Mouros e cristãos enfrentam-se hoje à noite na disputa por poder e pela implantação de uma religião hegemônica, em que cristianismo e islamisno contam vitórias e derrotas em batalhas épicas entre o ocidente e o oriente. No século 14, a disputa pela terra santa de Jerusalém espalhou-se pela Europa, mas seis séculos antes o rei franco Carlos Magno, coroado imperador do ocidente, é revestido de poderes quase ilimitados pelo papado e vai à caça de muçulmanos instalados em toda a extensão do Mar Mediterrâneo até a Península Ibérica (Espanha e Portugal).
É este cenário que serve de tema para a encenação das Cavalhadas, que começa logo mais às 20 horas, no Parque Fernando Costa, em Franca.
Teatro baseado em fatos teoricamente reais, as Cavalhadas foram introduzidas no Brasil no século 17, vindo do Nordeste para o restante do País. Em Franca já resistem há 150 anos à força e à pressão exercidas pelo tempo sobre eventos folclóricos populares como esse.
Mantida pelo Clube das Cavalhadas de Franca, o folguedo tem como adversários não apenas o desconhecimento da população sobre sua importância e manutenção como resgate histórico, mas a burocracia estatal e a falta de verbas que, invariavelmente, colocam o evento em risco.
O presidente da entidade, Gabriel Anawate, diz que obter patrocinadores interessados em bancar a festa popular a cada ano está mais difícil. Assim, boa parte dos R$ 20, R$ 25 mil que custam a encenação vem da Prefeitura e do bolso dos cerca de 80 associados que formam o clube, na forma de mensalidades ou anuidades. Em menor proporção, colaboram comerciantes, sindicatos e empresas públicas.
Para Anawate, manter as Cavalhadas como opção de cultura na cidade requer paixão e paciência em doses iguais. "Se for para falar a verdade, a gente só gasta, não ganha nada. Acabamos arcando com coisas que o clube não tem como bancar. Mas isso só é possível porque os associados são todos apaixonados e se ajudam mutuamente", disse.
A tradição que vem de pai para filho e passa de um para o outro há dezenas de anos, já fez com que muitas famílias fossem reconhecidas e respeitadas em Franca pelo seu envolvimento com as cavalhadas. Assim era com os Jacintho, com os Conrado. Hoje o controle da festa não está mais concentrado nas mãos desse ou daquele, mas ainda é possível encontrar pessoas que participam porque seus avós participavam, como é o caso do próprio Anawate, apresentado ao folclore pelo avô, Bernardino Pucci, quando tinha menos de 10 anos.
"Depois de tantos anos, não tem muito como explicar o que segura a gente, não", disse o presidente do clube de Franca, que não monta mais, tarefa que passou para filho, a terceira geração envolvida com as Cavalhadas.
A CADA ANO MAIS DIFICULDADE
Além da falta crônica de dinheiro, a expansão da cidade e o aumento do tráfego obrigaram a organização das Cavalhadas a alterar um dos ritos mais tradicionais do evento, a cerimônia dos encamisados, que reúne os 24 cavaleiros mouros e cristãos em frente a uma igreja, de onde saíam em cavalgada. Hoje, para Anawate, isso está fora de cogitação.
Outro impacto recente sobre a festa é o controle ferrenho sobre o porte e uso de armas, essenciais no desenrolar da história da Cavalhada. Até quarta-feira, a organização ainda não tinha obtido licença do Ministério Público para usar as garruchas com balas de festim que simulam as batalhas entre os dois grupos.
A BUSCA PELA PRINCESA
As Cavalhadas de Franca começam hoje às 20 horas com o desfile dos encamisados, quando os cavaleiros mouros e cristãos ficam lado a lado cobertos por um lençol branco. O parque Fernando Costa tem todas as suas lâmpadas apagadas nesse momento. A encenação dura perto de uma hora.
O domingo é o ponto alto da festa e costuma reunir mais de cinco mil pessoas a partir das 14 horas. Em tom marcial, os dois grupos de cavaleiros se enfrentam e tiros são disparados. Na disputa de muçulmanos e cristãos está a princesa moura que após ser raptada converte-se ao cristianismo. A entrada no Parque Fernando Costa é gratuita.
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