Épico caseiro


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<b>HISTÓRIA NO PARQUE</b> - Cavaleiros que representam os mouros fazem evolução domingo durante cavalhadas realizadas no Parque ‘Fernando Costa’, em Franca: evento de mais de um século reuniu público perto de
<b>HISTÓRIA NO PARQUE</b> - Cavaleiros que representam os mouros fazem evolução domingo durante cavalhadas realizadas no Parque ‘Fernando Costa’, em Franca: evento de mais de um século reuniu público perto de
Se fosse pelas mãos de um bom cineasta, as Cavalhadas de Franca dariam um épico. Mesmo que não chegasse a tanto, teríamos ali reunidas características para, pelo menos, um bom roteiro passando pela fé e religião, entremeado por enfrentamentos entre soldados, insultos, traição. Mas como estamos falando de folclore, herdado dos colonizadores, e não da cultura branca contemporânea, vinda do norte industrial, as Cavalhadas resumem-se à importância que os costumes lhe reservaram: uma encenação curta em sua apresentação, mas longa o suficiente para se ouvir que “todo ano é a mesma coisa”. É como se o espectador quisesse que uma representação teatral com mais de 150 anos de existência tivesse que ir se adaptando aos novos tempos. Assim, os mouros vestiriam calças jeans em um ano e os cristãos portariam óculos escuros e ipod. No ano seguinte, uma banda de axé abriria o caminho para os seguidores de Mamoé e em vez de versos bem pensados, os defensores do cristianismo insultariam os adversários com um rap em que sobraria até para a polícia. Esta é a diferença básica entre folclore e cultura. O primeiro não deve se adequar a nada, pois é, na essência, a conservação de uma tradição. O segundo é o que temos no cinema, nas rádios, nas vitrines das lojas. É a interferência externa, o que não é genuíno de uma comunidade. Embora muito simples no visual, nos diálogos e até na apresentação, não deixa de ser surpreendente que quatro mil pessoas tenham deixado o conforto de seus sofás e a edificante programação dos domingos na TV para ir ao Parque Fernando Costa ver cavalos de muçulmanos e católicos levantando muita poeira e cavaleiros fazendo evoluções que tentavam lembrar as escaramuças entre as duas facções. Enfrentando-se pela hegemonia da fé, os mantenas mouro e cristão tentam desestabilizar o exército oposto. Mantena é sinônimo de rei ou líder e palavra que muitos dicionários atribuem ao evento em Franca. Nas Cavalhadas, os cristãos, liderados por Carlos Magno, levaram a melhor, mas, séculos depois, a história reservaria outro destino para eles. Para entender o significado do que foi representado neste final de semana em Franca, é preciso transportar-se no tempo. No final do século oitavo, os muçulmanos já haviam tomado todo o Mar Mediterrâneo e estabelecido o domínio da religião islâmica no sul da Europa até a Península Ibérica (Espanha e Portugal). Um exército organizado pelo rei Carlos Magno, nomeado imperador do ocidente por Roma, marchou ao encontro do mouros na Espanha e lá os derrotou. Realizada em dois momentos, a encenação em Franca começou na sexta-feira à noite, quando todos os cavaleiros ficam emparelhados, cobertos por mantos brancos, acompanhados de uma espécie de candeeiro, cenas que emprestam um ar medieval ao ambiente. Com água benta o padre Daniel Luz benze os amigos e os inimigos da fé cristã, mas evita chegar perto dos cavaleiros por medo dos cavalos. “Os muçulmanos nunca foram nossos inimigos”, diz o religioso católico citando entendimento do documento Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II. “Podemos, sim, viver em sintonia com o diferente, apesar de hoje vermos que é difícil, com tantas guerras por aí”, emendou o padre. Hoje não. Muçulmanos e católicos travaram há séculos guerras homéricas movidas pela religião e as Cruzadas provam como pode ser incompreensível a luta pela fé. Na Terceira Cruzada, no final do século 14, os sarracenos, muçulmanos persas liderados por Saladino, levaram a melhor e conquistaram Jerusalém. No domingo, às 14 horas, os cavaleiros voltaram a campo, identificados pela cruz e pela meia lua. Os primeiros, cristãos, vestem-se de azul. Os mouros, de vermelho. Nos diálogos que se seguem, uns e outros vão se insultando e os embaixadores dos dois lados vão ao rei adversário tentar a conversão do inimigo. Neste ano, as encenações receberam um golpe inesperado: a Justiça não permitiu que fossem usadas as velhas e tradicionais garruchas que com disparos de festim derrubavam soldados dos dois lados e eram uma atração à parte no folguedo. Carlos Magno manda o recado ao embaixador mouro: “Dou a chance ao seu rei que abandone seu ídolo imaginário e se converta ao batismo”. O mantena muçulmano, em bom tom, diz que prefere nadar em sangue a ignorar suas leis. Entre uma carreira e outra, em forma de oito, de trevo, de “x”, soldados imitam os ataques e contra-ataques aos dois castelos e num descuido, a princesa moura pula no lombo do primeiro cavalo católico que passa, numa traição inimaginável para seu pai, o sultão turco. Ela se converte primeiro; o pai, em seguida. Os soldados de Maomé depõem as armas e o mundo fica mais católico. Ao final, quando o castelo mouro é estraçalhado por rojões, um cavalo se assusta e acaba atingindo um dos pajens cristãos. Como no século oitavo, também não havia ambulância no momento para os feridos. O carro do resgate dos Bombeiros chegou em minutos. “O ferimento foi leve”, assegurou Carlos Magno.

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