No Congresso com Ubiali


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Um total de 84.175 eleitores o escolheu. E ele tem se esforçado para corresponder. Atuando há quase dois anos e meio em Brasília, o deputado federal Marco Aurélio Ubiali (PSB) - que começou com algumas gafes no início de mandato - mostra bom desempenho. Superado o episódio que tanto desagradou aos francanos - o de sua mudança para Ribeirão Preto pouco depois de eleito - o deputado trabalha em prol da cidade, da região e busca valorizar a atuação do Congresso no que diz respeito às causas nacionais. A reportagem do Comércio esteve em Brasília no começo de abril e acompanhou por dois dias a rotina do deputado. Na capital do Brasil, a aproximadamente 600 quilômetros de Franca, foi possível constatar que o deputado está empenhado em resolver pequenas demandas daqueles que o procuram, mas também muito interessado em fazer a política de vulto nacional. Durante a permanência no Congresso a reportagem observou que Ubiali - um dos quatro deputados fede rais eleitos por seu partido - circula bem no ambiente político. Ele é bastante conhecido entre seus pares, se mostra muito inquieto e é acionado com frequência. Tanto que a entrevista (abaixo) foi feita em capítulos - ora nos corredores da Câmara, ora em seu gabinete, e ele em mais de uma ocasião interrompeu a conversa para atender a um chamado do partido ou receber alguém que chegava ou ligava para o gabinete. O gabinete, por sinal, é um dos mais movimentados dos quase cem existentes no corredor do Anexo 3, onde está localizado. Cerca de 70 pessoas passam ali por semana, entre populares, prefeitos, vereadores, diretores de escolas, juízes... No dia em que a reportagem entrevistava Ubiali, por e xemplo, estava no gabinete o rei tor da Unifran, Abib Salim Cury. Ainda não havia grandes novidades sobre a eventual instalação de uma Faculdade de Medicina na universidade local, mas Ubiali disse que não perde o assunto de vista. “A proposta foi avaliada pelo Ministério da Educação, agora precisa de autorização do Conselho Nacional de Saúde, cujo prazo para se manifestar já expirou. Tive uma reunião com a secretária-executiva do CNS, Rosângela Camapum, e ela me informou que até julho será analisado o pedido”, disse o deputado. No tocante à sua produção parlamentar, o deputado está satisfeito. Apresentou, ao longo dos últimos dois anos, 41 projetos nas mais diferentes áreas (educação, habitação, economia, direito, inclusão social, trânsito, meio ambiente, saúde, esporte, segurança). Desses, considera mais importante o que obriga os presídios a terem escolas, para que os presos estudem, desde o ensino básico ao Superior (a distância) e que eles trabalhem. O deputado, que é o 11º colocado entre os 513 parlamentares com mais projetos apresentados, é também membro da Comissão de Educação e Cultura (CEC) e 1º vice-presidente da Comissão de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (CDEIC). Ubiali fica em Brasília, normalmente, entre segunda e quinta-feira. Nos dias em que não há sessão nem compromissos no Congresso, retorna a Ribeirão para ver a família e visitar as bases. Também aproveita para conversar com prefeitos da região, tentando assimilar seus problemas e buscar soluções. Confira em entrevista nesta página quais são as demandas mais comuns que chegam ao gabinete do deputado, os seus planos (que incluem uma nova candidatura, caso seja de interesse do partido), as maiores conquistas, dificuldades e seu entendimento sobre o que é a missão de um deputado. <B>Comércio da Franca</B> - Quais os principais pedidos e/ou cobranças feitas por autoridades das cidades da região? <B>Ubiali</B> - O maior pedido é sempre verba. Eles sempre acham que o deputado está aqui para conseguir verba e eu tenho conseguido. Mandei, nesse período todo, cerca de 20 milhões em emendas. Além disso, tenho buscado atuar no governo do Estado, junto a universidades estaduais, a segmentos e tentar com que haja uma mudança no pensamento de muitos políticos, no sentido que a função do deputado aqui em Brasília é fazer com que problemas sejam resolvidos em todo o Brasil e não pontualmente, sem deixar que sejam resolvidas as demandas populares, de nossa região. <B>Comércio</B> - E o pedido mais comum feito pelos populares, quais são? <B>Ubiali</B> - Emprego, que eu não consigo resolver. Eu até peço onde tenho conhecimento, mas não há essa conscientização de apoio político ao deputado. Entra na fila como entraria normalmente, não tem preferência. E o outro pedido é o da bolsa de estudo que eu, infelizmente, não consigo atender. <B>Comércio</B> - Além da apresentação de projetos e participação nas sessões, que outra atuação parlamentar considera relevante? <B>Ubiali</B> - Além do chamado varejo, em que o deputado passa a ser quase como um vereador, resolvendo problemas pessoais de várias pessoas, empresas ou segmentos, acho que a grande atuação é fazer parte dos grandes debates nacionais. Fiz parte de várias comissões, acompanhei CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito), como a do Apagão Aéreo e a das Escutas Telefônicas, e tive várias audiências com autoridades, como o presidente da Petrobras, presidente da Vale e pessoas importantes do setor de economia, discutindo a crise, como presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ministro Guido Mantega. Outro momento muito importante foi a atuação na Frente Parlamentar do setor moveleiro e calçadista, da qual eu sou coordenador. <B>Comércio</B> - Qual foi o momento mais gratificante desde quando assumiu? <B>Ubiali</B> - Foi quando nós - parlamentares - conseguimos incluir as creches e as Apaes no Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). Assim, elas poderão receber recursos do Fundo. O outro foi quando inserimos na Medida Provisória (MP 445) uma emenda que permite a negociação dos mutuários do Parque do Horto (em Franca). <B>Comércio</B> - E o momento mais difícil? <B>Ubiali</B> - Quando eu sou procurado por pessoas da cidade com problemas pontuais, como os referidos pedidos de bolsa de estudos e que eu peço e não sou atendido. Isso me traz certo constrangimento e uma grande dificuldade. Eu gosto muito de discutir problemas nacionais, de buscar resolver problemas estruturais do País. Porém, esses problemas pontuais que eu não consigo atender me trazem muito mais desgosto. <B>Comércio</B> - De qual conquista pessoal o deputado tem mais orgulho? <B>Ubiali</B> - Além de ser médico, como deputado foi ter sido eleito e poder representar toda uma região, um povo. Temos 180 milhões de habitantes e temos 513 deputados e eu sou um deles. São poucas pessoas que têm a oportunidade de servir à nação, de ser um representante do povo dessa forma. <B>Comércio</B> - E o que é preciso para ser um “representante do povo”? <B>Ubiali</B> - Abnegação, porque você tem uma vida pública, mas também tem uma vida pessoal. É muito difícil. Hoje para ser político não é aquela pessoa que quer trabalhar 8 horas, bater cartão, que quer ganhar salário fixo. Muitos profissionais ganham muito mais que um deputado. Empresários ganham mais que um parlamentar, médicos ganham igual ou muito mais. Ser político é uma opção, tem de querer muito. Primeiro porque não paga melhor. Segundo, que, ao ser eleito, antes de fazer qualquer coisa, você já tem pessoas que são contra você. <B>Comércio</B> - Como assim? <B>Ubiali</B> - Por exemplo, mesmo antes da minha posse, a Câmara de Ribeirão Preto fez uma moção de repúdio à minha eleição. Eu não poderia ter feito nada, uma vez que eu só tinha ganhado a eleição. As pessoas se posicionam a favor ou contra você. Os que são a favor correspondem a uns 20%, mas eles são quietos, os que são contra representam 5% e são muito barulhentos, parecem uma multidão. E ainda temos 80% da população que não está nem aí. Essa grande parcela não percebe que a política é importante na vida dela. Não percebe que sem a política nada existe. Política é como água e luz, as pessoas só percebem sua importância quando não têm. <B>Comércio</B> - O que é preciso para mudar este comportamento? <B>Ubiali</B> - É preciso que haja uma boa educação. Educação de qualidade pressupõe políticos de qualidade. Há falta de interesse, as pessoas não sabem como funcionam e quais as funções de um deputado federal ou estadual, por exemplo. A gente tem se esforçado e tem feito muita coisa, mas não temos certeza de que estamos fazendo a coisa certa porque o homem precisa de elogio, de ser reconhecido no seu trabalho para estimular ainda mais e continuar trabalhando para o bem do povo. <B>Comércio</B> - Sua família consegue acompanhar seu desempenho parlamentar? Cobra atuações? Sugere? Critica? <B>Ubiali</B> - A família é um grupo grande, tenho algumas pessoas que têm uma participação efetiva. A Arlete Ubiali, minha irmã, é uma antena captadora de demandas da cidade da região, como é também uma pessoa que transmite os resultados do meu mandato parlamentar. Tem o meu irmão, o Carlos Ubiali, Carlinhos, que hoje atua como secretário adjunto do desenvolvimento da cidade. Ele tem muitas sugestões e ações, além de captar as demandas. Meu filho, Guilherme Ubiali, é um menino formado em Administração pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), que tem uma capacidade intelectual muito grande e uma visão de justiça, pensa o Brasil como um todo, o que é extremamente importante, possui uma grande seriedade até pela idade [22 anos]. Ele tem na sua índole esses princípios de justiça e honestidade, o que provavelmente o tornarão um homem público. A minha esposa, Maria Eugência Ubiali, e minha filha Júlia Ubiali se sentem um pouco incomodadas com a vida pública, até mesmo porque as pessoas misturam o que é da vida pública e de vida pessoal. Elas veem meu esforço em prestar serviço para a comunidade, em atender bem as pessoas, e certas vezes elas acham que isso não tem o reconhecimento que elas julgam necessário. <B>Comércio</B> - O senhor acha que a população não reconhece seu trabalho? <B>Ubiali</B> - As pessoas com que tenho contato reconhecem e dizem que meu trabalho está bom. Mas é sabido que no Brasil os políticos, por serem políticos, já levam a pecha de ser desonestos, que não fazem nada, que não estão trabalhando. O que não é verdade, no meu caso. Estou trabalhando muito e faço tudo dentro do mais estrito senso crítico de honestidade, e infelizmente eu não posso mudar tudo. No Brasil, as mães querem que os filhos sejam presidentes e não querem que eles sejam políticos, mas para ser presidente, precisa ser político. <B>Comércio</B> - Qual a maior diferença que observa na sua atuação entre o primeiro ano de mandato e o período atual? Que diferença fez a experiência? <B>Ubiali</B> - A experiência fez muita diferença. No primeiro mandato eu não conhecia o funcionamento da Casa. No segundo ano, comecei a conhecer melhor e já consegui muito mais. Como referência, no primeiro ano eu consegui mandar R$ 3 milhões pra Franca; no segundo, R$10 milhões. Já neste ano, vamos passar isso para 14 milhões, mesmo com a crise mundial. Porém no primeiro não de mandato, consegui algo inédito, ser vice-líder do bloco, e mantive este cargo por três anos. Agora, em 2009, acrescentei um cargo, a primeira vice-presidência da CDEIC, que é o segundo cargo mais importante das Comissões. <B>Comércio</B> - Pretende se recandidatar no ano que vem? <B>Ubiali</B> - Se for vontade do meu partido e do povo da minha região, sim! <B>Comércio</B> - O senhor disse, em mais de uma ocasião, que o deputado tem uma missão. Que missão é essa? <B>Ubiali</B> - O Congresso Nacional é composto por duas casas, Senado Federal e Câmara dos Deputados. O Senado cuida dos interesses do Estado, a Câmara dos interesses do povo. Por menos que o povo possa perceber, é a Câmara que acaba decidindo para onde vai o nosso País. E o Brasil, nos últimos anos, tem ido para um caminho melhor. As instituições estão funcionando, as pessoas estão trabalhando, se alimentando melhor e tendo a oportunidade de estudar. Há no país um orgulho de ser brasileiro. O papel do deputado aqui (na Câmara Federal) tem sido muito confundido com papel de despachante, por exemplo, em resolver problemas pontuais, da cidade. É confundido com papel de arranjar dinheiro para as instituições e para cidade. Mas no meu entender o principal papel é você fazer uma estruturação de primeiro mundo neste País, fazer com que as pessoas tenham uma escola de qualidade, tenham metas e possam ter empregos adequados, com menos tempo de trabalho e melhor remuneração. Isso para que as pessoas possam ter mais qualidade de vida. E também para que as pessoas não tenham um desnível social tão grande. Hoje em dia, a maioria das pessoas constrói verdadeiros castelos, fortalezas, coloca cercas elétricas, muros altos, e acaba se tornando prisioneira destes castelos. Temos de abrir nossa sociedade, nosso mundo, para que ele deixe de ser tão desigual como é. Esse é o papel do deputado, propiciar ações descentralizadas para provocar a igualdade. Nós temos uma escola para todo mundo, mas que é de baixíssima qualidade. Temos saúde pra todos, mas uma saúde que não dá nem um terço do resultado que poderia dar. Existe, no Brasil, saúde de Primeiro Mundo, mas o povo não tem acesso a essa saúde de Primeiro Mundo. Esse é o papel do parlamentar, de estruturar o país, de ajudar na fiscalização e na solução dos problemas que existem.

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