Esperto, arteiro, de poucas palavras, mas de muitos sorrisos, assim é o menino Lucas Henrique Liduário, 6. O garoto protagonizou na última quarta-feira um episódio de surpreendente inteligência e coragem para sua pouca idade ao chamar a polícia para salvar a mãe desmaiada a seu lado, dentro de casa no Jardim Aeroporto III. (Leia mais em texto de apoio).
Dois dias depois, na noite de sexta-feira, a reportagem voltou a encontrar o pequeno herói na casa onde mora com a família. Lucas recebeu a equipe com timidez, mas 15 minutos depois já pulava e corria pelos 50 metros quadrados da casa de apenas quatro cômodos. Parou apenas por dois minutos para comprovar sua destreza ao utilizar o celular da mãe. Levou alguns segundos para mostrar como fez para discar os números programados para emergência no aparelho e partiu logo para o que realmente lhe interessava. “Aqui tem um joguinho legal...”, disse rindo.
Do lado de fora - no exíguo espaço de uma pequena garagem - apresentou com orgulho suas manobras mais radicais de bicicleta, seu brinquedo favorito. A residência, de onde pouco sai, é o lar de Lucas há apenas três meses. O curto espaço de tempo ainda não foi suficiente para que o menino conhecesse a vizinhança ou fizesse amizades na Escola Municipal “Paulo Freire”, no Jardim Aviação, onde cursa a primeira série. “Morávamos em uma fazenda em Restinga e mudamos para cá há pouco tempo. Como ainda não conhecemos ninguém, não deixo Lucas brincar na rua. Acho perigoso”, disse a dona de casa Aline Aparecida Cezário, 28, mãe do garoto.
Segundo ela, a rotina de Lucas é simples. Às manhãs - de 7 às 11h45 - ele passa na escola. À tarde, faz companhia à mãe em casa, assistindo desenhos na televisão, brincando com o irmãozinho Yan ou se divertindo com a bicicleta na garagem. E geralmente, às 21 horas já está na cama.
Assim como seu dia a dia, o futuro para Lucas parece ser descomplicado. “Um dia vou comprar uma casa para a minha mãe”, declarou ele, explicando que o dinheiro sairá de seu trabalho. A profissão já está escolhida. “Quero ser pedreiro”, revelou.
A mãe acredita que a inspiração tenha saído do exemplo do padrasto Cássio Fernandes da Silva, 18. “Cássio estava trabalhando na fazenda, mas depois que a gente mudou para cá não tem encontrado serviço. Para ganhar algum dinheiro, faz bicos como servente de pedreiro”, afirmou Aline.
Lucas completou 6 anos ontem. Na véspera, no entanto, a mãe dele já adiantava que a comemoração poderia não ocorrer. Com tristeza, Aline sussurrava aos ouvidos do menino um pedido de desculpas. “Ele sabe que a gente o ama, faremos de tudo para que o dia seja de alegria, mas não temos como comprar nem uma lembrança ou mesmo fazer um bolo”, disse ela e, após uma pausa para tentar segurar o choro, completou: “E ele merecia tanto mais...”.
Como presente, o menino confidenciou sonhar com uma moto elétrica. “Vhrumm, vhrumm, olha só tia!”, grita ele alegre, sobre uma moto imaginária na qual simula acrobacias.
Não conseguir dar uma festa de aniversário para o filho é apenas uma das privações que a dona de casa diz ter passado nos últimos três meses. Sem encontrar emprego, o casal depende da mãe de Aline, a zeladora de escola Vera Lúcia Ferreira, para pagar as contas de água (R$ 28), luz (R$ 58) e o aluguel (R$ 150). “Estamos tentando, mas nada parece dar certo. Temos medo de que comece a faltar comida”, disse Aline.
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