A mulher das palavras


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<b>REPÓRTER DE ALMA</b> - A jornalista Eliane Brum, uma das mais premiadas do Brasil: “Para mim há dois tipos de repórteres: os que acham que o jornal que estão fazendo vai embrulhar peixe no outro dia e os que acha
<b>REPÓRTER DE ALMA</b> - A jornalista Eliane Brum, uma das mais premiadas do Brasil: “Para mim há dois tipos de repórteres: os que acham que o jornal que estão fazendo vai embrulhar peixe no outro dia e os que acha
<p align="justify">As mais de duas mil palavras desta entrevista podem dar uma ideia do trabalho da jornalista Eliane Brum, mas elas não passarão de uma breve, brevíssima noção. Suas reportagens singulares bem que poderiam ser enquadradas como autorais, literárias, new journalism ou alguma outra denominação, pois são tudo isso. São, principalmente, um trabalho jornalístico de alma, algo que já tinha deixado as redações muito antes das máquinas de datilografia irem embora. Em algum momento, o gosto pelo jornalismo de imersão, impressões, detalhes, de aproximação e paixão se perdeu de tal forma que os textos de Eliane Brum podem até soar como inalcançáveis. </p><div align="justify"> </div><p align="justify">Para publicar as reportagens veiculadas na Revista Época, onde é colunista e repórter especial, Brum, uma das mais premiadas jornalistas brasileiras, com mais de 40 prêmios no currículo, entre três Esso e seis Vladimir Herzog, se permite apenas ouvir e, com isso, contar as histórias de personagens reais, perdidos no meio da Amazônia ou esquecidos pelo mundo num asilo carioca. “Eu sempre faço meu trabalho, pensando que, seja uma nota ou uma matéria de 20 páginas eu estou fazendo um documento, para uma pessoa, uma comunidade ou para o meu País e que, daqui a 50, 100 anos, um pesquisador vai encontrar meu trabalho e terá um relato sobre essa época que a gente vive. É com essa responsabilidade que eu vou para a rua. </p><div align="justify"> </div><p align="justify">Para mim há dois tipos de repórteres: os que acham que o jornal que estão fazendo vai embrulhar peixe no outro dia e os que acham que o que fazem é documento. Eu estou no segundo time”, diria ela, na abertura de sua palestra na Feira do Livro em Ribeirão Preto, no domingo 21 de junho. O evento pode até ter sido preparado para um público específico, o de jornalismo, mas foi além disso. Tratou das histórias que permeiam as relações entre a profissional e seus entrevistados, como as contadas no seu terceiro livro “O olho da rua” (2008 - Ed. Globo), onde reúne 10 grandes reportagens e comentários da autora sobre os bastidores de cada trabalho. Histórias como a da merendeira Ilce, que Eliane acompanhou durante os 115 últimos dias de vida. Ilce tinha um câncer que não lhe deu opção alguma. Ao partilhar o dia-a-dia com uma pessoa desconhecida, entre visitas semanais e telefonemas diários, o cotidiano das duas passou a se confundir, levando a jornalista a uma experiência íntima avassaladora que resultou numa reportagem marcante. Ou o inverso. </p><div align="justify"> </div><p align="justify">“Para mim uma reportagem só acontece se ocorrer uma transformação. Não uma grande transformação, mas algo delicado, no campo da sutileza. Nas últimas conversas, falávamos sobre comida. Ela me ensinou um monte de receitas e enquanto eu engordava, ela emagrecia. Acompanhar o viver do fim da Ilce mudou toda a minha relação com a morte, e minha relação com a vida. De várias maneiras e muito profundas”.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio da Franca - Como você descreveria seu trabalho? <br />Eliane Brum -</strong> O meu trabalho é focado no homem comum. Eu conto a história de pessoas supostamente comuns. Toda a vida nossa e do outro é habitada pelo extraordinário, mas vemos muito claramente na imprensa que algumas mortes valem bem mais que outras. Algumas mortes ganham a capa dos jornais, das revistas e muitas não ganham sequer uma nota. Por que umas mortes são mais importantes que outras? É por que algumas vidas são mais importantes que outras? Querem nos fazer crer que as vidas que valem são aquelas que fazem sucesso, o que em nossa época significa bater recordes, ganhar muito dinheiro, ser celebridade, fazer grandes feitos. Eu não acredito nisso. Meu trabalho é resgatar a importância da mulher e do homem comuns, porque, quando nos fazem crer que nossa vida é banal por não termos alcançado grandes feitos, o que fazem é nos esmagar, nos derrotar, nos oprimir. O que eu faço com meu trabalho são algumas perguntas para questionar a imprensa que a gente lê e, no caso, a que eu trabalho. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Você faz uma opção em suas matérias que é dar voz a pessoas simples. Não existe nenhum figurão entre seus amores jornalísticos?<br />Eliane -</strong> Têm alguns, sim (ri). Cobri a campanha do então candidato Lula, em 2002. Acho que foi o maior figurão sobre quem escrevi. Mas não é uma questão de a pessoa ser rica, pobre, anônima ou famosa; é uma questão de olhar. Porque quando eu escrevo sobre gente famosa, eu olho para outras coisas. Como jornalista o que me atrai é menos o que as afasta de todos nós e mais o que nos aproxima. Para mim, interessa o que é mais igual que diferente. Quando escrevo sobre gente famosa é com esse olhar de cotidiano, o que a faz acordar no dia seguinte. Se tu for ver, você não sabe nada sobre aquelas pessoas que estão na mídia. Pode ter lido 50 matérias e não saber nada sobre ela.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Em suas obras, você fala muito sobre a importância de saber escutar as pessoas. Por que isso se tornou um ato de generosidade quase impraticável? <br />Eliane -</strong> Fundamental é escutar. As pessoas têm uma dificuldade monumental em escutar. Infelizmente isso acontece muito na imprensa e especialmente agora que se faz muita matéria por internet e por telefone. Quando se entrevista alguém por telefone, você não está enxergando nada. Você tem palavras. Elas são importantes, mas não dão a complexidade do real. Estamos reduzindo a complexidade do mundo e ele é feito de gestos, nuances, texturas, cores, cheiros. Quando as pessoas silenciam, elas estão nos dizendo algo. Isso vale para o repórter e para a nossa vida. Como repórter, temos que levar isso para o leitor. Essa escuta tem que ser muito ampla. Hoje, muitos jornalistas vão para a rua apenas para comprovar uma tese que eles já elaboraram dentro das redações, como se o mundo estivesse dentro da redação e não o contrário. Escutar o outro é se despir de tudo aquilo que tu és, dos seus preconceitos, de toda a sua visão de mundo e se colocar diante do outro com toda a sua honestidade e dizer para o outro: “eu vou te escutar”.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - O jornalismo inócuo e descompromissado vale para alguma coisa?<br />Eliane -</strong> Eu sou profundamente comprometida com o que eu faço. Eu falo que não é só um trabalho, mas um jeito de estar no mundo, é a forma como me expresso. Eu sou implicada nas histórias que conto, nunca as abandono e elas não acabam quando são publicadas. Eu não conto histórias para ganhar meu salário, embora seja importante porque é dele que eu vivo, mas eu conto porque eu acredito. Para mim não é possível estar no mundo se eu não acreditar no que eu faço. Se eu deixar de acreditar no jornalismo como meio de transformar o mundo, eu deixo de fazer o que eu faço.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - A premência do tempo nas redações quase sempre impede que o jornalista se dedique a uma reportagem como gostaria. A maioria das matérias é superficial, efêmera, pequena. Que espaço existe hoje para trabalhos como os seus?<br />Eliane -</strong> Eu acho que estamos vivendo um momento histórico importante. A imprensa precisa cada vez mais de bons contadores de histórias e de boas histórias, bem contadas, porque ela precisa se diferenciar. Hoje você tem um leitor exigente e de pouco dinheiro. Ele só será convencido a comprar sua revista ou seu jornal se você der algo muito bom para ele. É claro que a gente tem menos tempo do que gostaria, menos espaço do que gostaria. Eu mesmo sempre escrevo o dobro do que cabe e os editores sempre têm que cortar metade do que escrevo. Eu trabalhei durante 11 anos em jornal diário e acho que é possível contar boas histórias. Claro que não é como se tu tivesse um mês para fazer, mas é possível escrever, com teu compromisso. Todo mundo tem uma desculpa para uma matéria preguiçosa. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Mesmo numa revista semanal, teu cotidiano deve ser corrido...<br />Eliane -</strong> Eu estou aqui hoje (domingo, 17 horas), trabalhei ontem e amanhã vou ter que acordar às cinco da manhã para escrever uma coluna que tem que estar pronta às 10 horas sem falta, e eu ainda não escrevi uma linha porque não deu tempo. Em geral, trabalho até mais tarde e acordo mais cedo para fazer isso. Não é para agradar meu chefe, mas porque eu acredito. Meu compromisso é com a história que eu estou contando, com as pessoas que eu entrevistei. É uma questão de comprometimento do jornalista, de saber que o que está se fazendo é importante. Com isso, você não se deixa esmagar. Não é pouca coisa o que a gente faz. Por isso eu tento acordar ciente da grandeza que a gente tem, jamais com arrogância.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Você entrevista pessoas comuns, com histórias comuns. O que você responderia se um editor perguntasse por que não procura alguém ‘interessante’ pelo menos uma vez?<br />Eliane -</strong> Eu aceitaria essa provocação e iria contar uma história que ele não tivesse lido ainda. Talvez ele não me mandasse uma segunda vez...</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - O formato “fast food” da notícia veiculada na internet, seja através de blogs ou sites noticiosos, é um contraponto ao que você escreve. Como você vê esse momento?<br />Eliane -</strong> A ampliação das vozes, principalmente pela internet, tem vários lados, e eu vejo um lado muito positivo que tem me interessado muito. Eu sempre me coloquei como uma jornalista que escreve sobre as pessoas que não tinham voz. Hoje não posso dizer isso. Hoje o que eu posso fazer é ampliar as vozes, questionar suas vozes. A internet permitiu que muitas pessoas que não tinham acesso à imprensa tradicional produzisse seus próprios textos. Acho isso muito interessante. E um exemplo disso é o movimento literário da periferia de São Paulo. Pela primeira vez, uma geração de escritores periféricos está escrevendo sobre suas vidas, com sua linguagem. Em 2007 eles fizeram a semana da arte moderna da periferia, numa provocação à Semana de Arte de 22. Com exceção de uma matéria que eu fiz, talvez mais dois veículos, em toda a imprensa, cobriram. Antigamente era como se não tivesse existido, porque se a imprensa não cobriu, não aconteceu. Mas essa semana foi amplamente divulgada em blogs e azar para a imprensa, que está deixando de contar a história como ela acontece. Isso está mudando a questão do poder, da relação de força. A internet vem com uma valorização dos pequenos saberes, das pequenas histórias. Eu acho isso fascinante.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Uma boa reportagem depende do veículo, do tipo de mídia, só de tempo ou só do profissional?<br />Eliane -</strong> E uma questão séria essa. Tem que ter muita consciência que para se fazer uma boa reportagem é preciso investir. Investimento financeiro, de tempo, de formação de jornalista. Se perdermos isso de vista, estamos ferrados. Esse investimento que a imprensa faz na boa reportagem não será substituído nunca.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Para boa parte da imprensa, como você disse, certas mortes valem mais que outras. O mesmo parece valer para o evento da periferia ou para algo que não desperte o interesse imediato de jornais, TVs e revistas. Não é uma dose grande de arrogância que persiste nos veículos?<br />Eliane -</strong> Sim. Se tu for ver hoje a imprensa está limitada ao seu mundinho. Eu conheço jornalista que nunca foi para a rua. E não é porque o chefe dele não quer, é porque ele não quer. Se tu for ver as redações em São Paulo, são todas longe do centro, em lugares onde quase não dá para ir a pé. Longe de tudo, longe do mundo, que passou a ser dentro da redação e não fora. Cabe resistir a isso. Tem dias que eu fico cinco horas na rua para fazer uma matéria; quatro no trânsito e uma entrevistando. Chego em casa à meia-noite, mas faço isso por resistência.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Pelo jeito, a máxima ‘o jornalismo está nas ruas’ anda esquecida.<br />Eliane -</strong> O engraçado é que tu perde o melhor da reportagem. É uma redução da vida em todos os sentidos, inclusive de quem está fazendo a entrevista. Ir para a rua é o mais fascinante. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Você está no terceiro livro na praça. Como tem se preparado para a sua vida literária?<br />Eliane -</strong> Eu sou uma pessoa que não planejo a vida. Eu tento viver um dia de cada vez mesmo. Além da revista, estou trabalhando em um documentário (o segundo), tenho que entregar meu novo livro até 10 de setembro, além de outros projetos paralelos. Me mantenho fazendo várias coisas porque isso me faz circular. Mas se eu for parar para pensar no que eu tenho para fazer, eu não faria nada. Eu faço mais coisas do que eu poderia.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Escritores como Luiz Fernando Veríssimo dizem gostar do contato com o público, mas, contraditoriamente, escrevem cada vez menos para poder atender a tantos compromissos em feiras e eventos. Você está entrando nesse ritmo?<br />Eliane -</strong> Eu gosto de dar palestras. Antes eu era muito tímida e era muito difícil para mim. Tive que me convencer aos poucos. Mas adoro porque acho que é uma troca. Gosto da chance de poder mostrar meu trabalho para mais pessoas e fico honrada que elas queiram me escutar. Tenho apenas que me ajeitar para continuar participando e escrevendo. </p>

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