da família, antigo manuscrito: “Entrada de Bananas – Enrolar cada banana (nanica) em presunto, colocando-as lado a lado em pirex untado com manteiga. Por cima, jogar o creme feito no fogo: misturar 1 xícara de leite, 1 colher de queijo ralado, 1 colher média de manteiga, 1 colher mal cheia de farinha de trigo, pitada de bicarbonato. Depois, gratinar – Observação – Uma receita de creme para cada 2 bananas). A receita é boa e o recado final é engraçadíssimo: ‘Júlia, o nome do prato já é muito sugestivo. Banana é sempre bom, de entrada, no meio ou na saída. Você pode, também, variar o tipo da banana. Beijão, Dulce”.
<b>MISTÉRIO </b>
A Polícia Federal teve trabalho em Franca e em cidades próximas. A notícia foi divulgada com destaque, ontem, nas várias emissoras de televisão e de rádio, sobre a prisão de quadrilha envolvida com dinheiro, diamantes e agiotagem. Fiquei indignada. Prenderam com estardalhaço alguns supostos bandidos civis. Enquanto isso, centenas de bandidos políticos cujos nomes são conhecidos e têm seus crimes divulgados continuam soltos e sem punição, dando continuidade aos mandos, desmandos, roubos e falcatruas.
<b>PONTO FINAL</b>
Parlamentares teriam reclamado de programa humorístico em que foram chamados de ‘deputados de programa’. Num quadro, uma prostituta fica indignada quando lhe perguntam se ela é deputada. Um outro, em que são vacinados contra a ‘febre afurtosa’, também provocou reação. O presidente da Câmara teria dito que ‘ o programa passou dos limites. Eles têm talento suficiente para fazer graça sem desqualificar a instituição que garante a liberdade para que façam graça”. Os humoristas do Casseta & Planeta não falaram sobre o assunto, mas teriam publicado nota, onde afirmariam que em nenhum momento tiveram a intenção de ofender as prostitutas, pois o objetivo da piada era somente de comparar duas categorias profissionais que aceitam dinheiro para mudar de posição. E que, caso os parlamentares optassem pelo direito de resposta, informavam que as gravações ocorrem às segundas-feiras, o que obrigaria os deputados a “interromper seu descanso”.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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