Muitos, dentre aqueles com quem convivo, acham estranhíssimo o fato de toda semana eu ir ao encontro do terapeuta que há anos tem a gentileza de me ouvir e ajudar na árdua ultrapassagem e compreensão das barreiras da minha vida.
Outros, dentre aqueles com quem não convivo, vão achar esquisitíssimo eu fazer terapia e não vão entender o motivo pelo qual eu faço. Alguns - da família - ficarão com pena da pessoa que consideram estar pagando pecado para me aturar e compartilhar meu lado miserável, o lado negro da minha força. Há, entre eles, quem diga que foi pura perda de tempo, um trabalho absolutamente inútil, provavelmente com sério comprometimento do médico que não mereceria uma punição dessas... Da minha parte sei as razões pelas quais procurei e me mantenho em terapia. Às vezes acho difícil cumprir a rotina, mas valorizo cada momento ao perceber que caminhei bastante e, embora ainda não saiba aonde quero chegar, pelo menos já discirno que caminhos não vou seguir.
Não, não dependo emocionalmente dele. Não, ele não se intromete na minha vida. Não, ele não quer que eu me torne assim ou assado. Absolutamente, ele não faz qualquer esforço no sentido de me encaixar num protótipo ou estereótipo qualquer. Pelo contrário, sem dó ou piedade faz-me encarar o que recuso ver em mim ou admitir que vejo. Inúmeras vezes me enfrentou quando meu eu, desagradado, raciocinava e funcionava na tentativa de sair por uma tangente qualquer.
Mulher da geração anos 50 e adjacências, tive estimulado o pendor para ser vítima ou me sentir confortável numa situação de inferioridade: conformar-me era verbo e atitude desejada e, além de suportar as dores femininas - inclusive a do parto, ainda deveria considerar-me feliz vestindo a capinha de pobre coitada. Nasci e cresci numa época em que o ideal romântico do mulherio era um composto de abatimento, prostração e sacrifício. Porém herdeira das características guerreiras dos clãs Junqueira e Maníglia, aos poucos fui compreendendo que minha felicidade me empurrava para a contramão do trivial, da normalidade, do padrão.
Hoje percebo que não fui a única entre as muitas outras mulheres desses velhos tempos e, mesmo tendo quem encorajasse o tal pendor, eu não tinha vocação. Foi o primeiro passo para a rebeldia. Entendi que uma coisa é a sociedade exigir com sua aprovação; outra é nascermos com essa determinação e uma outra é nos submetermos passivamente a esse tipo de escravidão. Insurgi-me e fui...
Dos encontros com o terapeuta guardo momentos memoráveis. Um, bastante significativo: quando descobri que tormentos não existem fora de mim. Meus fantasmas são criações autóctones e quando os nomino, eles se materializam e podem ser enfrentados. Ele me dizia (e diz!) : "Ponha nome nisso que você descreve!" Penosamente, depois de trabalho, tempo e muita renitência eu ia conseguindo balbuciar, reconhecendo ou admitindo, em diversas situações: isso é Ódio, é Ciúme, é Inveja, Medo de Rejeição, Prepotência, Auto-comiseração, Impaciência e tantos outros sentimentos que os gregos tão bem descrevem através de suas divindades e que os deuses, tão humanos, compartilham.
Demoraria uma eternidade caso eu decidisse ser uma deusa do Olimpo e esse processo de humanização em andamento apenas se encerrará com a morte, sem que eu necessariamente tenha concluído o curso. Admito que tenho percebido progressos. Por exemplo, apesar das reincidências, a terapia está me ensinando a não julgar. Estou aprendendo a ouvir. Estou aprendendo a compartilhar; a perguntar quando pinta a dúvida; a não afirmar nada a partir de achismos; a receber uma crítica; a não confiar tão somente nos meus sentidos; a respeitar limites alheios, a entender a sutil passagem do ódio para o amor e vice-versa. Estou mais acolhedora, porquanto menos crítica. Muito mais tolerante, embora este seja meu ponto fraco, o mais vulnerável deles.
Culpa do sanguinho italiano, ainda escorrego. Fiquei tiririca ao receber proposta de um tratamento (caríssimo) cuja função é acabar com vestígios do tempo, indícios de idade, "essas coisas que enfeiam uma mulher", disseram-me. O que enfeia uma mulher, respondi, é ela não aceitar essas marcas, sinais de sua experiência e lutas vencidas. Nenhum procedimento cirúrgico ou tópico me devolverá o vigor da pele ou o brilho despreocupado e espontâneo do olhar. Muito obrigada, adoro ser o que me tornei. E aí, com reverência, agradeci quem me ajudou a aceitar a perda do viço exterior e valorizar meus aspectos interiores.
<b>ASPAS</b>
"Mas a verdade é que, afora a morte, não existe nada irremediável, exceto a própria covardia. Os homens costumam chamar de destino aquilo que lhes acontece quando perdem as forças para lutar." Rosa Montero em A história do Rei Transparente.
<b>NOME?</b>
Durante as reformas em casa perguntei ao ajudante de pintor se ele sabia onde estava o quadro do antigo caramanchão francano, retirado da parede e guardado em algum lugar que eu não sabia. Ele chacocalhou a cabeça e vermelhou-se. Achei estranho, perguntei outra vez, ele me olhou meio ressabiado e perguntou: "quadro de cará ... o quê?". Estou confusa: que nome moderno terão as estruturas colocadas ao redor da fonte luminosa da Praça Nossa Senhora da Conceição, cobertas de primaveras vermelhas?
<b>CHIQUE</b>
Franca ser apontada como uma das 100 melhores cidades para se fazer carreira no Brasil. Mesmo com a tímida classificação, aparecer no ranking soa como um bom presságio.
<b>BALELA</b>
Pode rir à vontade. Nunca acreditei na história dos americanos terem alcançado a Lua. Pra mim tudo não passou de filminho. Só faltaram Flash Gordon e uns homenzinhos verdes no cenário. Na luta pelo poder vale tudo, até encenação da verdade.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.