Recebi convite de um amigo para a noite da estreia da nova residência. Orbitando em torno do anfitrião, uma miscelânea de pessoas, todas moradoras da mesma cidade. Embora se reconhecessem mutuamente, muitas delas poucas vezes tiveram oportunidade de trocar mais que um formal cumprimento.
Pensei nisso ao me ver sentada ao lado de uma personalidade urbana. Interpreto nosso conhecimento como superficial: éramos – pelo menos do meu ponto de vista – absolutamente desconhecidos.
Independente de podermos fornecer mútuas informações gerais – nomes dos nossos cônjuges, nossas respectivas atividades profissionais –, nunca poderíamos afirmar nossas preferências de leitura, se seríamos do bem ou do mal, se teríamos algum pendor artístico, essas coisas particulares que configuram a personalidade e que apenas a convivência faz conhecer.
Estava triste, particularmente triste, recuperando-me de um drama familiar. Passara três meses longe de casa, dos outros familiares e amigos, ajudando a filha puérpera que apresentara síndrome de depressão. Longe, mantive galhardia, coragem, valentia e firmeza. Voltando, dei-me o direito de desabar. Aquela particular noite marcava meu reinício na convivência com amigos.
Natural que perguntassem o que acontecera. E eu contei. Que ela estava bem e que de um momento para o outro começou a se sentir insegura, com muito medo, sem coragem de tocar o filho, embora chorasse com pena dele, que lhe sorria sem sequer imaginar o que se passava no coração da mãe.
Veio dele a pergunta se eu alguma vez tivera esse tipo de depressão Não, eu não, pelo contrário, adorei ser mãe, tanto que fui quatro vezes, fora um insucesso.
E teoricamente, eu conhecia? Ah! sim. Todas as tardes, quando ia para o quarto que alugara nas vizinhanças – aconselharam-me a sumir quando o marido voltava – pesquisei bastante sobre o assunto. Ah! É mesmo? Muito, eu disse. E o que mais te sensibilizou? E ai, caí na asneira de prolongar a conversa. `Foi perceber que, quando a mulher tem um filho, ela questiona a situação em três níveis diferentes e conflitantes: enquanto filha (vai compreender situações até então nebulosas pelo desconhecimento das razões da pessoa do outro lado da relação: uma coisa é ser a filha, outra é ser a mãe do filho); enquanto mãe (serei competente para cuidar da minha cria?) e enquanto pessoa (era isso mesmo o que eu queria?).
E o pior é que ela sente que o filho, em certo sentido, é uma frustração: sonhava com menino, veio uma menina – ou vice-versa. Idealizava um filho super inteligente... ele é normal. Sonhava com lindos olhos azuis – os dele (ou dela) são duas jabuticabas. Precisa solucionar todos esses conflitos. Numa situação normal é capaz de se sair bem e entender que, de fato, não é fácil amar nossos filhos como eles se apresentam mas que, se conseguimos, não há delícia maior. Essa é a grande vitória!`
Ao prosseguir, olhei para o sujeito. Primeiro achei que ele estava engasgado, tão vermelho e apoplético se mostrava, mas ele estava prestes a explodir. E explodiu: que nunca havia ouvido disparate maior, que ele nunca tinha rejeitado um filho, que sua religião considerava a maternidade uma situação sagrada, que a instituição da família era a maior riqueza de uma sociedade. Quis revidar com um `você nunca pariu`, mas ele me podou gritando que ouvira calado minhas barbaridades e que era minha vez de ouvi-lo. Não, não vou ouvir, decidi. Levantei-me, saí da mesa, com ele vociferando feito um pregador irado atrás de mim. Um bafão. Mas aprendi. Quando me fazem qualquer pergunta polêmica, minha primeira resposta é outra pergunta: `quer saber a verdade ou a mentira?`. Dependendo da decisão, respondo...
<b>ASPAS</B>
`Ciúme é querer manter o que se tem. Cobiça é querer o que não se tem. Inveja é não querer que o outro tenha. A inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrete. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.` (Zuenir Ventura, na abertura de Mal Secreto, livro que faz parte da coleção Os sete pecados capitais, editora Objetiva.)
<b>CULINÁRIA</b>
O Fishcake, comida tradicional e tipicamente inglesa, é fácil de fazer: cozinha-se o filé de peixe em leite e sal. Escorre e tempera com pimenta do reino. Coloca os pedaços sobre um purê de batatas e mistura, evitando esfacelar demais o peixe. Usa-se a a sobra do leite onde foi cozido, para consistência. Faz-se um bolinho (tamanho de pires de café, cinco centímetros de altura), passa-o na farinha e frita-o dos dois lados em manteiga e óleo de oliva (só para dar um colorido). Servir com fatias de limão, molho quente de creme de leite por cima e salada de espinafre.
<b>MISTÉRIO </b>
`As mensagens mais hostis que recebo quando discordo das crenças religiosas da maioria, vêm de cristãos. Não é uma ironia? Os cristãos em geral imaginam que nenhuma religião transmite tão bem como a sua, as virtudes do amor e do perdão. A verdade é que muitos que afirmam ter sido transformados pelo amor de Cristo são intolerantes à crítica - de uma intolerância profunda, até assassina`. Sam Harris, em Carta a uma nação cristã.
<b>PONTO FINAL</b>
As obras no final da Rua Jerônimo Rodrigues Pinto, Parque dos Lima e Parque Progresso, seguem aceleradas. Maravilhoso e fascinante trabalho de movimentação de terra está deixando a região com cara nova. Esse vai dar resultado: a natureza fará sua parte no uso do espaço. Já o trabalho de pintar as ruas, sinalizar direções e orientar o trânsito não vai adiantar nadinha. Francanos não ligam para semáforos, limites de velocidade, mão e contramão.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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