Alguém tem interesse em que o povo não leia. Isso pode até parecer paradoxal. Ainda mais frente ao grande incentivo oficial para a compra de livros destinados às escolas. Mas apenas adquirir o produto não significa consumo absoluto. A realidade mostra a existência de uma grande falta de leitura no meio escolar e fora dele também. A responsabilidade pelo fenômeno cabe a vários setores.
O bom livro é aquele que leva o leitor para muito além dos próprios livros. Essa constatação não agrada muito aos governantes. Uma população que vive em outras dimensões atrapalha uma boa (para eles, os administradores, claro!) administração pública. Muitos escritores sacaram a jogada. Em seu Admirável Mundo Novo, Aldoux Huxley fez esta premonição.
Escrito na década de 1930, o livro anuncia um admirável mundo. No novo tempo, a vida das pessoas seria controlada pelo Estado. Cada indivíduo teria uma prévia preparação para viver em consonância com os ditames oficiais. A atividade de todo cidadão seria atribuída pelo governo. E, como não podia deixar de ser, tudo começaria na escola. Desde o nascimento.
Para que o Estado cuidasse bem da população, cada pessoa receberia uma educação adequada. Assim, uns eram treinados para ler. Outros deveriam ter ojeriza pelos livros. Não haveria reprovações nas escolas. A educação era uma questão de condicionamento. As etapas continuadas de aprendizagem favoreciam o programa generalizado de universalização do ensino.
Num dos capítulos da obra de Huxley, os alunos do professor Foster foram levados ao quinto andar. Nessa ala, eles seriam condicionados a odiar livros pelo resto da vida. Para a futura profissão deles, o ato de ler não faria falta. Pelo contrário. A leitura até atrapalharia. Pois deveriam executar somente tarefas em que fosse necessário o uso da força corporal.
O ambiente de condicionamento foi previamente preparado por ajudantes com calças e jaquetas de viscose branca. Espalharam sobre o assoalho vasos com rosas e outras flores. Entre os arranjos, colocaram livros convidativamente abertos em páginas coloridas, com gravuras de diversos animais ocupando uma paisagem bem harmoniosa.
Os bebês foram descarregados. De início, berraram. Mas quando viram as flores e os livros, calaram-se imediatamente. Começaram a engatinhar na direção das páginas abertas, atraídos pelas cores vivas e pelo perfume natural das rosas... `Das filas de bebês que se arrastavam a quatro pés, elevaram-se gritinhos de excitação, murmúrio e gorgolejos de prazer`...
O diretor da ala de condicionamento esfregou as mãos de satisfação. Quando as pequeninas mãos alcançaram os livros, ele deu sinal às ajudantes de ensino. Uma alavanca foi levantada. Houve uma explosão violenta. Campainhas de alarme tilintaram junto, enlouquecedoras. As crianças sobressaltaram-se e choraram.
Para gravar a lição de maneira bem profunda, o diretor ordenou que fosse dado um ligeiro choque elétrico. Depois de urros espasmódicos, os corpinhos contraíram-se sobre si mesmos. No outro dia, a aula de leitura seria repetida. A partir da terceira ou quarta sessão, as crianças passariam a ter um ódio instintivo pelos livros e consequentemente pela leitura. Pelo resto da vida!
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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