“Vai passar. Esqueça isso!”. A lavradora Eliana de Fátima Faria Barbosa, 50, diz não saber quantas vezes ouviu frases como essa.
Há 11 dias, sua filha Lucelena Barbosa, 17, sumiu de casa no Jardim Paulistano II e desde então a família não teve notícias. “Não adianta é amor de mãe. Só Deus sabe”, lamenta a lavradora. Dona Eliana conta que chegou em casa no último dia 10 e a filha já não estava lá. “Esperei, mas ela não voltou. Estou desesperada. Ela estava dormindo quando saí para trabalhar.
Passei no quarto dela como fazia sempre e disse `Filha, fique com Deus. A mãe já vai...` Tão bonita...’”, disse. O choro é contido.
A frase de outra mãe dá dimensão a esta tragédia. “A gente pensa que as primeiras semanas são as piores, mas o tempo não acaba com o sofrimento”, declara a dona de casa Teresa Cristina Fernandes Alves, 47, mãe de David. O rapaz desapareceu no Leporace em março de 2004, aos 14 anos. “Na passagem de ano, parece que cada estouro de um foguete daqueles é um tiro no meu coração. Eles me dizem que mais um ano acabou sem que eu tivesse notícias do meu filho... A ausência dele dói um absurdo, mas a falta de notícias é ainda pior”, disse Teresa.
Emocionada, ela conta que poucas semanas depois do sumiço do filho, recebeu a informação de que David estaria no City Petrópolis e procurou “dia e noite, rua por rua. E nada”. Foi a primeira de uma série de frustrações. “Não interessa se meu coração me diz que não vai dar certo. Largo tudo e vou atrás. Não posso conviver com a dúvida, achando que deveria ter ido porque poderia ser ele. Mesmo quando a notícia é ruim....”, disse Teresa.
Dramas como o vivido por estas mulheres são compartilhados por pelo menos 18 famílias francanas que, desde o começo do ano. E esse número pode ser bem maior. De acordo com a polícia, não há como precisar o total de casos sem solução acumulados nos últimos anos. São pessoas que deixaram suas casas para fazer coisas corriqueiras, como ir à escola ou passear, e não retornaram mais.
Um levantamento feito pelo Comércio junto à Polícia Civil de Franca revelou que, somente entre janeiro e maio de 2009, 73 desaparecimentos foram registrados na cidade. 55 acabaram solucionados. Desses, a maioria das vítimas foi encontrada nas 24 horas seguintes ao registro da ocorrência. Os outros 18 permanecem sem explicação (Conheça abaixo histórias algumas destas histórias).
DIFICULDADES
A polícia reconhece que, com o passar dos dias, a investigação tem menos chances de ser bem-sucedida. “Nas primeiras 48 horas damos suporte à procura, mas não temos uma equipe, um setor ou uma delegacia dedicada a investigar as ocorrências de desaparecimento. Apenas na capital há um banco de dados em uma delegacia especializada na busca de pessoas desaparecidas. Lá, as informações são armazenadas e fotos das pessoas são enviadas para outros Estados, em um trabalho integrado”, disse o delegado da DIG (Delegacia de Investigações Gerais de Franca), Márcio Murari.
Entre as causas mais comuns para os desaparecimentos estão o alcoolismo, problemas mentais, com drogas e de relacionamento com a própria família. “Na maioria das vezes, no entanto, os familiares não têm ideia do que poderia ter motivado o desaparecimento. Isso dificulta muito o trabalho da polícia”, afirmou Murari.
SERVIÇOS
Qualquer informação sobre o paradeiro de pessoas desaparecidas pode ser feita anonimamente pelos telefoes 197 e 190
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