Guaraná Paulista nem diet era


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O pessoal dizia que era o mais puro. O mais saboroso. De crianças a velhos, qualquer um gostava muito do Guaraná Paulista. Tudo por conta de uma doçura ímpar e refrescante, até parecia que não continha açúcar. Quem tomou desse refrigerante, nunca vai se esquecer do verdadeiro néctar amazônico. As garrafas eram de vidro. Nada de litro ou dois litros. Agora, já tem até pet de dois e meio ou três litros. Haja barriga! O vasilhame continha 300 ml e possuía uma tampinha metálica. Existia também o frasco caçula, com conteúdo de 200 ml. Como se vê, na medida exata de um copo americano. A criançada tomava essa dose e pronto. Não repetia. Os adultos consumiam o guaraná do casco maior. Tomava-se guaraná somente no domingo. Durante a semana, nem pensar. Em contrapartida, a meninada não tinha barriga. Obesidade então, ninguém sabia o que era isso. A equação era das mais balanceadas: baixo consumo de líquido gaseificado = pouca gordura no corpo. Além disso, o que passava na alimentação era compensado pelas brincadeiras ao ar livre. Quando os pais deixavam a criança ir à venda comprar guaraná, não havia dúvida. A preferência era pelo Paulista. Aquela garrafa esverdeada, de 200 ml, com rótulo verde forte, tendo ao fundo letras pretas, destacava-se das demais. Em casa, o pai abria o casco e o refrigerante era tomado diretamente no bico. Nada de copo. Muitos preferiam que a tampa fosse furada com um prego. Isso possibilitava deglutir o refrigerante com muito mais demora. Hoje, os supermercados estão abarrotados dos mais diversos tipos de refrigerantes. Só de guaraná há mais de uma dezena de marcas. O engraçado das palavras está no significado dado pelo povo. No tempo do Guaraná Paulista, o produto era encontrado em vendas ou bares. De nada adiantava o proprietário insistir em escrever na parede: Empório São Pedro ou Bar Soares. Todo mundo falava venda ou boteco. Alem das denominações em homenagem aos santos, era comum o proprietário usar o seu sobrenome. Muitas vendas progrediram e se transformaram em supermercados. Mas as designações continuaram. Só agora estão desaparecendo, devido à encampação de grandes redes. Prometeram manter os nomes. Só que em outras cidades prevaleceram apenas as nomenclaturas internacionais. O Guaraná Paulista era distribuído pelo Depósito de Bebidas Blóis, localizado na Rua Voluntários da Franca, logo após a ponte do Córrego dos Bagres. O prédio, remodelado e descaracterizado arquitetonicamente, passou a abrigar o extinto Supermercado Gimenes. Uma cervejaria de alcance nacional comprou a fábrica estadual. Manteve a marca e a fórmula do refrigerante por uns tempos. Depois, fundiu as marcas e ficou apenas com a sua, simbolizada por dois pinguins. De resto, ficaram as lembranças de uma época em que guaraná não tinha o poder de engordar ou fazer as pessoas criarem uma exagerada barriga. Isso porque havia muito mais movimentação. Não importava a idade. Atualmente, quase não se solta nem pipa. A rapaziada gosta mesmo é de uma diversão eletrônica. De preferência, acompanhada de pipoca ou qualquer outra guloseima regada com refrigerante. Em garrafa pet de três litros! Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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