Fusca vira rifa em busca de cirurgia, mas não consegue ser a solução


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Há semanas Walquíria ouviu em uma propaganda de rádio sobre um cirurgião plástico de Franca que não cobrava as consultas, desde que marcadas para terça-feira. Com meia coragem, encarou o consultório desconhecido na Avenida Major Nicácio. Foi, conversou com a secretária de quem deveria lhe atender e deu meia volta com um orçamento de R$ 7 mil, o preço que deveria pagar para, teoricamente, se livrar dos problemas que a acompanham desde que nasceu. Apesar do valor nada cristão, as contas foram anotadas a caneta em um papel rasgado de caderno, prática que padarias e açougues da periferia já aboliram faz tempo. Na descrição, R$ 1 mil para o hospital, R$ 3.900 para duas equipes médicas, R$ 1.600 para a prótese mamária e R$ 800 para o anestesista. Voltou pensando na conta e como a pagaria. Disposta a mais um sacrifício, transformou o Fusca branco, ano 76, bem conservado, em quadradinhos de uma rifa que correu a cidade, vendidos a R$ 15 cada um. O único bem de que dispunha não rendeu tudo o que ela precisava. Chegou a R$ 5.800, mas destes ainda perdeu R$ 770 na mão de gente que não entregou o dinheiro. Com a história indo parar na imprensa (o Comércio a publicou há algumas semanas), recebeu R$ 1.300 de um doador anônimo. Tinha quase tudo o que precisava, mas quando voltou à clínica que a atendera antes, os mesmos procedimentos tinham subido para R$ 11.300. Como o cirurgião não conversou com Walquíria, a explicação da secretária do consultório é que teria havido algum engano entre os valores dos dois orçamentos. O preço final, de R$ 11.300, não poderia ser diminuído devido à complexidade do procedimento. Nas palavras de Walquíria, “o chão tinha desaparecido”. Ficar sem o carro e sem dinheiro só não parecia ser pior que novamente não ter esperança de se ver livre das manchas que chamam a atenção de estranhos, mas que não incomodam mais os amigos e parentes.

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