Vivi uma experiência gratificante. Por ocasião do 3º Fórum de Estudos Multidisciplinares no Uni-Facef (Centro Universitário de Franca), fui convidado a apresentar palestra sobre o tema "Desafios frente a novos horizontes".
Apresentei comunicações para dois grupos diferentes de estudantes e interessados em geral. Tenho alguma prática em apresentação de palestras ou aulas específicas e posso dizer, com alguma certeza, quando o auditório está interessado e acompanha com atenção a apresentação, ou quando se trata de simples atendimento da solicitação da presença.
Nas duas ocasiões em que proferi minhas opiniões sobre os desafios que a indústria de calçados - em geral e a de Franca, especificamente - terá pela frente, e o que pode ser feito para que estes desafios sejam vencidos, o interesse dos jovens, futuros gestores das nossas indústrias, foi inegável.
E uma vez franqueada a palavra para que fossem esclarecidos pontos que não ficaram bem entendidos, foi palpável a preocupação dos futuros dirigentes sobre o futuro, não apenas da indústria de calçados de Franca, mas da cidade em si, que poderia se ver privada da sua maior fonte de empregos e de receita.
Para não criar temores infundados, esclareci à plateia que a indústria de calçados de Franca tem todas as condições favoráveis de sobrevivência, obviamente adaptada às novas condições, tanto do mercado nacional como em termos globais.
Haverá modificações profundas, sob pena de não sobreviver aos desafios, nas áreas de gestão e de comercialização. Considerando a situação presente, as duas áreas sofrem de desatualização e precisam ser adaptadas à nova realidade o quanto antes. Tentar sobreviver no terceiro milênio usando métodos do século passado é passaporte para a perdição.
Quem sobreviverá? Temos alguns exemplos clássicos que podemos buscar nos Estados Unidos, na Holanda, na Suécia, na Alemanha e na Itália, onde o nível de vida não era mais compatível para os empregos na indústria de calçados e esta se tornou pouco competitiva, embora continue próspera nos nichos específicos de alta classe.
Nunca posso esquecer a lição que me deu o John "Greek" na fábrica do Mr. Saul Katz, em Marlboro, Massachussets, onde nos anos 70 fui apreender fazer calçado a gosto dele e dos americanos. Quando criei amizade com os operários na fábrica dele, comentei que as suas fábricas pareciam asilos de velhos. Homens, na sua absoluta maioria com cabelos brancos, e senhoras com óculos na ponta do nariz, povoando os pespontos. John me pegou pelos ombros (tinha com certeza mais de dois metros), me levou à janela e me mostrou os edifícios em redor da Diamond Shoe: "Aquilo lá é a Xerox.
Atrás deles é a Polaroid. Naquele lá trabalham para a NASA, não sei com quê. E agora pense: se você arranjar uma namorada e ela perguntar o que você faz, responderá que é sapateiro? Acabou o namoro. Nossa profissão perdeu todo o charme".
Mas não era só nos Estados Unidos. Taiwan, Coreia do Sul, Malásia,outrora grandes produtores de calçados, não produzem mais. Por quê? A industrialização subiu de patamar. É eletrônica, é informática, são carros, aviões etc. Na Coreia do Sul, 90% dos estudantes entra no ensino superior!
Não vamos desanimar nossos jovens. A indústria de calçados brasileira sobreviverá, mas será sobre outras bases. A hora da verdade para fábricas de alta produção já chegou, como os gaúchos podem atestar. No Brasil sobreviverá um bom número de fábricas, menores e pequenas, muito flexíveis, que possam se adaptar, praticamente dentro de horas, para mudanças na produção, lançando novos modelos para atendimento imediato, sem longos prazos para entrega. Fábricas criativas, com nichos de mercado específicos e serviços impecáveis.
O varejo será muito exigente neste ponto e a programação de produção e logística deverá ser perfeita, tipo Sedex. É óbvio que manutenção do estoque varejista na própria fábrica exigirá uma perfeita administração do capital de giro e uma saúde financeira que, hoje em dia, poucas fábricas possuem. Mas que belo desafio isso representa para os futuros gestores!
<B>E FRANCA?</B>
E Franca, como se sairá deste imbróglio? Esta pergunta também preocupava a jovem audiência. Por incrível que possa parecer, Franca já se prepara para este futuro em que não dependerá tanto do calçado. Deixou de ser um satélite de Ribeirão e está se tornando um centro comercial e de serviços da região. Por sinal uma região rica e operosa. Vejam quantas organizações comerciais de varejo e atacado estão se estabelecendo em Franca. Os serviços de saúde e hospitais estão entre os mais modernos do Estado. O setor educacional está próspero, atraindo estudantes do País inteiro! É um crescimento formidável e não vai parar. É uma bola de neve que crescerá cada vez mais! A própria indústria de calçados, depois das mudanças profundas que sobrevierem, até em função da “darwinização” na industrialização e economia, será um fator de grande valor econômico com suas indústrias de apoio, produtoras de insumos e serviços para as fábricas de calçados da região e do resto do Brasil, por ser Franca, hoje, um núcleo de primeira grandeza neste setor.
<B>CRENÇA NO FUTURO</B>
Viveremos profundas mudanças de curto prazo, sim, mas os nossos jovens, futuros gestores, serão chamados para participar destas mudanças com embasamento no ensino teórico, de alta qualidade que estão recebendo e que tanta falta fez às gerações anteriores.
<B>Zdenek Pracuch</B>
<I>Sapateiro, shoemaker</I>
pracuch@comerciodafranca.com.br
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