Quando a fé é o caminho


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Fé. Difícil definir o significado exato desta palavra. Mais difícil ainda é explicar do que ela é capaz na vida de algumas pessoas. Caminhar - ou pedalar - 600 quilômetros, por exemplo, pode parecer tarefa complicada e até mesmo impossível. Não quando o estímulo vem do coração e da fé. Mesmo não fazendo parte oficialmente do caminho da Fé brasileiro, muitas pessoas saem de Franca todos os anos rumo à cidade de Aparecida do Norte. No último domingo, um grupo de 18 pessoas chegou à Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no Vale do Paraíba, depois de pedalar por dez dias. O grupo foi recepcionado por seus familiares. Outros três amigos estão nos preparativos finais para a viagem. Eles saem daqui na próxima sexta-feira e vão de carro até Cravinhos, de onde partem, de bicicleta até ao município da padroeira do Brasil. De bicicleta são em média 100 quilômetros por dia, mas em alguns trechos não se consegue andar mais de 35. O percurso é inspirado no milenar caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e foi criado para dar estrutura às pessoas que sempre fizeram peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Milhares buscam alcançar alguma graça ou prestar uma homenagem e provar sua fé na mãe dos católicos. Saindo de Franca são 600 quilômetros. De onde ele nasceu em 2003, Águas da Prata, são 427,300 de viagem por dentro da Serra da Mantiqueira, passando por estradas vicinais, bosques, asfalto e trilhas. O caminho nasceu da ideia de um dos organizadores que já havia estado por duas vezes em Santiago de Compostela e queria algo parecido no Brasil. Chegando aqui contou para alguns amigos sobre seu propósito. Almiro Grings, Clóvis Tavares de Lima e Iracema Tamashiro deram início aos primeiros contatos com prefeituras próximas de Águas da Prata. Depois, eles lançaram a Associação dos Amigos do Caminho da Fé. De lá para cá, número de cidades que fazem parte da caminhada rumo a Aparecida do Norte só aumentou. Até hoje, seis anos depois de sua criação, o mapa que leva até a Basílica pode ser alterado para agregar cidades. No trajeto, a cada 25 quilômetros, em média, há uma cidade, um vilarejo para pernoite e alimentação do peregrino. Gasta-se R$ 60 diariamente. Os propósitos que fazem as pessoas deixarem o conforto de suas casas para ir até a Basílica são muitos. Para Luís Fernando Reis, católico de 38 anos, que já fez por duas vezes a peregrinação, a motivação inicial foi uma promessa restabelecimento da saúde da filha. Ele alcançou a graça e resolveu ir de bicicleta até Aparecida. Neste ano fez novamente o percurso. Sempre em grupo, ele garante que não é difícil quando se tem em mente um objetivo. O caminho é composto basicamente por estradas de terra que interligam as cidades do trajeto. Todo ele é sinalizado por setas amarelas pintadas em placas, pedras e árvores que orientam o peregrino. A beleza da natureza privilegiada, que passa por paisagens rurais, plantações, serras, cachoeiras, vilarejos, é, segundo Luís Fernando, um misto de natureza com simplicidade e acolhimento dos moradores que reconhecem e apóiam o esforço. O caminhante percebe que as dificuldades encontradas no trajeto são a síntese da própria vida. “A gente aprende que o pouco que necessitamos cabe na mochila e ao longo do percurso o peregrino vai se desprendendo das coisas matérias. É impossível não se deixar tocar”, conta emocionado Luís Fernando. Segundo Luís Fernando, que trabalha com marketing em Franca, é impossível separar o que é reflexão, fé ou apenas exercícios. Para ele, a preparação mental e emocional é mais importante que a física. Ao contrário do que muitos imaginam, apesar da distância e das dificuldades, este não é um território exclusivo para atletas. A reflexão pode ser encarada como a “viagem interior” que você faz durante o percurso. Muitas vezes mesmo pedalando em grupo, os integrantes se distanciam e sobra tempo para pensar na vida. Fé é fundamental para ele, pois, todo o esforço fica vazio sem a meta de chegar ao santuário. Um fato marcante do caminho são as pessoas que se encontram. “Nos pedem orações, nos abençoam e sempre tem aqueles que perguntam se estamos indo visitar nossa mãe”, explica. Cada peregrino, que opta por caminhar em grupo ou sozinho, é responsável por sua bagagem. Geralmente as pessoas levam em média 10 quilos de bagagem e nela deve ter, pelo menos cinco camisetas ciclistas, calça, bermuda, kit de primeiros socorros, ferramentas e peças sobressalentes, remédios, kit de banho, protetores solar e labial, máquina fotográfica, gorros e balaclava (gorro motociclista), capacete, mochila de hidratação, luvas de qualidade, barras de proteína, cápsulas de aminoácido e gel energéticos. Todos ainda devem levar credencial para carimbar no trajeto e comprovar o percurso, documentos pessoais, seguro viagem e nota fiscal da bicicleta, farol, bomba de pneu, cadeado, garrafinhas d’água, toalhas pequenas para o rosto e mãos.

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