‘O vírus da gripe suína logo será substituído’


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DIPLOMADO -  Rubens Pereira dos Santos é infectologista há 16 anos e desmistifica o medo da gripe suína. Para ele, logo o vírus será substituído por outro
DIPLOMADO - Rubens Pereira dos Santos é infectologista há 16 anos e desmistifica o medo da gripe suína. Para ele, logo o vírus será substituído por outro
<p>O Brasil registrou perto de 70 mil mortes decorrentes da gripe comum, ou sazonal, como é chamado é vírus influenza para diferenciá-lo na comparação com outro A H1N1, que vem assustando o mundo. Nas últimas semanas, o Brasil viu os números de pessoas contagiadas e óbitos crescerem a ponto de não se imaginar que a circulação do vírus possa ser controlada no País.  </p> <p>Apesar da quantidade de infectados e mortes, a incidência da Gripe A, ou gripe suína, não é maior do que aquela que a maioria das pessoas está exposta todos os dias. O que concorre para o clima de medo que se instalou em consultórios, ambientes de trabalho e outros propícios à aglomeração é difícil apontar com exatidão. Fato é que as informações a respeito circulam com velocidade - mas ainda desencontradas - causando um efeito cascata em torno do episódio gripe guína. </p> <p>Também não se esclarece porque pessoas sem nenhum histórico de doenças preexistentes, jovens, gestantes e crianças são o público mais atingido pelo vírus. Não há explicação sobre essa preferência que o influenza A demonstrou em praticamente todos os países onde foi registrado, deixando aquelas pessoas com mais idade praticamente fora das estatísticas de contaminação. Apesar do quadro que parece ser mais grave a cada dia, o infectologista Rubens Pereira dos Santos, 48, não vê motivo para tanto alarde e assegura: “Com hábitos simples de higiene, como lavar as mãos com assiduidade e ter cuidado ao tossir, protegendo-se com um lenço ou o antebraço, já se pode evitar e muito o contágio”. </p> <p>O médico, formado pela Universidade Federal de Uberlândia, com 25 anos de carreira, 16 dos quais como infectologista, não tem dúvida quando diz que no ano que vem o vírus da gripe suína tomará o lugar do vírus da gripe comum e que aquele logo será substituído por outro. “É um movimento cíclico com mutações virais ocorrendo a todo instante. Temos muito o que aprender ainda”. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Todos os dias, novas notícias de gente jovem, gestantes, pessoas sem histórico de doença preexistente que morreram com a nova gripe são divulgadas e chamam muito a atenção. Por si, só isso já não seria muito preocupante?<br />Rubens Pereira dos Santos</strong> - É algo que está sendo notado mesmo. Mas eu acho que o fenômeno já ocorria e não era percebido. De certa forma, não deixa de ser preocupante o fato de que essas pessoas, e não outras, com idade avançada, sejam as vítimas da gripe A. </p> <p><br /><strong>Comércio - No Sul do País, onde ocorreu grande parte das mortes em decorrência do vírus, as pessoas estão cruzando a fronteira e comprando Tamiflu no Paraguai. É uma medida acertada, tendo em vista que havia falta do remédio no Brasil?<br />Santos</strong> - Não, não é acertada. Está tendo muita lorota. As pessoas estão pagando muito caro por uma caixa do que pensam ser Tamiflu e, na verdade, podem levar para casa um antigripal comum. Não se trata apenas de uma falsidade grosseira. Quem compra não tem condição de saber se o produto é adequado. Ocorre que, no desespero, as pessoas se apóiam onde podem.</p> <p><br /><strong>Comércio - Por que o Tamiflu desapareceu das farmácias?<br />Santos</strong> - O medicamento sumiu. E isso aconteceu porque, em parte, foi sequestrado pelos órgãos de saúde, que objetivam ter como atender a rede pública se a situação ficar mais grave.</p> <p><br /><strong>Comércio - A substituição da gripe comum pela ‘suína’ é outra informação que quando chega aos ouvidos da população causa medo e preocupação, porque ninguém entende o que isso quer dizer. Na prática, o que isso significa?<br />Santos</strong> - Na prática quer dizer que isso vai realmente acontecer em algum tempo e, depois, o vírus da gripe A será substituído por outro. É um movimento cíclico e natural. Por que algumas pessoas tomam remédio para gripe e depois se queixam de que não fez efeito? É um erro de conceito. Na verdade, o vírus foi selecionado em outubro e a vacina aplicada em abril. Nesse meio tempo, houve muita mudança, muita mutação, e já surgiu uma variante viral nova. Por isso é certo que o novo vírus vai dominar até o final do ano e início do ano que vem; depois será substituído.</p> <p><br /><strong>Comércio - Como o senhor discute e acompanha as novas medidas ou procedimentos que o governo ou órgãos de saúde tomam em relação à doença?<br />Santos</strong> - Eu acompanho tudo pela TV, por jornais, sites específicos ou não e por conferências virtuais com outros médicos. Estou sempre acompanhando. É um pouco assustador ver o medo das pessoas e os órgãos governamentais com dificuldade em prover a assistência necessária. As pessoas querem os exames, a medicação. O governo agora já nem está pedindo mais o exame. Não interessa mais saber se é o sazonal ou a gripe A, a não ser em casos muito graves, com risco de morte.</p> <p><br /><strong>Comércio - Como a comunidade médica envolvida diretamente com a contenção e prevenção do vírus da gripe A está atuando nesse momento?<br />Santos</strong> - O governo já tinha começado a ter problemas com o tratamento, que antes era de distribuir medicamentos para grupos de risco e casos graves. Mas até para detectar a gravidade da situação estava complicado porque o caso poderia não parecer grave nos dois primeiros dias, mas se tornaria assim em uma semana e, nesse período, já estaria fora da margem de ação do Tamiflu. Aí o governo liberava 10 comprimidos para cinco dias. O que ocorre é que o governo está passando para o médico a decisão de tratar ou não o paciente com o Tamiflu. Novos protocolos estão saindo todos os dias e, em pouco tempo, pode ser que o medicamento seja liberado pelo governo de forma ampla para todos os casos.</p> <p><br /><strong>Comércio - Uma pesquisa apontou que mais de 80% dos óbitos ocorreram sete dias após o contágio. Isso muda de alguma forma a rotina de atendimento nos consultórios e postos de saúde?<br />Santos</strong> - Muda completamente. Com o vírus sazonal, você orientava o paciente a ficar atento e procurar o médico sempre que necessário. Mas a notificação era tardia. Um idoso, por exemplo, ficava tossindo durante duas semanas, pegava uma infecção bacteriana e morria três, quatro semanas depois. Um tempo bem maior que o da gripe A. O que quero dizer é que o novo vírus tem detalhes para a gente aprender. Ele não é o temível da gripe espanhola, porque evoluiu e isso significa manter o hospedeiro vivo. Se matar todo mundo, também morre junto, mas ele ainda guarda características próprias que estamos aprendendo a cada dia.</p> <p><br /><strong>Comércio - A comparação que eventualmente é feita entre a gripe A e a espanhola não parece muito pertinente então?<br />Santos</strong> - Eu acho inadequada e completamente desproporcional. O que tínhamos no começo do século, quando a gripe espanhola se desenvolveu matando milhões de pessoas, era uma situação de pobreza muito grande na Europa, aliada à falta de condições sanitárias mínimas. Comparar uma e outra é um equívoco muito grande.<br /><strong></strong></p> <p><strong>Comércio - Um paciente acabou de deixar o seu consultório e atrás dele veio uma funcionária dizendo para os demais que se tratava de um caso de sinusite e não gripe suína. Há um pânico instalado em relação à doença?<br />Santos</strong> - A paúra está tão grande, mas tão grande, que alguns médicos estão com dificuldade de atender. Estão agindo assim, meio que disfarçadamente. Dentro do possível, temos que agir psicologicamente para diminuir o medo das pessoas, para que elas sejam sensatas e não ocorram em condutas inadequadas. Algo parecido como quando se descobriu o vírus do HIV que ninguém queria abraçar mais os outros. A gripe trouxe a todos a lembrança da morte. Ninguém sabe lidar com isso. Como ela trouxe esse assunto, todos estão apavorados, por vezes exagerando nas condutas, nas relações.<br /></p> <p><strong>Comércio - Esse medo disseminado, essa procura por consultórios médicos, por informações, a quantidade de notícias diárias sobre a doença, é algo que o senhor tenha visto ou conhecido em algum momento?<br />Santos</strong> - Não, é algo novo. Eu vi isso só quando a Aids surgiu para valer. Mas era algo mais escondido, contido. Agora não, é generalizado. Teme-se uma pandemia, e a última pandemia que existiu foi há mais de 40 anos, se não me engano, em Hong Kong.</p> <p><br /><strong>Comércio - A gripe aviária, em 2005, não foi considerada uma pandemia?<br />Santos</strong> - Não. A gripe aviária matou poucas pessoas nos países onde foi registrada. Ela, por outro lado, nos beneficiou de certa forma, porque foi naquela época que o Governo Federal lançou um plano de contenção para o caso de a doença se tornar realmente uma pandemia e comprou grandes lotes de Tamiflu. Até havia a dúvida se a medicação ainda estava eficaz, mas parece que ela teve sua validade estendida e, bem conservada, pode ser usada sem problema.<br /></p> <p><strong>Comércio - Em outra oportunidade, o senhor disse que a medida da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo em pedir o adiamento do retorno às aulas foi correta...<br />Santos</strong> - Sim. Uma das razões válidas para isso é que as crianças estavam voltando de férias e traziam o risco do vírus porque tinham viajado. De repente, poderiam transmitir umas para as outras durante duas semanas, que é o tempo de transmissão nas crianças, maior que nos adultos, que leva sete dias. Se você as segura em casa durante 14, 15 dias, acaba rompendo o ciclo de transmissão. Se alguma delas já tivesse adquirido o vírus, tirá-la do meio das outras ajuda a abortar novos casos. Eu só não sei se esse prazo é tão mágico assim e suficiente para conter o avanço, mas ele tem suas vantagens.<br /></p> <p><strong>Comércio - O senhor acredita que o Brasil possa repetir o número de mortos no México e Estados Unidos?<br />Santos</strong> - Acho razoável e estamos muito perto disso. Há algum tempo, as mortes apareciam em razão de semanas, mas hoje são vários casos por dia. Não estamos muito longe.<br /></p> <p><strong>Comércio - Os primeiros casos estão chegando aos Estados do Nordeste. É possível imaginar outro cenário para a região, mais grave que no restante do País?<br />Santos</strong> - Acho que sim e não. Não, porque chegando mais atrasado, o problema foi se regularizando no resto do País. Por outro lado, o sol e temperaturas altas podem ajudar na prevenção. Mas condições sanitárias precárias podem ajudar na propagação. Por isso que não tem como dizer como será o comportamento do vírus no Nordeste.<br /></p> <p><strong>Comércio - A condição sanitária está diretamente ligada à propagação do vírus?<br />Santos</strong> - A condição sanitária está associada a hábitos de higiene, uma boa nutrição e uma prévia imunização. Pode ver que a principal causa da transmissão se dá pela falta de hábitos simples de higiene, como lavar as mãos com frequência, tossir com um lenço ou o antebraço na frente da boca. No entanto, as pessoas não lavam as mãos como deviam; o brasileiro não tem esse hábito e até médicos deixam a desejar. Aliás, foi assim quando surgiram as primeiras comissões de infecção hospitalar. Descobriram que o médico fazia uma necropsia e em seguida um parto, sem lavar as mãos. Perceberam que as mães morriam nas mãos de médicos, mas não de parteiras. É que as parteiras, muito higiênicas, lavavam as mãos com muita frequência.<br /></p> <p><strong>Comércio - Qual o papel que a indústria farmacêutica vem desempenhando na busca por uma vacina para a gripe A?<br />Santos</strong> - É claro que tem muita coisa correndo por aí, com possíveis interesses financeiros não só de quem dispõe da patente do Tamiflu, como de quem vai lucrar com a produção da vacina. A indústria farmacêutica lucra com a doença. É de espantar muito o fato de vários países, com maior tecnologia e que isolaram o vírus antes, já estarem produzindo a vacina e o Brasil sequer ter recebido o vírus. Com isso não teremos tempo de desenvolver o medicamento e quebrar a patente, tendo que comprar do laboratório que detém essa patente. Se tivessem mandado o vírus para cá, o Brasil teria condição de desenvolver sua vacina. Entretanto, por interesse mercadológico, isso só vai acontecer no ano que vem.</p>

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