Nunca cultuei imagens, ícones, personalidades, santos ou o que quer que seja. Sempre admirei, momentaneamente, pessoas que pelos seus aspectos ou qualidades estivessem em afinidade com as minhas expectativas. Reconheço e enalteço a importância da contribuição que muitos deram e dão à história da humanidade, ao seu desenvolvimento e, principalmente, a aqueles que contribuem para melhorar a qualidade da nossa vida ainda mais se considerarmos que, atualmente, as pessoas são impelidas ao individualismo e à busca da satisfação única e exclusivamente pessoal.
Entretanto, não poderia deixar de comentar esse momento da morte do ídolo pop Michael Jackson. Meu comentário não visa exaltá-lo (artista de valor indiscutível e influente no mundo da música) e, muito menos, usar da mesma ladainha que ultimamente presenciamos em setores da mídia.
Nesse seu derradeiro momento fico a observar a hipocrisia humana, pois, até dias atrás, a imprensa de todo o mundo lembrava o cantor apenas para noticiar os seus processos por abuso de menores, sua decadência artística e financeira e suas excentricidades.
Agora, após a sua prematura morte, que no meu entendimento apenas encerra o drama atual de uma vida infeliz e solitária, algumas pessoas manifestam, respeitosamente, o seu valor para a música internacional; enquanto que outras brigam pela guarda de seus filhos, pela administração dos seus bens (afinal quanto ele deve?), e uma legião de fanáticos, cúmplices de mercadores oportunistas, protagonizam o derradeiro show do cantor: seu funeral.
O fato é que esse comportamento obsessivo de parcela da população pelas celebridades ou ídolos atende a indústria da mídia, em especial a TV e as Revistas. Não podemos esquecer que as celebridades têm, para esses veículos de comunicação, forte apelo publicitário. Conforme pesquisa publicada anos atrás pela BBC.brasil.com, 1% das pessoas desenvolvem um comportamento obsessivo pelas celebridades, 10% interessam pelo dia-a-dia do seus ídolos chegando a alterar seu temperamento apresentando sinais de neurose e 14% se esforçam para se manter informados sobre seus ídolos. Portanto, temos um expressivo contingente de 25% da população envolvido com o existir da celebridade. Assim, fácil deduzir o que significa, economicamente, esse momento para a mídia sensacionalista.
A TV Globo não poderia ter comportamento diferente nesse episódio e registra, todos os dias em quase todos os seus programas de notícia, os detalhes do seu funeral, da sua vida e dos seus parentes. Mas, nada se compara às "pérolas" que foram apresentadas no Globo Repórter dedicado ao cantor. Primeiro foi o rapaz atropelado pela comitiva do cantor, quando esteve no Brasil, que só faltou agradecer pelo atropelamento. Depois, a fala da turista alemã que, aos prantos, diz "não imaginar como serão seus próximos dias, sabendo que o ídolo morreu".
Bem, para o rapaz atropelado só restou o pino de platina na perna acidentada e, para a turista alemã, alguém poderia lhe apresentar o momento que vários países e povos no mundo vivem, começando por Honduras e passando pela China. Assim, ela e tantos outros fãs fanáticos, poderiam ter o que fazer nos seus próximos dias: ajudar a diminuir as hipocrisias sociais, econômicas, culturais e políticas exibidas pelo mundo. Bem, pedir isso seria exigir muito da mídia e dessa parcela da humanidade.
Afinal, a imprensa não fala mais dos casos Isabella Nardoni e Eloá, da destruição causada pelas inundações no norte e nordeste, dos acidentes aéreos (logo não falará mais do acidente da Air France) e de tantas outras verdadeiras tragédias. Sabe por quê? Encheu! Não comove e não dá mais audiência.
<b>Cassiano Pimentel</b>
<i>Agente de exportação e professor universitário</i>
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