Encontro companheiro antigo da era de nossa afortunada juventude, quando gerente de banco tinha autonomia para decidir em nome da instituição, e tratava o cliente sabendo de suas necessidades e condicionamento moral para honrar compromissos. Se já não fosse o fio de bigode a endossar a transação, a estrutura moral não capengava ao garantir liquidez.
Operou-se mudança para engordar o lucro no balanço anual dos bancos, o mando pertence à fria maquina que a ninguém conhece ou pode avaliar, a não ser para debitar altos juros de até 20% em cheque especial e escorchantes taxas em serviços, incluindo ai a cobrança do talonário de cheque. A insígne figura do gerente antigo se apagou para dar lugar a outro que, sequer, tem tempo para atender clientes, envolvido em trabalho externo de captação de contas. Os fatos me fazem lembrar os modestos alunos de escolas rurais, levantando dedinho em busca de permissão da professora para irem à casinha – banheiro.
Voltando ao amigo da referência inicial, Nelson Galvão de Arruda, jauense de nascimento, francano por adoção, contador e gerente de banco à moda antiga, quando fui seu funcionário; sempre que o vejo, ouço a seguinte afirmação: "você ficou rico graças a mim, que o dispensei do banco". Rico não fiquei, mas, ele diz. Não tive outro caminho que não a demissão depois da suspensão a mim, por ele imposta, de 29 dias, quando dividia meu tempo entre banco e rádio.
Não devo negar: a saída do banco abriu-me novos caminhos, exigindo maior dedicação e empenho em São Paulo e Rio de Janeiro, onde profissionalmente, avanço mais adequado ao lado de melhores oportunidades ensejaram-me algum crescimento, tornando-me empresário do setor. A afirmação do amigo e antigo chefe, de que o emprego em banco não me levaria muito longe, tem me posto a refletir sobre a possibilidade de efeito contrário.
Continuando eu na atividade, quem sabe, a instituição financeira não teria sido incorporada por outra cujo desfecho foi o fechamento? Basta mirar o digno exemplo de um menino como eu, admitido em banco para entregar, de porta em porta, avisos de cobranças, lavrador que carregava consigo a volúpia pelo trabalho com denodo, chegou à presidência do maior banco privado do País. Nascido em Ribeirão Preto, cursou grupo escolar em Sertãozinho e foi o grande banqueiro do Brasil: Amador Aguiar.
Na década de 1930, uma mulher humilde, corajosa, valente e determinada, embarcava em Cristais nos vagões da velha Mogiana para levar um pequeno menino a transpor em nome de sua fé, o umbral do Seminário Santo Afonso, em Aparecida do Norte. Ouvira o chamamento da Santa Missão Redentorista e sonhara o filho sacerdote encaminhando almas: era minha mãe, de mãos fustigadas pelo trabalho, protegendo as mãozinhas inocentes e infantis deste pecador de agora.
Alguns milhares de meninos passaram pelas portas de entrada do Seminário Santo Afonso desde seu início em 1898, onde sou também um número. A fundação se deu pelos Redentoristas alemães liderados pelo Padre Gabardo Wiggermann, aqui chegado em 1894.
Dos que entraram, talvez um sexto tenha conseguido a sagração sacerdotal. Como a própria ordem Redentorista afirma – "Toda vocação é um projeto de Deus" –, era natural que muitos tivessem outras vocações, como sucedido comigo. Volto a refletir: quem sabe? Fora aquela minha vocação, minha tenacidade me aponta: poderia ser hoje, na história brasileira, o primeiro Papa.
Garcia Netto
Jornalista
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