Fala-se a todo o momento em Deus, em Jesus Cristo, mas na maioria das vezes de uma forma excessivamente melosa, piegas mesmo. Vejo em automóveis adesivos `Propriedade de Jesus`. Há os `Atletas de Cristo`. Após um jogo do campeonato brasileiro, o goleiro do time vencedor, na entrevista, disse, em síntese, que creditava a vitória a Deus. Fiquei uns instantes indagando a mim mesmo se ele tinha noção do que dizia.
É cada vez mais comum ver jogadores, antes da partida, abrir os braços e abstraírem-se alguns segundos, o rosto voltado para o céu, os olhos fechados. Invocam Deus; creio que seja para ajudá-los a vencer, pois não os vejo repetir o gesto depois de uma derrota. O problema é que os adversários também pedem a ajuda divina. Como fica Deus nessa? Escolhe o que pede com mais fervor?
Ou o que é mais fraco? Deus os ouve, mas duvido muito que os leve a sério. No filme Banquete do Amor, há um diálogo entre um homem mais velho, cujo único filho morreu, e um amigo, mais jovem, que sofreu duas desilusões amorosas seguidas. Ambos estão desolados. Diz o primeiro: `Acho que Deus se esqueceu de nós`, ao que o segundo responde mais ou menos assim: `Não, não esqueceu, do contrário não nos teria dado corações tão fortes para suportar tudo isso`.
Deus é amor. Deve-se invocá-Lo para objetivos nobres. Sempre que entro no carro peço a Deus que me proteja e a quem está comigo. Mas reconheço que o certo é agradecer por ter carro, por poder dirigir e, como retribuição, ser cauteloso e paciente no trânsito, não criar situações de risco, etc. O melhor agradecimento é agir decentemente perante as pessoas e os demais seres vivos.
Deus é grande demais para precisar de alguma coisa nossa. Não necessita de que ninguém O defenda se Seu nome é proferido em vão. Não precisa que ninguém faça guerras, mate pessoas, em Seu nome. O jogador de futebol pode invocar Deus, mas não para pedir a vitória; pode agradecer por estar ali, ser parte do espetáculo.
Pode até pedir ajuda, mas para ser leal, para saber lutar com serenidade, aceitar a derrota caso ela venha. O individualismo deve ser deixado de lado. O que pedimos a Deus tem de transcender a nossa pessoa, ser compatível com a natureza divina; não que nos livre das adversidades, mas sim que nos dê força para enfrentá-las; não que castigue quem nos causou algum mal, mas sim que nos dê forças para perdoar.
Menos para nós do para os mais desafortunados. Escreveu Einstein: `...uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser aquela que, tanto quanto lhe foi possível, libertou-se dos grilhões dos seus desejos egoístas e está preocupada com pensamentos, sentimentos e aspirações a que se apega em razão de seu valor suprapessoal...` (Ciência e Religião).
Deus deve ser mais referência para nossas ações do que Aquele a quem ficamos pedindo o que, muitas vezes, já temos, e não vai subverter a natureza das coisas para satisfazer vontades nossas. Quem der murro em ponta de faca, não se iluda, vai ferir-se, mesmo que o faça pensando em Deus. Temos livre-arbítrio. Somos livres para fazer as escolhas, mas não estamos imunes às consequências, pois há uma relação natural de causa e efeito.
Quem quer mais proximidade com Deus, ame o próximo, seja ele uma pessoa, um animal, uma árvore. Ama-se o Criador amando as suas criações, vendo nestas a Sua imagem. Como escreveu S. Tomás, subtrair qualquer perfeição às criaturas equivale a diminuir a própria perfeição divina. Nada a acrescentar.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro `Pensando na Vida` paulopereiracosta@uol.com.br
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