‘O PT precisa se renovar se quiser sobreviver’


| Tempo de leitura: 13 min
<b>ANÁLISE</b> - Cassiano Pimentel, 48, foi vice-prefeito de Franca durante oito anos e hoje trabalha como agente de exportação: um bom administrador precisa saber ouvir as pessoas, algo que, para ele, o atual prefeito Sid
<b>ANÁLISE</b> - Cassiano Pimentel, 48, foi vice-prefeito de Franca durante oito anos e hoje trabalha como agente de exportação: um bom administrador precisa saber ouvir as pessoas, algo que, para ele, o atual prefeito Sid
<p align="justify">O agente de exportação Cassiano Pimentel, 48, foi vice do ex-prefeito Gilmar Dominici (PT) por dois mandatos - entre 1996 e 2004. Após oito anos como segundo na linha de frente do PT, Cassiano disputou e perdeu três eleições pelo partido: para prefeito em 2004, para deputado estadual em 2006 e para vereador em 2008. No início de julho - nove meses depois de sua última derrota nas urnas e quatro anos após deixar o Executivo - o petista recebeu a reportagem do Comércio em sua casa no Jardim América. Após mais de uma hora de conversa, Cassiano afirmou ter mudado a maneira de ver a política francana. </p><div align="justify"> </div><p align="justify">“A política partidária perdeu a graça. Os partidos hoje são espaços de atendimento de interesses de grupos”, disse o petista. Ao mesmo tempo em que demonstrou desânimo ao falar da classe política, o ex-vice-prefeito foi enérgico em suas críticas aos homens - políticos francanos, correligionários ou não. O atual prefeito Sidnei Rocha, a quem chamou de gerentão e zelador, foi seu principal alvo, mas não o único. “Existe um vazio político na cidade. Não há espaço para discussões. A Câmara Municipal deveria fazer este papel, mas fica presa a uma pauta burocrática”, afirmou.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><br />Nem o próprio PT escapou aos “disparos críticos” do empresário. “O que me deixa entristecido é o fato de o PT ter envelhecido e não ter aproveitado a maturidade para se redefinir. Nós temos dentro do PT municipal muita gente que ainda faz o mesmo discurso de 30 anos atrás”, disse ele. Pela apatia do cenário político descrito por ele, Cassiano se sente à vontade para prever os movimentos das principais figuras políticas da cidade para as eleições do ano que vem. “Não tenho dúvidas da candidatura de Sidnei a deputado federal. (...) </p><div align="justify"> </div><p align="justify">E acho que o Ubiali (Marco Aurélio Ubiali, deputado federal) deu um tiro no pé pelo fato do PSB não ter saído com um candidato próprio a prefeito”, afirmou o petista.  Segundo ele, agora Ubiali corre o risco de ter que dividir com Sidnei os votos de seus eleitores em 2010 no pleito para deputado. “E se perder, Ubiali ainda poderia concorrer à Prefeitura em 2012. Por que não?”, disse.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><br />Apesar da descrença demonstrada durante a entrevista, Cassiano não esconde que quer voltar a disputar eleições e ocupar cargos públicos pelo PT ou por qualquer outro partido. “Se eu for convencido de que algum outro partido poderia me oferecer uma possibilidade de fazer um trabalho coerente, sério, eu poderia até pensar a respeito disso”, admitiu o político. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio da Franca - Como é sua relação com o PT hoje?<br />Cassiano Pimentel -</strong> Na verdade eu não tenho relação com o partido agora. Não houve ruptura. Não tenho participado, frequentado reuniões. Não me senti atraído a participar. Na verdade, estou insatisfeito com o PT como um todo, com a política partidária. Sei que é necessária, mas acho que perdeu a graça. Os partidos hoje são espaços de atendimento de interesses de grupos. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Os resultados que o senhor obteve nas últimas disputas eleitorais contribuíram para esse afastamento?<br />Cassiano -</strong> Depende muito do tipo de expectativa que você tem. Eu fui o último candidato do PT a decidir pela minha candidatura. Eu realmente não tinha muita certeza se eu queria, naquele momento, voltar à política. E como eu praticamente não fiz campanha, não podia ter expectativas de ser eleito. Talvez a “não eleição” tenha contribuído para minha frustração, mas antes mesmo  eu já vinha questionando a questão partidária.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Mas a última eleição para vereador não foi o único episódio de derrota eleitoral que o senhor vivenciou ...<br />Cassiano -</strong> Vamos começar então lá de trás. A campanha para prefeito era uma candidatura de alto risco. Depois de oito anos de governo, você sofre um desgaste muito grande. Então, por mais que eu tentasse me mostrar como um candidato que não seria do continuísmo, com ideias próprias e posicionamento próprio, a cidade e os eleitores me levavam de volta à condição de candidato situacionista, não tinha como fugir disso. Nós tínhamos ainda uma articulação fantástica do atual prefeito através de sua rádio e de certa maneira capitaneada pelo “Geraldinho do Sindicato” (Geraldo Xavier, dirigente do sindicato dos motoristas e idealizador da campanha “PT Nunca Mais” que ganhou as ruas de Franca no final de 2003) com uma campanha difamatória. O Sidnei fez uma campanha muito ostensiva neste sentido. Nos últimos dois anos do nosso governo, a rádio dele ficou extremamente voltada a criticar, ironizar, desqualificar o Gilmar (Dominici, ex-prefeito de Franca) e o governo dele. Mas não foi só isso que causou o desgaste, é claro. De qualquer forma eu acho que a eleição naquele momento era muito difícil, mas você está no processo... </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Em seguida vieram as eleições para deputado...<br />Cassiano -</strong> O Gilmar era candidato a deputado federal e eu era o candidato a deputado estadual. Sempre me pautei pelo bom senso e achava que era muito prematuro querer participar de uma disputa do porte e da envergadura de uma eleição para deputado. Eu dizia isso para muitos membros do PT que assessoravam o Gilmar. Mas, da mesma maneira que fizeram durante o governo, blindaram o Gilmar de tal maneira que não permitiram que ele percebesse a realidade dos fatos. Na época, acharam meus comentários inoportunos e o resultado das eleições mostrou isso. Eu acho, com muita sinceridade, que Franca perdeu um grande deputado federal. Falo isso porque conheço o Gilmar há 30 anos e, nos oito anos que convivi com ele na política, ele pode ter errado ou vacilado, mas sempre foi um homem íntegro e voltado a fazer o melhor para a cidade. Aceito muitas críticas a ele e ao nosso governo, mas isso é bom que fique claro: ele sempre quis o melhor para Franca. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - E depois teve sua candidatura a vereador... <br />Cassiano -</strong> Que na verdade foi um ensaio para uma volta à vida política. Mas o que contribuiu para o meu afastamento não é a questão da disputa eleitoral. Eu sou fundador do PT. Eu entrei no PT com 19 anos em Uberlândia. O que me frustrou. Aliás, frustrar não é o termo correto... O que me deixou insatisfeito é que o PT envelheceu. Mas envelhecer por si só não é o problema. Porque se a velhice vier acompanhada de amadurecimento, ótimo. Mas o PT perdeu sua capacidade de atrair novos militantes e, com isso, novas ideias. O mundo mudou e o PT não soube se inovar. O que me deixa entristecido é o fato de o partido ter envelhecido e não ter aproveitado a maturidade para se redefinir. Nós temos dentro do PT municipal muita gente que ainda faz o mesmo discurso de 30 anos atrás.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - O senhor pensa em tentar um cargo novamente?<br />Cassiano -</strong> Falar que não quero disputar é mentira. Seria demagogia. Agora, eu não sei se a conjuntura partidária é favorável para participar. Eu acho que se o PT não mudar rapidamente, melhorar seu discurso, renovar seus quadros trazendo pessoas que possam arejar o pensamento petista em Franca, abrir espaço para que influências de outros setores possam se fazer presentes dentro de sua estrutura partidária, o PT não ganha eleição para prefeito em Franca pelos próximos 10 anos. E não é por causa do Sidnei, do Ubiali, do Roberto Engler,  doGilson de Souza... É porque ele não terá um diferencial para apresentar para as pessoas, para justificar porque está querendo voltar para a prefeitura.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - A que cargo o senhor concorreria?<br />Cassiano -</strong> Eu sempre fui muito objetivo. A administração me atrai muito mais que o parlamento. O Legislativo no Brasil hoje discute, discute e não chega a lugar nenhum. Eu não sei se eu estou disposto a doar o meu tempo para esse tipo de trabalho. Acho que é possível fazer muitas outras coisas de outra maneira. Uma candidatura a deputado também não é uma questão simples. Dentro do PT hoje, há elementos que estarão fortemente empenhados em ter as candidaturas para si, como Gilson Pelizaro e Paulo Afonso. E tem mais. Ainda sinto que, para tomar a decisão de me candidatar pelo PT, o partido teria que me reconquistar.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - O senhor já pensou em disputar por outro partido?<br />Cassiano -</strong> Já fui sondado. Isso aconteceu logo depois da eleição para prefeito. Naquela época, a gente via nas ruas pessoas que até manifestavam simpatia pela minha candidatura, mas não estavam dispostas a votar no PT novamente. Tipo assim: “Eu votaria em você se estivesse em outro partido”. Mesmo na campanha para vereador, quatro anos depois, ainda ouvia isso. Então parece que existe um estigma muito negativo quanto ao PT na cidade.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - O senhor não respondeu minha pergunta. Disputaria fora do PT?<br />Cassiano -</strong> (Risos) Fora do PT é uma questão delicada. Não é fácil falar sobre isso porque eu não sei o que é militar em outro partido. Eu já não tenho mais aquela inocência e ingenuidade de 30 anos atrás, de achar que o PT era o melhor dos partidos. Eu ainda acho que a ideia do PT e do conjunto da militância do PT é fantástica. Porque tem muita gente muito boa, mas eu sei que nos outros partidos também tem. Se eu for convencido de que algum outro partido poderia me oferecer uma possibilidade de um trabalho coerente, sério, eu poderia até pensar a respeito disso.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como o senhor avalia o cenário político em Franca?<br />Cassiano -</strong> Existe um vazio político na cidade. Não há espaço para discussões. A cidade hoje é muito diferente da que a gente assumiu há 12 anos. O setor de calçado passa por dificuldades - como passava naquela época com as fábricas querendo ir para o Nordeste -, mas a cidade não está abalada. Mudou o perfil econômico. Nós deveríamos estar participando de uma discussão diferenciada, não de uma discussão político-partidária.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - A Câmara de Vereadores não seria um espaço apropriado para isso?<br />Cassiano -</strong> É ela que deveria estar fazendo esse papel hoje. Pela própria gama de partidos e extratos sociais que estão ali representados. Só que a Câmara é omissa. Não faz essa discussão. Os assuntos da cidade só são objeto de pauta durante a sessão da Câmara. Você não vê um vereador se manifestando em relação a qualquer outro assunto da cidade. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - O senhor acredita que o prefeito Sidnei Rocha vai sair candidato a deputado federal?<br />Cassiano -</strong> Não tenho bola de cristal, mas tenho como certo que ele será candidato. Aliás, eu acho que ele articulou tudo exatamente para isso. Até o fato de na última hora o Ari Balieiro ter continuado como vice dele. E o Ari está quieto, sumido. É porque ele está esperando para ser prefeito durante os últimos dois anos se o Sidnei eventualmente for candidato e ganhar as eleições. <br />E não consigo entender como é que o PSB (Partido Socialista Brasileiro), que tinha o presidente da Câmara, a maior bancada de vereadores e o deputado federal, não saiu com o candidato a prefeito... Havia uma grande chance de levar a disputa para o segundo turno. E o que aconteceria? Se o candidato do PT passasse, você poderia tentar uma composição com o PSB. Se o do PSB passasse, muito provavelmente teria todos os votos do PT. O Sidnei poderia até ser eleito, mas não com a votação que teve. Acho que o Ubiali (Marco Aurélio Ubiali, deputado federal) deu um tiro no pé pelo fato do PSB não ter saído com um candidato próprio a prefeito.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Quem o senhor apontaria como possível candidato apoiado por Sidnei para 2012?<br />Cassiano -</strong> É normal e natural que o prefeito prepare alguém para ser seu sucessor. Aliás, essa questão de fazer um sucessor atende muito mais à vaidade do próprio prefeito, porque ele quer que sua forma de administrar seja referendada no seu candidato. Acho que a Valéria, que é a secretária que mais tem aparecido no governo dele, é para o Sidnei como a Dilma (Roussef, presidente da Casa Civil) é para o presidente Lula: a responsável em tocar as obras. É quem tem visibilidade, atende ao que a classe média gosta de ver, a cidade bonita. O Alexandre Ferreira também é cotado. Eu convivi com ele no primeiro ano de governo do PT. É um homem muito esforçado, que tem uma grande capacidade técnica. Muito competente, mas falta a ele o que talvez a Valéria tenha, capacidade de articular. Que é o jogo de cintura para sair das situações mais difíceis e complicadas. Ele não tem carisma para agregar pessoas que estejam junto com ele e pessoas que se disponham a trabalhar com ele.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Nesse cenário o senhor vê um candidato do PT?<br />Cassiano -</strong> O PT vai ter candidato. Há gente dentro do PT que encara isso como uma questão moral, nem que seja para ficar em último lugar. Acho que há vários nomes dentro do PT que teriam até competência para serem prefeitos, mas não sei se eles têm condições de serem eleitos. E não pela questão da pessoa, mas pela questão partidária.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como o senhor?<br />Cassiano -</strong> Como eu, como o Gilson Pelizaro... Desgaste do partido. Mas isso tende a acabar em um determinado momento. O Sidnei é um exemplo disso. Levou quase 20 anos tentando construir uma outra imagem depois que foi para a Vasp. Participando de eleições e perdendo. Todo mundo o tinha como um político acabado e não é que ele foi reeleito agora com 110 mil votos! Então o PT pode, daqui a 15 anos, ser uma potência eleitoral.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como você vê o comando de Sidnei Rocha?<br />Cassiano -</strong> Um bom administrador tem que ter uma visão presente, imediata, mas tem que ter também uma visão de médio e longo prazos, porque ele é o único que tem condições de ter dados absolutos nas mãos para saber como a cidade está se comportando em todos os sentidos. Precisa saber ouvir as pessoas que estão trabalhando com ele. Então, desse ponto de vista, eu vejo a atual administração como um retrocesso. Infelizmente, por conta do personalismo dele, o prefeito desmontou toda a articulação que estávamos construindo. Porque ele não saber ouvir as pessoas. Se não fosse a verba extraorçamentária que ele recebeu por conta da renovação do contrato com a Sabesp, Franca estaria terrivelmente mal. A população precisa saber disso, porque se não fica a falsa ideia de que ele é um bom administrador. Ele é um bom maquiador. Qual é o projeto de cidade que ele tem na mão? Se ele ler essa matéria ele vai querer responder e eu gostaria de saber a resposta. O que é administrar a cidade de Franca? Falar de dívida que o PT deixou? Balela! A dívida está lá do mesmo jeito. A impressão que eu tenho é que nós temos um bom zelador da cidade. Que vê onde está faltando água, luz, troca uma lâmpada, faz a sinalização. Só que recapeamento acaba..A cidade tinha que estar pensando. Que Franca nós queremos no dia seguinte?</p>

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários