Sofrimento


| Tempo de leitura: 3 min
Não conheço receita mágica para evitar o sofrimento. O corpo e o espírito estão sujeitos a sofrer. O corpo, com dores terríveis: cólica renal, úlcera estomacal, coisas assim. Também há o sofrimento da alma: a amargura por uma desilusão amorosa, ou pela perda do emprego, ou pela morte de um ente querido. Sofrer, enfim, é próprio do ser humano. Saber lidar com o sofrimento talvez seja a forma mais racional de não sucumbir a ele. O sofrimento psíquico, a dor da alma, muitas vezes é mais difícil de superar; são feridas que podem levar maior tempo para cicatrizar. Nem sempre se justifica o sofrimento; às vezes sofremos porque administramos mal os nossos sentimentos, tornamos complicadas questões extremamente simples. Desempenhamos vários papéis e nunca está tudo encaixado e firme como gostaríamos; temos desarranjos que geram desprazer a uma de nossas `personas` e tentamos administrar isso de forma que não afete todo o nosso ser. Não é fácil, porém, impedir que um sofrimento na esfera pessoal atinja o desempenho profissional ou a relação familiar, etc. É comum sofrer por esperar mais de outra pessoa do que ela pode proporcionar. Assim, é salutar não exigir que alguém faça alguma coisa contra a própria vontade para nos satisfazer, pois isso acaba trazendo transtorno também àquele alguém. Não devemos contaminar os outros com os nossos dissabores. Fortalecer o espírito é a forma de diminuir a suscetibilidade, de não se abater além da conta por causa de fatos a que todos estão sujeitos. Por isso é errado jogar em ombros alheios o peso de problemas que nos cabe suportar. Quando o sofrimento é inevitável, é melhor enfrentá-lo de vez do que prolongá-lo tentando encontrar meios de fuga dele. Depender do sofrimento alheio para ter prazer é doentio, assim como sofrer com a felicidade alheia. Isso não condiz com uma mente sã. Ter excessivo apego a coisas materiais, querer possuir mais do que o outros, também traz sofrimento; cedo ou tarde vem a constatação de que isso não tem sentido. Condicionar o prazer, a alegria, a fatos que fogem do nosso controle é aumentar mais e mais as possibilidades de sofrimento. Há quem pense que o sofrimento é algo sublime, sagrado, e nos aproxima de Deus; citam o padecimento de Jesus Cristo na crucificação. Ora, em sã consciência, dá para crer que Deus quer nos ver sofrer? E, cá entre nós, sofrer não tá com nada. Qualquer dor, física ou da alma, é ruim à beça. Por isso, sofrimento é coisa para a gente fazer durar o menos possível; não é algo para prolongar. Para quem já passou por certas adversidades, e aproveitou-se disso para lapidar o espírito, é mais fácil compreender o sofrimento alheio e ajudar a atenuá-lo. Há, porém, pessoas mentalmente imaturas que pensam ter o monopólio da dor, desconhecem que ninguém escapa de ter desgostos, ignoram o sofrimento que assola as almas alheias; tais pessoas, depois de passar por uma situação de sofrimento, rebelam-se, voltam-se contra tudo e todos, assumem para sempre o papel de vítimas, querem que o mundo pare para consolá-las. `Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor` (Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito em `A flor e o Espinho`). Prefiro o lado oposto, e digo: da vida conheço o vaivém, não se preocupem comigo, por favor, continuem sorrindo, que assim eu me desligo da minha dor e logo vou sorrir também. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro `Pensando na Vida` – paulopereiracosta@uol.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários