Economicamente, eles estão entre os 5% - ou até em um percentual menor - mais abastados da população. Quando podem, transitam pelo ar. Se não podem, usam máquinas sobre quatro rodas cujo preço raramente começa com menos de três dígitos. Dentro desse seleto grupo há outro, ainda mais fechado, ao qual fui apresentado numa bela tarde ensolarada de sábado em Franca: o de jogadores de polo.
São pessoas que decidiram participar de um dos esportes mais caros do mundo e, para isso, investiram R$ 200 mil, R$ 250 mil em cavalos - oito ou nove para começar. Mais um caminhão para transportar a pequena tropa. Mais tratadores. Mais equipamentos específicos. Mais fazenda, veterinário, ração.
Então, bem-vindo ao polo. Esse peculiar universo onde não basta apenas parecer que se tem dinheiro. É preciso ter mesmo. E muito. Convicção reforçada com a chegada de Ricardinho Junqueira, fazendeiro de Orlândia, que desce de helicóptero no meio do campo, para ver o filho jogador.
Por mais que os praticantes, organizadores de torneios e dirigentes tentem evitar que a imagem do esporte seja vinculada à elite, a verdade é só uma: não há espaço para remediados. Tudo é muito caro e, desde a sua origem, montar aqueles cavalos gigantes é, sim, uma prática esportiva para poucos.
O encontro no clube francano tem a aparência de uma reunião de amigos. Assim, mesmo que você tenha meia dúzia de pangarés, nem pense em chegar e querer se associar porque a coisa não funciona dessa forma. Em sua maioria são empresários e profissionais liberais.
Uma equipe de polo é algo que passa de pai para filho, de avô para neto. Não se trata de herdar o chevetinho do sogro, mas ter cacife para bancar a participação em dois ou três torneios por ano, que consomem milhares de reais, fora as despesas fixas para manter o time formado.
Para quem caiu de para-quedas, como eu, é impossível não notar algumas cenas, como o estande com vários carros top de linha de uma marca japonesa, prontos para um test-drive, e o café chique do Centro que levou sua filial exclusivamente para os jogos em Franca. Mas o que espanta é a grande quantidade de cavalos, todos da raça puro-sangue inglês (PSI), aguardando na entrada do clube a vez de entrar em campo. Seguramente havia mais de 60, todos invejosamente bem cuidados. Do lado de fora, quatro caminhões aguardavam o final dos jogos para carregar os bichos de volta.
A preferência pelo PSI é explicada pela robustez, resistência pulmonar e por não refugar nas disputas mais acirradas, características desejáveis para um cavalo de polo.
Assim como no futebol, os preços de cada animal dependem do nível de competição que disputam. Para uma terceira divisão, como o torneio de Franca, os cavalos chegam a ser negociados entre R$ 15 e R$ 25 mil cada um, segundo Carlos Fernando de Andrade Jacinto, o ‘Fata’, presidente do pólo clube local. Se a comparação for com a elite, os preços evidentemente disparam. Em Indaiatuba, cidade onde são realizadas as principais competições do País, os valores são multiplicados por 10, e os cavalos por lá chegam fácil à casa dos R$ 200 mil.
Os animais, aliás, respondem por 90% do jogo, a ponto de os mais treinados - aí é que entram os peões, domadores e treinadores que acompanham os times - realizarem jogadas e correrem sozinhos atrás das bolinhas de madeira. Bolinhas que agora já são fabricadas no Brasil, ao contrário dos tacos, feitos de uma espécie de cana encontrada na Índia e no Paquistão, apenas.
Custam perto de US$ 100 (R$ 220) cada um, preços dos mais baratos. E a exemplo dos jogadores de golfe, os de pólo também possuem vários à disposição. “Quebram muito fácil”, diz o presidente do clube de Franca.
Voltando aos cavalos, nada de nomes pomposos como nas provas de turfe, mas apelidos mais prosaicos como Santa Rita, Iris, Major, Rock Balboa. Hoje disputam no máximo dois dos seis tempos de sete minutos que duram uma partida. Mas nem sempre foi assim. Ter consciência dos limites do animal é coisa nova no esporte. Quando deixam o campo, saem exauridos, bufando de tanto correr.
Sob o sol das 13 horas, tanto esforço é para nada, porque na hora de gritar o nome, o que se ouve é o do dono, não do animal. Injustiça. Como não entendia nada de nada, resolvi perguntar a uma moça porque ela estava tão nervosa assistindo às jogadas. A cada jogada do marido, ela pulava, gesticulava e passava a mão na cabeça. Devidamente vestida para a ocasião, com calça, bota e camisa pólo, Mariana Junqueira Jardim, que já arriscou algumas disputas, recuou da pretensão “porque o jogo requer muita força”.
Tendo pai e irmão como jogadores, a moça, grávida de dois meses, arrastou o marido, médico, ex-praticante de equitação, para o esporte. “Você deve conhecê-lo. É de uma família tradicional aqui de Franca”, disse ela, interrompendo a conversa para falar com Daniel, o marido, à beira do campo, durante a troca de cavalo.
Mariana estava vibrante com as jogadas de Daniel, mas esse comportamento era mais contido entre as outras mulheres, que preferiam ficar ‘tricotando’ no café ou na pequena arquibancada coberta vestindo suas botas de cano longo.
A bem da verdade, há um certo uniforme que aproxima os que assistem e os que jogam. Com algumas variações, camiseta pólo Lacoste é quase unanimidade, entre trajes casuais e um certo rural-chic. Vale de outras grifes também. Fora isso são os bonés, óculos escuros (quanto maior, melhor), calças apertadas e uma postura comedida nos cumprimentos, do modo de andar e de falar.
Parece que há um refinamento típico por todos os cantos: andam com as mãos nos bolsos, falam com a mão no queixo, cumprimentam-se com um beijinho e sempre querem saber como vão os membros da família, perguntando pelo nome.
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É a indumentária que, aliás, denuncia que algumas pessoas ali presentes não fazem parte da turma. Gente como o comerciante Nilton Octy, 36, e o metalúrgico Carlos Henrique Gomes, 22, que miravam a égua Santa Rita, branca, monumental. Eles estavam ali a passeio, por curiosidade. Enquanto se deslumbravam com os belos animais, ouviram explicações do tratador dos cavalos e de quanto a brincadeira custa. Diante dos números, um dele disparou: “Rapaz, isso aqui não é para mim, não”, no que o outro concordou.
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