Depois da tragédia, as famílias dos catadores de material reciclável assassinados na última sexta-feira enfrentaram ontem um novo drama: a dificuldade para enterrar os mortos.
Os obstáculos começaram pela identificação do casal. Apesar de conhecidos na vizinhança, “Quinca” (Joaquim Correia, 52) e “Bigail” (Abadia Policarpo, 62) não tinham documentos e estavam há muito tempo afastados de familiares. O segundo problema foi a falta de recursos. Sem dinheiro para vir a Franca ou providenciar o enterro de Abadia, o filho da catadora, Valdecir Gomes Braga, 42, contou com a ajuda de amigos e da Funerária São Francisco para evitar que a mãe fosse sepultada como indigente.
“Moro em São Paulo e não tenho como ir a Franca, mas tenho que dar um sepultamento digno para minha mãe. No fim do ano, a procurei por toda a cidade. Estávamos afastados há cinco anos. Ela era uma pessoa doente... Nem um animal merece morrer daquela forma”, disse o filho de Abadia. Ela foi enterrada no fim da tarde de ontem no Cemitério Santo Agostinho.
Lucimar José de Oliveira, da Funerária São Francisco, afirma que em casos como o de Abadia, quando fica comprovada a falta de recursos da família, a funerária de plantão faz o sepultamento sem nenhuma cobrança. “Somos em seis funerárias em Franca que se alternam em um sistema de plantão. A funerária responsável por aquela semana tem que atender casos como o de Abadia”, disse ele, complementando que o valor de um “sepultamento padrão” em Franca gira em torno de R$ 3 mil.
O corpo de Joaquim, que tinha convênio funerário, foi sepultado na manhã de ontem no cemitério municipal de Restinga.
<b>DIA-A-DIA</b>
“Eles eram boas pessoas. Tinham problemas e precisavam de ajuda, mas não faziam mal a ninguém”. Assim, os moradores do Jardim Brasilândia lamentaram o assassinato do casal na madrugada da última sexta-feira.
Apesar das boas impressões, os vizinhos pareciam saber pouco sobre a origem do casal. “Eles moram aqui há cerca de um ano e meio. ‘Quinca’ era um homem trabalhador. Saía pela manhã para catar recicláveis e voltava no fim da tarde. Bigail passava o dia sentada na calçada, às vezes tomava bebidas alcoólicas e mexia com o pessoal. O problema ali provavelmente era o alcoolismo”, observou um morador.
Mesmo o departamento de Assistência Social de Franca, que os atendeu há algum tempo, não tinha informações concretas. “Tudo o que sabemos nos foi dito por vizinho. Nenhum deles tinha documentos. Tentamos ajudá-los no início do ano, principalmente Abadia, mas ela não aceitou. Já estava muito debilitada. Mal se entendia o que dizia”, disse Maria Inês Coimbra, coordenadora do Creas (Centro de Referência Especializada de Assistência Social).
Segundo Maria Inês, Abadia era de Delfinópolis (MG) e viveu algum tempo como moradora de rua. Há um ano, conheceu Joaquim que a abrigou no cômodo de apenas cinco metros quadrados na Rua Macapá.
O catador, por sua vez, havia deixado a cidade de Restinga, onde morava, há cerca de um ano e meio. “Ele era uma pessoa difícil. Ninguém sabia exatamente onde ele estava”, disse a irmã do catador, que preferiu não ser identificada.
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