<p>Na tarde do último dia 29 de junho, o prefeito de Ibiraci (MG), Ismael Silva Cândido (PT), chegou pontualmente à redação do Comércio da Franca para uma entrevista. Até aí nada demais. Mas a companhia mostra que o clima na pequena Ibiraci não anda pacato como de costume. Silva estava com um segurança contratado especificamente para lhe garantir proteção pessoal. Tem sido assim desde o mês de abril, quando aumentaram as ameaças de morte feitas por telefone e cartas. O vestuário também está diferente. Por baixo do blazer, Ismael passou a usar colete à prova de balas sempre que sai às ruas. Na visita ao Comércio não foi diferente.</p>
<p><br />O prefeito não deixou se fotografar com o colete. “Prefiro evitar o sensacionalismo para não alarmar a população”. Ismael Silva afirma que as ameaças começaram logo após o fim das eleições municipais em outubro do ano passado. No começo, não deu muita importância, mas devido à gravidade das últimas cartas foi orientado pela polícia a andar com segurança e mudar sua rotina. O prefeito não fala em nomes, só admite ter inimigos na política. Acredita que as ameaças venham do grupo dos “descontentes” com o resultado das últimas eleições.</p>
<p><br />Ismael Silva não decidiu se continuará na política ao fim do mandato. Mesmo antes de tomar essa decisão, está se preparando para quando esse momento chegar. Formado em Direito e concursado do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, está fazendo mestrado de linguística na Unifran (Universidade de Franca). “Tenho que pensar na minha carreira. A gente não manda na política, mas, se eu tivesse que optar hoje, não continuaria. Com o mestrado, terei certamente um futuro profissional melhor”.</p>
<p><br />Ismael Silva é separado e tem um filho de oito anos, que também teve a rotina alterada desde que o pai passou a ser ameaçado de morte. A primeira medida foi mudar a criança de escola. Mesmo diante das circunstâncias, ele afirma que vale a pena administrar Ibiraci. “Só o que fiz pela educação no meu primeiro mandato já valeu”. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Como o senhor entrou para a política? <br />Ismael Silva Cândido -</strong> Eu trabalhava como oficial de apoio do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Como comecei a atender no Fórum de Ibiraci, passei a ter contato com os moradores, principalmente com pessoas sem condições de pagar um advogado. Acabei desenvolvendo um vínculo com essas pessoas. A partir daí, entrar para a política foi uma consequência. Foi natural. Fui vice-prefeito entre 1997 e 2000 com o Tonin Garcia. Mas continuava trabalhando no Fórum. Quando terminou o mandato, fiquei afastado da política por quatro anos até me filiar ao PT. Teve a prévia e fui convidado pelo partido para disputar. Foi aí que apareceu outro filiado que respondia por uma secretaria e estava interessado. Para ter visibilidade igual, eu assumi a Secretaria de Saúde por seis meses. Só me afastei para disputar a Prefeitura em 2004.</p>
<p><br /><strong>Comércio - O senhor sonhava em se tornar prefeito de Ibiraci?<br />Ismael -</strong> Eu não tinha pretensões políticas. Tanto é que meu investimento pessoal foi em estudo. Cheguei a morar em outros Estados e prestar concurso para juiz e promotor. Não tinha nenhuma intenção de seguir a carreira política.</p>
<p><br /><strong>Comércio - E quando terminar o seu mandato, pretende continuar?<br />Ismael -</strong> Não se manda na política. Mas se tivesse que decidir hoje, não continuaria. Optaria pela minha carreira.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Quando o senhor começou a receber as ameaças de morte?<br />Ismael -</strong> As ameaças começaram em outubro do ano passado depois de ganhar a eleição. No dia 6 de outubro, teve aquela fatalidade na Praça Raul Soares em que uma criança foi morta (durante a comemoração da vitória de Ismael, a vítima foi atingida após uma briga ). A partir dali comecei a receber algumas ameaças. Recebia alguns telefonemas de pessoas que não se identificavam. Mas não dei muita importância para isso. Ameaça materializada mesmo aconteceu no mês de abril, quando começaram a chegar as cartas dizendo que iam me matar. Recebi três cartas, sendo a última em maio. Na primeira, tinha um projétil de arma de fogo. Na segunda, somente ameaças. Na terceira vez, passei a ter uma preocupação maior. Os peritos da Polícia Civil, que avaliaram o conteúdo, enxergaram no teor daquela ameaça uma carga de rancor muito grande contra mim. Típico de psicopata.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Foi a partir daí que o senhor tomou providências?<br />Ismael -</strong> Sim. Foi a partir daí que acionei o comando das polícias Civil e Militar de Minas Gerais e tomamos as precauções necessárias como contratar segurança.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Com quantos seguranças o senhor está andando?<br />Ismael -</strong> Alguns. Não posso falar quantos por questão de estratégia.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Além dos seguranças, o senhor também passou a usar colete à prova de balas?<br />Ismael -</strong> Sim. Uso sempre que saio de casa e sempre que estou na rua. Na minha casa, a Polícia Militar está dando respaldo. Tenho medo de que aconteça alguma coisa, as ameaças dão a entender que as pessoas não estão brincando. Ninguém manda uma bala de revólver por brincadeira. </p>
<p><br /><strong>Comércio - O senhor tem noção de quem estaria por trás dessas ameaças? O senhor tem muitos inimigos?<br />Ismael -</strong> Eu não tenho inimigos fora da política. Em Ibiraci, existem hoje pessoas que estão insatisfeitas com o resultado das últimas eleições. Pessoas que alimentaram a falsa idéia de uma vitória fácil. Tanto que era comum grupos fazerem apostas de quem iria ganhar as eleições: eu ou o meu adversário (Tonin Garcia). Muitas apostas diziam que o outro candidato iria ganhar com uma grande diferença. As pessoas investiram nisso. Tenho informações não confirmadas de que rolou mais de R$ 400 mil em apostas. É notório e é sabido que têm pessoas que apostaram sacas de café e caminhonete de que o adversário ganharia. Eu acredito que as ameaças estão partindo do grupo dos descontentes. Mas não posso falar em nomes.</p>
<p><br /><strong>Comércio - O senhor está andando com seguranças e usando colete à prova de bala. Acha que vale a pena continuar na Prefeitura?<br />Ismael -</strong> Acho que sim. Para se ter uma idéia, eu tenho 38 anos e quando eu fazia faculdade de Direito em Franca tinha que pagar tudo. Para começar, não se falava em bolsa de estudos em Ibiraci. Transporte era pago. Hoje, a Prefeitura tem cinco ônibus que transportam gratuitamente todos os estudantes. Para os universitários cuja renda familiar é menor do que dez salários mínimos, a Prefeitura paga metade da mensalidade da faculdade. Só por essa conquista já valeu a pena. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Existe o receio de acontecer alguma coisa na própria Prefeitura? Como os funcionários lidam com essa situação?<br />Ismael -</strong> Não falei diretamente com os funcionários sobre esse assunto. A maioria tomou conhecimento pela imprensa e pelas ações que fizemos para aumentar a segurança. Passamos a ter um controle maior de quem entra e sai da Prefeitura. Antes a porta ficava sempre aberta e não tinha nenhuma restrição de entrada. Agora todos precisam se identificar na portaria. Eu tenho tido o cuidado de não levar pânico para a cidade. De não levar confusão. Não ficar alarmando. As pessoas sabem até porque a imprensa divulgou. Algumas coisas que aconteceram não podemos comentar, a polícia pediu para não passar para não prejudicar as investigações. Tenho tentado levar a vida normalmente. Continuo despachando da Prefeitura, vistoriando obras, vou ao banco e à missa como de costume todos os domingos. Continuo mantendo minha rotina com alguns cuidados. Tenho alteração de horários e trajetos. </p>
<p><br /><strong>Comércio - E que atitudes o senhor tomou para garantir a segurança de seus familiares?<br />Ismael -</strong> Não tivemos cuidados maiores. Só o meu filho (de oito anos) que passou a estudar fora de Ibiraci como um alerta. Na escola poucas pessoas têm autorização de pegá-lo.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Como estão as investigações?<br />Ismael -</strong> A polícia tem feito algumas investidas. Mas como as cartas são postadas de Franca e cada uma delas de agências diferentes, chegamos à conclusão de que não são postadas diretamente no balcão e sim nas caixas que ficam fora dos Correios. A pessoa sabe o que está fazendo. A primeira que recebi, por exemplo, tinha endereço fictício do Jardim Aeroporto. O serviço de inteligência da polícia que esteve em Franca descobriu que a rua até existe, mas não o número. <br /><strong>Comércio - Na sua opinião, a disputa política é mais acirrada em cidades pequenas?<br />Ismael -</strong> Com certeza. Mas a minha primeira vitória, que foi contra uma candidata, foi tranquila. Hoje, ela é minha amiga e não temos problemas. Mas a questão toda foi criada por conta de uma falsa expectativa e nós sabemos disso porque temos o resultado de pesquisa registrado na justiça eleitoral de que nossa vitória aconteceria. Não seria fácil, mas existia uma grande chance de vitória. Muitas pessoas na cidade diziam que não e ainda apostavam.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Por que o senhor acha que o racha do PT de Ibiraci aconteceu?<br />Ismael -</strong> A democracia precisa ser respeitada. O PT tem dificuldades como todos os partidos no Brasil. Em Ibiraci, não é diferente. Mas lá é tudo feito com democracia. Todos os filiados têm direito a votar. Mesmo sendo prefeito, eu poderia não ganhar a prévia e não sair candidato como aconteceu em vários municípios. Mas a partir do momento em que a maioria dos filiados me deu oportunidade na primeira eleição e renovou na segunda vez isso tem que ser respeitado. A minoria é ouvida, mas tem que se curvar à decisão da maioria. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Como o senhor avalia a sua gestão comparando quando assumiu a Prefeitura pela primeira vez com o momento atual? O senhor acha que errou muito?<br />Ismael -</strong> Estou assumindo agora o segundo mandato em uma realidade totalmente diferente. No meu primeiro mandato, em janeiro de 2005, Ibiraci tinha arrecadação completamente diferente do que tem hoje por conta dessa crise mundial que assolou o mundo inteiro. A arrecadação era mais alta e a administração que me antecedeu dava mais visibilidade às obras concretas, às obras de concreto. Durante os primeiros quatro anos de mandato, embora tenha feito algumas obras importantes em Ibiraci, procurei valorizar o social. Como o Bolsa Universitária e o Família de Apoio, que ganhou o Prêmio Assis Chateaubriand de responsabilidade social. Apoio a agricultores que valeu um prêmio da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) e a Medalha dos Inconfidentes pelo mérito educacional. Foi com isso que me preocupei no primeiro mandato. Fizemos um planejamento estratégico logo nos primeiros meses de 2005 e definimos com os secretários da época que a marca do governo seria a saúde, então investimos em saúde. Traçamos outro plano e decidimos que neste mandato a marca do nosso governo será a educação.</p>
<p><br /><strong>Comércio - O senhor mencionou a agricultura. Os cafeicultores estão reclamando que não estão conseguindo pagar as dívidas de empréstimos e estão indo a Brasília pedir ajuda ao governo federal. A Prefeitura tem feito algum trabalho para ajudar essa categoria, a que mais emprega em Ibiraci?<br />Ismael -</strong> Desde 2005, no começo do nosso mandato, criamos o Programa Municipal de Apoio à Cafeicultura de Ibiraci. Na primeira fase, reorganizamos a cafeicultura no município. Hoje o município tem cinco associações de pequenos produtores. Demos apoio com maquinário para abrir terreirões para secar café. Em reuniões, o pessoal pedia para formar um viveiro e oferecer mudas para plantar. Mas a gente via que a maioria que já militava na cafeicultura não estava dando conta de cuidar da plantação. Então para que plantar mais? Então passamos a pagar duas análises de solo para os produtores que estão ligados à associação. Quando chega a época de colocar calcário, a Prefeitura paga o frete porque o calcário é baratinho. Também compramos três patrulhas agrícolas e eles conseguiram autonomia. No ano passado, também visando ajudar o cafeicultor, a Prefeitura alugou um barracão e cada produtor podia armazenar até cem sacas de café sem precisar pagar nenhuma taxa nem correr o risco de deixar a produção na fazenda e ser roubado. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Qual o principal problema de Ibiraci?<br />Ismael -</strong> Na minha visão, Ibiraci não tem grandes problemas. O problema de Ibiraci, se é que isso pode ser chamado assim, é a oferta de bons empregos. Não há falta de vagas e sim falta de vagas de qualidade. Quem trabalha em fábrica ganha pouco e almeja um salário maior. Aí entra neste foco da educação que estamos seguindo, de oferecer capacitação para que as pessoas possam lutar por um emprego melhor. A pessoa preparada é cidadã do mundo e vai trabalhar onde for melhor para ela. </p>
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