Walquíria enumera os empregos em fábricas de sapatos, os trabalhos como diarista, os namoricos e como foi trabalhar no Cemitério da Saudade, onde herdou o trabalho da tia. Limpa 43 túmulos todas as quintas-feiras. Ganha R$ 10 para varrer, tirar as folhas mortas, lustrar, aparar as plantas. Quando tem que arear os metais, sai por volta das 14h30. Senão, vai embora antes do meio dia. Um trabalho como outro qualquer, garante ela, suficiente no limite para ganhar algum rendimento, mas nunca para prestar em quem está dando um trato. “Chego quando ainda está escuro. Trago minha garrafa de café, pego minhas coisas e vou limpando”.
Nunca percebeu que sete passos separam Francisco, Aline e Theotínio de João, José, Reinaldo e Eliza. Todos ali, mas ela nunca conversou com nenhum deles. Antes de voltar para a casa cuidar da mãe, balde, panos, vassoura e rodo vão parar acomodados dentro de um outro túmulo, elevado à condição de armário, porque na salinha da administração não pode mais.
O trabalho no cemitério rende R$ 400 por mês que se somam aos R$ 600 e poucos da mãe, Sônia. Não é seu primeiro emprego. Sempre trabalhou em faxina. Passou por uma cartonagem, por uma fábrica. De um dos trabalhos recebeu na rescisão o dinheiro para comprar um Fusca branco 1976. Ficou com ele mais de 10 anos.
Tempos atrás, justamente quando disse que entregara os pontos, voltou aos bancos escolares. No supletivo completou o que faltava no primeiro grau. No telecurso, emendou o antigo colegial. “No modo do outro: terminar eu terminei, mas não tenho boa memória. Por causa da mancha me sentia incapaz, não tinha auto-confiança, faltava muito escola. Acho que isso atrapalhava muito e não gostava de ir para a aula. Depois de muito tempo vi que fazia falta, mas aí a mente já estava cansada e a cabeça não raciocina mais”.
Mas enquanto raciocinava, o que Walquíria mais desejava era entrar no supermercado de paredes amarelas, hoje fechado, a 50 metros de sua casa. Imaginava que lá, depois de atendente, poderia passar a caixa, a supervisora, a gerente. Entrar no grande supermercado visto do portão de casa era o máximo a que se permitia ascender. Mas nem isso ela conseguiu. “Já chorei muito por pensar que a fulana conseguia um trabalho por causa da aparência e eu não. Porque outra arrumava namorado e eu não. Tinha esses baques. Queria arrumar emprego no supermercado, mas não consegui”.
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