O pai daquele que há de morrer


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Nada é mais natural e real nesta vida do que a morte. Principalmente, se aquele que há de ser morto tiver idade bem avançada e já não apresentar boa saúde. Nesse caso, o fim da existência toma ares até de alívio. Para muitos, encarar a morte de frente não passa de visão realista. Ainda recentemente, um casal suíço morreu por vontade própria. A mulher de noventa anos não tinha mais condições de si cuidar. Dependia do marido, que já passara dos noventa. Ele teve câncer. Com anuência da família e de uma junta médica, ambos tiveram mortes tranquilas, por injeções letais. Se hoje todos se apegam muito à vida, época houve em que morrer era natural. Buscava-se a morte ainda na juventude. Há menos de duzentos anos, a maioria dos escritores morria por volta dos vinte anos de idade. Eles eram acometidos pela tuberculose (o mal do século), doença sem cura naquele tempo. Os principais poetas do Romantismo brasileiro (1836-1881) morreram muito jovens. Eis alguns: Álvares de Azevedo (1831-1852), Casemiro de Abreu (1839-1860), Castro Alves (1847-1871). Viveram desregradamente e acabaram tuberculosos. O tema constante de seus textos foi sempre a morte. Contrariando a regra, Gonçalves Dias (1823-1864) morreu em um naufrágio, já na costa maranhense, quando regressava de Portugal. Apesar de ser poeta indianista, seus textos abordam a morte. O longo poema `I-Juca Pirama` (expressão tupi que significa: o que há de ser morto) demonstra isso de maneira bem clara. O poema tem dez cantos. No primeiro, I-Juca Pirama é aprisionado pelos timbiras, tribo antropófaga. Pela cultura indígena, ao comerem a carne de um desafeto, apossam-se da coragem ou bravura dele. Alguns versos descrevem: `No centro da taba se estende um terreiro/ E os moços inquietos, que a festa espera/ Derramam-se em torno dum índio infeliz`. No Canto II, os índios preparam a imolação de I-Juca Pirama. Na terceira parte do poema, querem saber sobre a vida do prisioneiro tupi, para ver se vale a pena comer as suas carnes. A partir do Canto IV, os versos passam a ser narrados por um eu-lírico de primeira pessoa: `Meu canto de morte/ Guerreiros, ouvi/ Sou bravo, sou forte/ Sou filho do Norte`. Na sequência, I-Juca Pirama pede clemência devido às condições físicas de seu pai: `Já cego e quebrado/ Sofrendo já tanto/ De fome e quebranto/ Sem lar, sem abrigo/ Só se guiava por mim`. Promete voltar quando o pai estiver morto. No entanto, os timbiras encaram o pedido como um ato de covardia. Humilham o condenado e o soltam. Ele parte em busca do pai. Para completar a humilhação, observe o reencontro no Canto VI: `-Filho meu, onde estás?/ -Ao vosso lado/ Aqui trago provisões`. Durante o diálogo, o pai fica sabendo do ocorrido. Não aceita o gesto de amor. Amaldiçoa o filho: `Tu choraste em presença da morte/ Meu filho não és/ Que tu, isolado na terra/ Não encontres amor nas mulheres/ E nem amigos tenhas`. Nos demais cantos do poema, com desfecho típico do Romantismo, em nada parecido à ficção do Realismo ou mesmo do Modernismo, I-Juca Pirama contradiz o próprio nome. Retorna ao território dos timbiras. Sozinho derrota a tribo, em homenagem ao pai! Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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