Teste sua memória. Quem era o presidente da República há 20 anos? Não sabe. Era de se esperar. Hoje, quase ninguém se atém a acontecimentos políticos da época ou mesmo do passado recente. E é uma pena! Esta falta de acompanhamento da vida administrativa pública só serve mesmo para facilitar o desempenho secreto deles, os donos do poder.
Há exatamente duas décadas, comemoraram-se os 200 anos da Revolução Francesa. O país inspirador de liberdade em várias outras nações convidou autoridades do mundo todo para prestigiar as festividades. Em vista disso, o então presidente da República, José Sarney, voou para Paris com mais 149 convidados a bordo.
Todos muito ciosos do valor cultural e democrático da comemoração.
Só não contavam com o enxerimento dos jornalistas. Classe muito impatriótica, que vê maldade em tudo. Além do mais, deita falação pelo simples fato de um digno presidente da República viajar com uma comitiva para representar o Brasil lá na França.
Como se vê, os atos secretos são antigos e não são exclusivos do Senado. O Executivo também já os usava antes. Após a viagem, Sarney convocou cadeia de rádio e tevê para se defender. Jogou a culpa de tudo que acontece no Brasil para cima da imprensa. Se o governante não faz, falam. Se faz, falam mais ainda. Se não fosse convidado para ir ao bicentenário da Revolução Francesa, alardeariam a falta de prestígio do governo brasileiro. Como foi, noticiou-se o gasto com a culta comitiva interessadíssima na efeméride francesa.
Apesar de déspota, Napoleão Bonaparte (o imperador francês que fez D. João VI fugir de Portugal para o Brasil) acertou em cheio ao afirmar: `Tenho mais medo de um jornal que de cem mil baionetas`. Sarney e os 149 apaniguados que o acompanharam à França sentiram na pele a força da imprensa. O quarto poder exerceu sua função fiscalizadora a contento.
Para refrescar a mente, ainda em 1989, os presidenciáveis Collor e Lula atacaram o presidente da República durante um debate político na TV. O ex-sindicalista profissional disse que Sarney não fez reforma agrária no Brasil, porque era grileiro no Maranhão, ou seja, tinha se apossado de terras mediante falsas escrituras de propriedade. Isso não é ficção! É história. Aconteceu. Está registrado.
Agora, em 2009, na almejada presidência da República pela segunda vez, Luiz Inácio Lula da Silva, falando lá da longínqua Astana, capital do Cazaquistão, antes de embarcar no seu avião oficial (quantos seriam seus acompanhantes, que, de quebra, passaram antes pela Suíça e Rússia?) de volta à Pátria amada saiu em defesa de Sarney, ao dizer: `Ele tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum`.
E que história! Quanto mais, se incluir nela a recente, sempre registrada pela ácida imprensa. Mesmo sentindo azia quando lê jornal, Lula também disse, em Astana: `Eu fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque não tem fim e depois não acontece nada`. A culpa recai na mídia impressa. Um dia (quem sabe?), o povo aprende a ler e a agir. Aí então acontecerá alguma coisa!
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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