A neta pergunta a queima roupa, assim, sem mais nem menos: "Quando sua mãe morreu você ficou muito triste?". Levei um baita susto pois estávamos em volta de uma mesa, ouvindo música, desenhando, rodeadas e manchadas por um monte de tintas coloridas.
O cenário era de alegria, leveza, um fim de tarde perfeito para inventação de moda de avó e netas: só faltava bolinho de chuva. Mas não chovia e a Nanda queria uma resposta. Fiquei, sim, respondi. E continuei: "mas todo mundo um dia vai morrer e eu sei que vovó Cacá teve uma vida cheia, bonita, que ela foi feliz, amada, tenho certeza que ela viveu e morreu bem." "Ela era muito velhinha, não era?" Aí ela me pegou, pensei. Nunca vi minha mãe muito velhinha.
Mesmo quando foi para o hospital, com oitenta e três anos, eu ainda acreditava que ela teria muito tempo pela frente, ainda veria outros bisnetos, ainda receberia amigas para um lanche e "costura" como elas apelidavam as tardes de jogatina inocente. Mas seria muita informação para uma menininha de cinco anos e eu finalizei com um "Era. Era muito velhinha." Depois que as netas foram embora e levaram a alegria junto com elas, fiquei sozinha pensando sobre essa questão de idade. Quem é velho? Quem é jovem? O que define a juventude, o que define a velhice?
Um amigo aguardava na fila, quando o funcionário do banco gentilmente o encaminhou para a frente de todos. "Venha comigo, por favor: o senhor tem direito a um atendimento diferenciado!" Ficou meio constrangido, meio embaraçado, principalmente porque uma moça resmungou qualquer coisa quando ele passou. Bem humorado, virou-se e lhe disse: "Fica com raiva, não, moça. Essa é uma das poucas vantagens que eu tenho de ser velho. Todas elas estão com você e seus coetâneos..." Dei risada, mas não concordei com ele. A idade nos traz muitas outras vantagens.
Um dia fui ao oftalmologista para reclamar da má visão que subitamente me acometera. Não enxergava direito, coisa mais esquisita. Ele deu uma risadinha sarcástica e diagnosticou. Não era grave e é isso aqui, ó! e apontou minha idade na ficha. Estava com quarenta e dois anos e ali começava meu declínio... A presbiopia me pegara. Ao colocar os óculos, vi de perto outro sinal, esse muito mais triste: a perda dos contornos. Meu rosto começava a despencar.
Assustadíssima, subi na balança e consegui enxergar os números correspondentes ao meu peso: melhor ignorar. Impossível: sentei e chorei à beira do caminho da descida. Pensei nunca mais uma saia mais curta, nunca mais um decote, nunca mais uma risada mais alta, nunca mais os atrevimentos relacionados à minha irreverên cia e às constantes e habituais quebra de paradigmas. Estava redondamente enganada. De algumas dessas coisas abdiquei tranquilamente. Da maioria, nem tanto. Senti que ganhei outras, muito mais significativas.
Ganhei, por exemplo, autonomia. Sinto-me segura para querer ou não querer o que quer que seja. "Ninguém me manda, sou dona do meu nariz": com exclusão de autistas e psicopatas, quem pode dizer isso sem culpa? Não tenho filho para deixar, buscar, cuidar, alimentar, dar banho. Disponho do meu tempo como bem entendo. Ganhei a capacidade de dizer verdadeiramente sim ou não.
Cheguei naquele estágio de só conviver com quem eu gosto: quer coisa mais gostosa? Leio até a hora que quero. Escuto as músicas que escolho, sem dividir aparelhos ou negociar altura do som.
Tenho projetor de filmes só pra mim. Durmo até meu olho abrir sozinho. Afugento o BD (Bichinho da Desvalorização) perguntando-lhe: quantos jovens conseguirão chegar à minha idade com a mesma qualidade? Já passei pelo caminho de quem é considerado jovem. Ele conseguirá alcançar o meu?
Um dia explico à Maria Fernanda que morrer faz parte do jogo. Que a morte é a coda de toda ópera chamada Vida. Se ela me perguntar se tenho medo, vou ser clara: claro que tenho! Porém o terror maior é a possibilidade de ficar exposta entubada e inconsciente, de virar um vegetal alimentado artificialmente, de ser cuidada intimamente por desconhecidos. Mas essa conversa e esclarecimentos ficam para, se eu tiver sorte, quando ela tiver mais idade e puder compreender tanto o motivo do medo de morrer quanto o que pensa a vovó sobre o mistério chamado morte.
<b>MULTAS </b>
Falam de multas para quem transita acima de velocidade, quem estaciona em local proibido e/ou atravessa sinal fechado. Será que alguém já pensou numa multa para quem está na direção do carro e, compulsória e distraidamente, enfia o dedo num buraco do nariz, percorre teto e assoalho, faz rosquinha, atira o cotoco pela janela e depois ainda repete a operação limpeza no buraco contíguo? Justificativas possíveis: distração (há quem verifique além do tato, também pelo olhar o tamanho da caca); higiene e saúde pública (você sabe onde esteve a mão que lhe foi estendida?), limpeza das ruas (caca aqui, caca acolá, uma hora elas se juntam).
<b>MODA </b>
Nos anos 50 foi editado um livro chamado Aprenda a Costurar com Gil Brandão, sucesso de vendas e utilização. O tal livro hoje é uma raridade. Por esse motivo está em andamento um projeto do Jornal do Brasil - onde manteve por uma década sua seção de moda - para tentar resgatar as lições do modelista. Faz parte do projeto a seleção de 50 moldes que servirão como exercício prático aos leitores e contemplará um reparte para entidades de ensino voltadas ao mundo da moda. Gil Brandão tem importância enorme para a história da indústria da moda brasileira.
<b>ROBERTO CARLOS </b>
Patrulheiros criticavam (e criticam) essa preferência. Nem ligo. Ouço-o cantar Você não sabe (Você não sabe quanta coisa eu faria, além do que já fiz. Você não sabe quanta coisa eu faria pra te fazer feliz. Eu chegaria aonde só chegam os pensamentos, inventaria uma palavra que não existe, pra te dizer nesse meu verso quase triste quanto é grande o meu amor"...) e meu coração se enche de uma coisa boa e quente. Bem melada. Idem quando ele canta Como é grande o meu amor por você... Quem resiste? A Folha explica Roberto Carlos escrito por Oscar Pillagallo já está nas livrarias tentando esclarecer essa preferência nacional que Caetano comparou ao gosto pelo guaraná.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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