Final de viagem. Na companhia de dois casais amigos encaramos uma inusitada excursão de ônibus: pouquíssimas, no nosso currículo de tropeiros viajantes. E tinha sido ótima: visitamos Berlim, voltamos a Viena, eles conheceram Praga e todos nós, um monte de cidades durante o trajeto entre uma e outra.
Com Budapeste encerrávamos a viagem com chave de ouro. Os amigos haviam ido para Paris, eu e meu marido decidimos prolongar a estadia. No dia seguinte voaríamos para Londres. Budapeste, na verdade, são duas numa só - Buda e Peste. Cidade em tudo diferente: além de derramar pelos olhos da gente a beleza das manifestações art-déco da sua arquitetura, nos deixa apaixonados por suas pontes, praças, construções, traçado das ruas, comércio vivo e até por ter sido palco do romance de amor entre Sissi e o Conde Andrassy. Ainda por cima é cheia de termas! Mais alguns anos, quando os efeitos devastadores da péssima administração comunista forem anulados, ela terá sido recuperada e será reconhecida como uma das mais belas e desenvolvidas cidades do leste europeu. Mais bonita que Praga, na minha opinião.
Na noite da despedida depois de arrumarmos as malas, descemos para um banho nas termas do hotel. Pusemos os roupões, fomos até o balcão de atendimento do andar onde ficavam as piscinas de águas absurdamente quentes. Massagens, depois as piscinas, pedimos. Ok. Que tipo de massagem? Meu marido escolheu a tradicional e eu, muito bocuda, pedi outra, tipo `uma pessoa que me pegasse pelos braços, outra pelos pés, e aí as duas me esticassem e torcessem`. A atendente levou a sério. Fui encaminhada a um cubículo meio escuro, cheio de incensos, velas e plantas, musiquinha esquisita. Devia ter desconfiado. Uma mulher de aparência asiática apareceu do nada, por detrás das cortinas e me entregou um pacote de tecidos dobrados. Só gesticulou: era para eu vestir, entendi. Abri e apareceram uma espécie de calças largas e um roupão de lutar judô, curto. Devia ter desconfiado.
Pus a roupa, sentei-me num banquinho, entrei no clima. Já estava até com sono. Aí uma mulherzinha também morena e de olhos bem puxados, mais baixinha que eu, chegou. Juntou as mãos, abaixou a cabeça em direção à ponta dos dedos, disse alguma coisa numa língua estranha, me indicou a esteira, gentilmente me deitou de bruços, sempre falando baixinho num tom monocórdio, com a voz colocada no céu da boca, como se estivesse conversando com uma criança.
Devia ter desconfiado. Passou-me as mãos pela cabeça, pelas costas, pelas pernas, foi até meus pés e esticou meus braços ao longo do corpo. No momento seguinte, inesperadamente, eu senti como se o mundo tivesse caído sobre minhas costas. Um toque pesado: era ela em pé sobre minhas espáduas! Não deu tempo de reagir: só vi minha perna dobrar para trás e meu calcanhar direito subir até parar ao lado do meu ouvido direito, com a ajuda dela. Virei devagarinho a cabeça, lá estava ele. Não berrei porque não tive forças. Mas gemi profundamente e ouvi a mulherzinha dizer: `ôu, ôu, sóri, madam!`, bem baixinho, como se não tivesse feito nada comigo. Tentei impedir mas ela repetiu o movimento com a perna esquerda. Retesei-me, percebi que não ia dar certo e olha meu calcanhar, aqui do outro ladinho. Novos gemidos, novos `ôu, ôu, sóri, madam!`.
Meu corpo deu estalos em alturas variadas: lembrei-me de São João. Eu ali, gemendo. Tinha a impressão de que ela estava me quebrando toda. Deu nó nos meu braços atrás das costas (`ôu, ôu, sóri, madam!`). Minha cabeça girou 360 graus: eu conto, ninguém acredita. Depois de umas seis horas de tortura (meu marido jura que foram quarenta minutos), quando eu já parecia uma geleia e toda arrebentada, a mulherzinha desceu de cima das minhas costelas, tornou a fazer as mesuras e desapareceu, como convinha a uma pessoa jurada de morte.
Feito um zumbi atravessei os corredores rumo às piscinas. Entrei na água fervente, nem senti e muito menos respondi ou falei alguma coisa. Subi para o apartamento, tomei um relaxante muscular e desmaiei, talvez como defesa das risadas e caçoadas do meu marido.
<b>CONFUSÃO </b>
Festa junina brasileira tem amendoim, pipoca, saia rodada e babados, milho cozido, música de sanfona, pé-de-moleque, canjica, broa de fubá, calça curta, chapéu de palha, quentão, flor do lado, quadrilhas e quadrinhas, fogueira, batata-doce, canjica, bandeirinhas coloridas, mastro com São José, São João e São Pedro, pau-de-sebo, correio elegante, quermesse. Festa country americana tem saia de couro, Kenny Rogers, quadrilha de bate o pé, música em inglês, salsicha com molho de tomate, ketchup e mostarda. Não confundir uma coisa com outra.
<b>CONTABILIDADE</b>
Franca tem hoje lojas de quatro imensas e poderosas redes de supermercados. Vai ganhar mais uma, espetacular. Tem invejáveis salões de festas para realização de eventos que em nada ficam a dever àqueles dos grandes centros. Somos referência de atendimento hospitalar. Temos bandas, restaurantes, bares. Temos revendedoras de carros importados, lojas de sapatos que desnorteiam a cabeça de consumidores da região. Dizem, uma população estudantil que contribuiu significativamente para elevar em número (e gênero) a população de nativos. Não temos uma livraria. A única que tinha, fechou.
<b>PERÍODOS</b>
De acordo com os manuais de delicadeza social agora são três os períodos da vida humana: Infância, Juventude e Você-Está-Com-Ótima-Aparência...
<b>INAUGURAÇÃO</b>
Desde 16 de junho está inaugurado o Teatro do Núcleo de Tecnologia e Design do Couro e Calçado - Senai de Franca. Convidada para a festa, a Orquestra Sinfônica de Franca novamente se apresentou comandada pela batuta competente do maestro Nazir Bittar. Fortemente gripada, não pude ir. Fiquei em casa torcendo para que músicos e condutor estivessem na mesma sintonia da memorável apresentação quando se juntaram ao Conjunto Serestas e Cia, no Teatro Municipal. Naquele espetáculo, ouvindo as valsas dolentes do cancioneiro popular e Vivaldi (mistura fina!), sem conseguir segurar as lágrimas ... chorei de saudades.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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