A tristeza é a dor da alma. Fatos acontecem que nos deixam tristes. A nossa sensibilidade capta tanto o que traz tristeza quanto o que é alegre. Momentos felizes precisam ser aproveitados ao máximo, degustados. A gente muitas vezes nem se dá conta de que em certas ocasiões estão presentes todos os motivos para alegrar-se, mas não desfruta. Às vezes é inevitável a tristeza, mas é preciso libertar-se, desvencilhar-se, deixar para trás e tocar a vida.
A tristeza é insinuante, persuasiva, atrevida, audaz. Um vacilo nosso e ela toma conta. Há fatos que em princípio deveriam causar tristeza, mas no fundo não justificam esse sentimento, pois na verdade são oportunidades que se abrem. Locais ou situações podem ser alegres ou não, e isso depende, em grande parte, da gente. Temos de aprender a lidar melhor com as coisas que conduzem à tristeza, agir de forma que ela não encontre em nós terreno propício para crescer e fortalecer; não devemos alimentá-la.
Imagino uma conversa com a tristeza. Sentado à mesa, tenho ao meu lado uma cadeira vazia, vem a tristeza e, matreira, diz que veio me fazer companhia. Franzo a testa, ergo o sobrecenho e respondo que já a conheço, mas não era bem o que eu queria; agradeço e peço que volte outra hora, quem sabe outro dia, pois hoje venho em busca de alegria.
Ela, porém, retruca que não é assim; que, embora indesejada, me acompanha mais tempo do que suponho, mesmo quando nem ela está a fim. E defende-se: `Sem mim o que seriam das artes? Sou inspiração. Estou na melodia que você ouve, no filme a que você assiste, no livro que você lê. O blues de que você tanto gosta nasceu de mim, os escravos afroamericanos criaram-no para embalar suas longas e sofridas jornadas de trabalho na colheita de algodão, no sul dos Estados Unidos, para expressar seus sofrimentos, angústias, tristezas. Sou tempero.
Quem me conhece a fundo pode aprender a maneira certa de ver o mundo, a sentir alegria com as coisas simples. Sou parte do cenário. Faço par com a beleza, com o amor. `Te amo tanto que até dói`, não é o que dizem os amantes?`.
É para pensar. Canta Cazuza: `A emoção acabou/ que coincidência é o amor!/ a nossa música nunca mais tocou!` (Codinome beija-flor) e `será que você ainda pensa em mim?` (Quase um segundo). Que tal Maninha, de Chico Buarque? `Se lembra do jardim, ô maninha, coberto de flor/ pois hoje só dá erva daninha no chão que ele pisou`. Músicas de grande beleza, mas que transbordam tristeza.
Beethoven compôs peças sublimes para violino e piano, que soam melancólicas. A valsa Desde El Alma, com Fito Paez, me extasia. `Alma, si tanto te han herido, / ¿por qué te niegas al olvido? / ¿Por qué prefieres llorar lo que has perdido, / buscar lo que has querido, / llamar lo que murió? / Vives inútilmente triste / y sé que nunca mereciste / pagar con pena / la culpa de ser buena, / tan buena como fuiste por amor...` (letra: Victor Piuma Velez e Homero Manzi; música: Rosita Melo). Preciso dizer o quanto é triste?
Mas a tristeza que inspira os artistas, em vez de contagiar, deve elevar o estado de espírito de quem aprecia suas obras. Se a tristeza bater-lhe à porta, não dê bobeira, diga que volte outro dia, que hoje, queira ou não queira, terá de andar por outra freguesia. Se tiver de ficar com ela por algum tempo, leve-a em banho-maria, com a água de morna para fria, use-a como inspiração para alguma poesia e depois a mande embora, pois você não lhe pode servir de eterna moradia.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça, autor do livro Pensando na Vida - paulopereiracosta@uol.com.br
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