Merece aplausos a iniciativa das entidades da classe calçadista, tentando conscientizar o Governo sobre a necessidade de proteger a indústria calçadista nacional e, principalmente, os empregos que oferece. Ao que tudo indica, será uma tentativa vã, já que outros interesses bem mais poderosos estão em jogo.
E percebam que nem vou falar do `camaradas` chineses que tem no assessor da Presidência da República para política internacional, o professor Marcos Aurélio Garcia, seu advogado principal. O comunismo, ou como soa melhor – o socialismo e seus representantes –, pelo menos para eles é intocável.
Também não vou falar de interesses outros, como a balança comercial e o comércio exterior com seu aspecto global, que ficam estremecidos só em pensar que os camaradas chineses poderiam fazer cara feia com a ameaça do processo do dumping e dificultarem a compra de minérios, de soja, de carne e de outros produtos, que embora não garantam empregos em larga escala, pelo menos não deixam secar o fluxo de dólares. Sendo estes os aspectos reais do comércio exterior, o couro e o calçado estão perdendo cada vez mais a importância.
Precisamos olhar o que nos podemos fazer por nos mesmos, já que do governo o que podemos esperar é a intensificação da arrecadação de impostos desfalcada pela generosidade mostrada com as montadoras. Como já disse, dificilmente baixará a carga dos impostos embutida nos calçados, atualmente na casa dos 39,6%. Do mesmo modo fica a reforma trabalhista, encravada no Congresso, que tem assuntos muito mais importantes a tratar como, a exemplo das passagens aéreas dos familiares e namoradas, pagas com o dinheiro público. Também não podemos esperar uma desoneração dos encargos que hoje encarecem a mão-de-obra a ponto de tirar qualquer competitividade com produtos similares importados.
Já que não podemos esperar ajuda de ninguém, que tal olharmos para dentro e verificarmos o que pode ser feito no âmbito de cada empresa? Garanto-lhes que muito! Os desperdícios são enormes em todas as áreas. Há anos falo e escrevo sobre isso, mas até hoje a crise não apertou de modo a levar empresas e empresários a considerar isso seriamente. Mas tenho meus argumentos e espero a oportunidade de alguma contestação para poder provar a justeza deles.
Fui convidado dia destes para avaliar uma operação de pesponto, gerenciada pela própria empresa, mas em localidade diferente da matriz. Fiz avaliação, louvei o modo como esta unidade é gerenciada a despeito de não contar com mão-de-obra com bastante experiência. Mas a qualidade era superior àquilo que as bancas locais estão fornecendo por um preço bem superior.
O que chamou a minha atenção foi a irracionalidade do processo produtivo. Analisando mais detalhadamente, vi que a culpa era exclusivamente da modelagem que, evidentemente, não se preocupou nem um pouquinho com o processo produtivo e conseguiu criar um Frankenstein de operação.
É concebível que numa empresa moderna, que se esforça para atuar no primeiro grupo das empresas calçadistas, pode existir algo como 49 operações de mesa entre colagem e outras e 20 operações de costura em máquinas? Chamar aquela aberração de indústria é ou ignorância ou gozação. Muito mais apropriado seria chamar aquele aglomerado de operários de artesanato ou com boa vontade, de artesanato mecanizado.
O que caracteriza uma indústria e antes de tudo uma boa gestão é a unificação de propósitos. Quais são eles? Em primeiro lugar, atender às necessidades dos clientes. Como? Através de qualidade e de preço correspondente ao grau da qualidade do produto. Esta filosofia deve estar na mente de todos os setores envolvidos a começar pelo setor de desenvolvimento - caso ele exista e seja levado a sério.
Mas, se eu encareço o meu produto com operações obsoletas, até prejudiciais à saúde e ao conforto do pé, estou pecando contra o primeiro dos propósitos de servir. O desperdício não se limita ao desperdício de mão-de-obra pelas operações supérfluas e evitáveis. Em toda cadeia de gestão estamos assistindo a desperdícios em todos os setores, desde o administrativo, passando pela produção e até o gerenciamento de vendas. As perdas causadas pela logística errada de movimentação de produtos dentro da fábrica para atender as necessidades de processo produtivo são de assustar. Como se paga, sem pensar, pelas atividades que não acrescentam em valor ao produto um milésimo de real! Mas estão aí, sempre presentes e não incomodam a ninguém.
Vamos pedir ao governo medidas anti-dumping antes de esgotarmos todos os meios de tornar a nossa indústria mais competitiva? Quero ser justo. O que censurei nas indústrias de calçados se aplica igualmente aos curtumes, aos fornecedores de solas e de outros insumos. Desde os tempos da inflação desenfreada, os donos das empresas se acostumaram a transferir a falta da eficiência, via tabela de preço, ao comprador. Não será fácil mudar esta mentalidade. Nem aquela, que diz que o governo deverá ajudar sempre!
<b>BONS RESULTADOSM</b>
Louis Vuitton, a marca proeminente de artigos de viagens e bolsas está negociando com a cantora Madonna, mais uma campanha para sua coleção outuno-inverno. Antoine Arnault, chefe de comunicações da Louis Vuitton, confirmou as negociações destacando que a coleção que Madonna já apresentou foi vendida em poucos meses. As clientes iam às lojas e pediam artigos dizendo que queriam "calçado ou bolsa da Madonna`.
<b>MORREU</b>
Designer das botas e calçados para esportes radicais, John Bachar morreu durante escalada na área de Dike Mammoth Lake, na Califórnia, Estados Unidos. Praticante entusiasmado do montanhismo, criou o nome, com design de calçados de alta performance que foram copiadas no mundo inteiro pelas suas qualidades intrínsecas.
<b>Zdenek Pracuch</b>
<i>Sapateiro, shoemaker</i>
pracuch@comerciodafranca.com.br
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