Banalização da violência


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Vivo a me perguntar quanta violência a sociedade ainda necessita vivenciar para que tenha uma postura ativa na sua prevenção e no seu combate. É impressionante como somos bombardeados, diariamente, com notícias de atos de violência e simplesmente nenhuma atitude tomamos, a não ser a de cuidarmos da própria vida até que, infelizmente, ela bata à porta da nossa própria comodidade. A violência tornou-se parte do nosso cotidiano. Ela está presente nos jovens drogados nas ruas, nas crianças prostituídas em várias esquinas, na corrupção de policiais, nas falcatruas de muitos políticos e autoridades, nos empresários gananciosos, nos pedófilos acima de qualquer suspeita, nos assaltos, nos sequestros relâmpagos, no trânsito caótico e, muitas vezes, têm na origem, pais omissos na obrigação de educar. A violência é tanta que até já cunhamos a expressão `banalização da violência`, como se uma `simples` violência fosse permitida, mas a sua vulgarização não. Qual é o limite para a nossa indignação? Quanta violência ainda será necessária para que a sociedade se torne senhora de si mesma (e aqui me refiro às pessoas) e deixe de delegar apenas ao Estado o seu combate? Aliás, o Estado, como eu cito acima, tem nos seus representantes (autoridades, políticos, policiais etc.), muitos dos agentes da violência. Não podemos continuar a aceitar a violência como algo normal. Se nós contarmos as manchetes dos meios de comunicação, veremos que entre 60 e70% delas fazem referência, direta ou indiretamente, a atos de violência. Mas, o que me chama a atenção, realmente, é que ela se manifesta nos nossos pequenos atos que, por serem tão do dia-a-dia, parecem insignificantes. São as discriminações, desrespeitos (jogar lixo na rua, a exemplo), a enorme diferença econômica entre as pessoas e as diferenças culturais geradas pela exclusão social, a agressividade no relacionamento entre cônjuges, a violência com os filhos e até a dificuldade dos casais em dividir as tarefas domésticas no atual contexto de sociedade moderna. Tudo isso é violência intrínseca ao cotidiano pessoal de todos nós e que acabam refletindo no convívio social; ou seja, transferimos para `o outro`, nas ruas, o nosso descontentamento particular. A violência é muda também! Nosso silêncio ante essas barbaridades do cotidiano se torna, também, um ato de violência. A violência do silêncio compromete a solidariedade, a fraternidade e a nossa capacidade de confraternizar com as pessoas e com a vida. Infelizmente, tudo isso nos leva a aceitar a violência como algo normal e a banalização das cenas de violência nos leva a falta de reação. Portanto, só nossa reação pode transformar o ambiente social em que nos encontramos. As nossas ações precisam ser efetivamente transformadoras e não paliativas, como remédios que prescrevemos a uma dor qualquer. A aceitação da violência nos leva, como li em um texto, à absurda situação em que `a cada um de nós é constantemente mais difícil citar e recordar qual foi o crime gravíssimo praticado ontem, na última semana ou no mês passado. O que nos agride é aquele crime bárbaro do qual tomamos conhecimento há apenas alguns minutos`. Isso é a banalização da violência que poderá levar, se não nos cuidarmos, à banalização da vida humana. <b>Cassiano Pimentel</b> <i>Agente de exportação e professor universitário.</i>

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