Na madrugada do dia 21 de junho, o trabalhador rural Paulo Sérgio Rodrigues, 46, perdeu o filho Wanderson César Rodrigues, 20, morto com três tiros na porta de uma boate no Centro de Franca. Desde a morte do rapaz, Paulo sente um aperto no peito imensurável e continua com as últimas palavras ditas pelo filho bem vivas em sua lembrança. “Era sábado pela manhã quando ele levantou e foi tomar café. Lá ele me disse: ‘Bença pai, hoje depois do serviço vou na cidade comprar umas roupas. Então se o senhor voltar e eu não estiver é porque já fui.’ Ele foi e não voltou”, disse o pai com a voz embargada.
Somente neste ano 11 famílias da cidade já passaram por esse drama de perder um parente de forma violenta. Três delas foram visitadas pela reportagem do Comércio para contar como estão após receber a notícia mais triste de suas vidas. Em dois casos os assassinos continuam soltos. No terceiro, o filho matou o pai e foi encontrado morto dois dias depois.
No caso da família Rodrigues, Wanderson morreu por causa de uma confusão com um copo de cerveja. O tiro foi dado por um menor que continua em liberdade. Dois dias após a perda do filho, Paulo voltou a trabalhar na panha do café, mas a imagem do jovem não sai de sua cabeça. Ele também mal se alimenta e levanta todas as noites para chorar. “Nossa relação era mais do que de pai e filho. Parecíamos dois irmãos...(silêncio e choro)... Estou trabalhando porque preciso trabalhar”.
No quarto que Wanderson dividia com o irmão tudo está da mesma forma. No guarda-roupa que ele havia comprado recentemente nada foi mudado. Naquele dia, inclusive, ele foi para a cidade (Wanderson morava numa fazenda a seis quilômetros do Aeroporto Tenente Lund Pressoto, com o pai, a madrasta e dois irmãos) para comprar roupas novas. No meio da tarde resolveu que não voltaria para casa. Queria se divertir um pouco na noite. Ao se envolver numa briga, acabou morto com tiros a queima roupa. “Ele estava trabalhando registrado havia dois meses e queria juntar dinheiro para tirar carta e futuramente comprar um carrinho. Ele estava cheio de planos....”.
Mineiro simples de Capetinga e com pouco estudo, Rodrigues não gostaria de ficar frente a frente com o assassino de seu filho, mas espera que a Justiça seja feita. “Queria que colocassem a mão nele. Caso contrário ele vai continuar fazendo mal. Não quero que outras famílias sofram o que estou sofrendo (Paulo chora novamente)”.
Durante uma hora de conversa, o pai de Wanderson chorou por três vezes, mostrou a chuteira do filho, o videogame na frente da cama, a carteira de trabalho registrada, uma foto dele numa festa no quintal de casa (a única em tamanho maior, as outras são 3x4) e disse que o jovem gostava de jogar futebol e pescar. “Todo sábado depois que acabava o trabalho ele jogava futebol com os amigos. Fazia três meses que ele não saía à noite”. Pai e filho trabalhavam juntos na roça e depois do dia de trabalho continuavam inseparáveis, sentados diante da TV para descansar. “Um pai nunca esquece de um filho que partiu, mas a hora que levanta pela manhã e o começo da noite são os piores horários. Não tem sido fácil”, resumiu a madrasta de Wanderson, Joana Eurípedes Gonçalves.
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