Quase uma terapia


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<B>ALFABETO</B> - Num dado momento, concluo infantilmente: todos esses livros esparramados no chão, embora escritos em línguas diferentes, independente da quantidade de páginas e da sofisticação de linguagem
<B>ALFABETO</B> - Num dado momento, concluo infantilmente: todos esses livros esparramados no chão, embora escritos em línguas diferentes, independente da quantidade de páginas e da sofisticação de linguagem
Quase terminada a reorganização da minha biblioteca doméstica. Depois da rinite, da crise alérgica, da tosse, da afonia, corpo cansado, pernas doloridas do sobe e desce da escada, minha história com as palavras encadernadas e escritas por outros em diferentes épocas está praticamente reestruturada. Depois de descer todos os livros das prateleiras a fim de esvaziar o cômodo e renovar as paredes, chegou a hora de novamente devolver minhas mil e muitas preciosidades aos seus lugares, temporariamente acondicionadas em caixas depositadas na sala e empoeiradas pelas atividades de um cotidiano temporariamente não rotineiro. Tão logo me vejo perdida e desesperançada de um dia terminar a tarefa, tomo algumas decisões. Primeira, nunca mais compro um livro na minha vida; segunda, vou usar o critério de ordem alfabética para separá-los nesse momento e terceira, vou colar no chão pequenos papéis com as letras do alfabeto completo pra ajudar na seleção. Atrás da letra A vou colocando os Arnaldo Jabor, as Adélia Prado; da letra B, todos os autores nacionais e estrangeiros que têm primeiro nome começados por essa letra e assim sucessivamente. Um impasse: alguns como Hemingway, são mais conhecidos pelo sobrenome que pelo nome de batismo. Considero o estorvo uma armadilha para me atrasar e decido me manter ortodoxa na catalogação: só vale o nome e pronto. Daí pra frente foi só alegria. Num dado momento, concluo infantilmente: todos esses livros esparramados no chão, embora escritos em línguas diferentes, independente da quantidade de páginas e da sofisticação de linguagem e produção, foram concebidos com a utilização de vinte e seis letras. Considerados bons ou maus, profundos ou superficiais por outros critérios, basicamente têm a mesma origem, bastante simples, aliás. Alguns desses livros foram usados para inocentar ou incriminar pessoas – a Bíblia: quantos morreram ou mataram por ela? Alguns receberam prêmios milionários de reconhecimento porém foram muito pouco lidos. Outros, quase fizeram milionário (e herói) aquele que se tornasse assassino de seu autor – Versos Satânicos, de Salman Rushdie. E os `azarão`? Ninguém dá vintém e eis que atingem a parada dos maiorais – O Código da Vinci, de Dan Brown (seu primeiro livro, Anjos e Demônios, só fez sucesso na esteira do outro). Surpresas com relação aos livros e com relação à proprietária. Descubro, por exemplo, que estou fascinada por Rosa Montero - a jornalista espanhola autora de, entre outros, Um Rei Transparente, Paixões e A Louca da Casa. Que, pela quantidade de livros colecionados ao longo do tempo, sou fã de Clarice Lispector; que Carl Sagan me intriga e me faz questionar sobre religião e religiosidade; que já gostei mais da Isabel Allende; que Ruy Castro me faz bater o coração com as biografias e biografados e que Cony tem prateleira cativa. Dentre as revelações mais constrangedoras, permito-me confessar: gosto (muito) de poesias - logo eu, tão dura de coração... E, finalmente, diametralmente oposta ao prazer pela poesia, desenvolve-se a antipatia a Paulo Coelho, embora inveje profundamente sua conta bancária e sua casa na Suíça. Consegui pegar nas mãos, pela primeira vez sem ódio, o livro que a professora me deu como consolação no lugar do primeiro prêmio em Língua Portuguesa, quando eu concluía o curso primário. Ela `teve` que dar o primeiro lugar à filha da professora que se formava comigo, justificou, embora `reconhecesse que eu era melhor que a outra menina`. Ainda não sei se as reações físicas - que ainda me afligem - foram causadas pelos fantasmas que libertei ao desprender os livros dos seus antigos lugares cativos ou pela poeira do tempo assentada neles. Ainda não sei se consegui uma catalogação tão eficiente quanto a esperada. Ainda não avaliei a qualidade visual do meu trabalho. Mas resgatei bons momentos de vida cada vez que lia as datas grafadas na primeira página sob a firma, aquela que define a posse do objeto. Identificar o local da leitura, da aquisição, transcrições ou impressões que me causaram e registrei, me fizeram viajar no tempo e me emocionar. Êta coração bom que tenho, meu! <b>IRRESPONSABILIDADE? </b> Manhã de sábado, venho pelas ruas da cidade, paro no semáforo, um rapaz bate no vidro, pede `ajuda financeira, qualquer quantia, para prestar vestibular`. Digo que não tenho, ele agradece, sigo em frente, pensando no assunto. Faço o contorno, torno a parar noutro semáforo, uma moça aparece na janela, eufórica e contente, repete o pedido. Aí pergunto para ela, no mesmo tom de alegria: você votou para presidente? Ela responde `Sim!`. Em quem? Pergunto. Ela responde, inspirando contentamento: `Lula, claro!". Aí eu finalizo, sorrindo: `Então pede o dinheiro pra ele. Tudo que a sociedade pagou de impostos está com ele e com seus amigos". A moça, indignada, saiu gritando qualquer coisa, acusando-me de `não ter responsabilidade social`. <b>ÓTICA</b> `O frio pode ser quente, o pouco pode ser muito..., depende do jeito que a gente vê`. Contam-me que Lula foi considerado - sem revelarem a fonte da pesquisa - o mais popular líder político do mundo. Não me surpreende: ele não para aqui no Brasil. Promove-se fazendo estardalhaço em todos os lugares onde chega, naquele avião mais caro que o Air Force One e avisando com tamborins e cuícas, só faltando a Ivete Sangalo gritar junto: `Olha o Lulinha aí, gente...` <b>DÚVIDA</b> `Pequena mosca, com minha mão bruta, cortei teu jogo vão. Não serei, mosca, um igual teu? Ou não és tu homem, como eu? Pois amo a dança, canções, bebida, até que a mão cega me corta a vida". William Blake, Songs of experience, `The fly`, estrofes 1-3 (1795). <b>LARANJAS</b> Quando fizer uma feijoada, coloque uma laranja - inteira e sem descascar - na panela junto com as carnes para cozinhar. Depois de um tempo a gordura ficará dentro dela! Não acredita? Experimente: fure uma linguiça com garfo, coloque-a para cozinhar junto com a laranja numa panela com água fervendo, espere cinco minutos e comprove. (Pode fritá-la, depois). E ia esquecendo de avisar: só dá certo com laranja fruta. Somente laranjas frutas podem ser assim usadas de forma digna e decente! <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

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