Clodovil


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Quando soube o resultado das últimas eleições para a Câmara Federal, confesso, lastimei sem que fosse novidade, estava reafirmado o despreparo de nosso eleitorado. Despontou entre os mais votados de São Paulo o polêmico Clodovil. Figura habituada a exposições frequentes na mídia, apresentador de programas em televisão, fala fácil, defensor seguro de suas ideias, não fugia ao debate. Muitas vezes agressivo, exacerbava sinceridade a sua maneira extrovertida. Muito embora, por formação, não aprove certos comportamentos, sei também não me ser lícito contrapor as opções alheias. Do mesmo modo, a morte nunca arrancou de mim citações elogiosas para pessoas que jamais escreveram créditos em sua conta corrente da vida. Muito comum ouvir-se rapapé para figuras cuja história nada honrou os feitos na passagem pela vida, no entanto, elevados a outros planos, o sentimentalismo brasileiro passa a conferir-lhes encômios nada compatíveis com sua conduta real. Recebe o país a informação de que o sucessor na cadeira de Clodovil Hernandes – falecido em março – na Câmara Federal, coronel Jairo Paes de Lira (PTC-SP), coloca na casa para discussão, um projeto contra o casamento gay. Entre as justificativas da proposta, se cunha o argumento: "Nos termos constitucionais, nenhuma relação entre pessoas do mesmo sexo pode equiparar-se ao casamento ou a entidade familiar". Ouvido a respeito do propósito, o deputado Paes de Lira afirma que o casamento acontece entre o homem e a mulher havendo que ressaltar-se que nossa constituição não abraça o já denominado "casamento homossexual". Salienta, finalmente, que lhe cabe defender a tradição. Cristã de nossa gente, embora não se posicione contra as parcerias civis, que efetivamente já garantem os mesmos direitos. Em certo momento de sua história política, Clodovil declarou-se contra o casamento gay, mas quase ao final de sua gestão, mudando seu conceito, apresentou projeto em seu favor. A meu ver, as medidas assumidas por Paes de Lira atendem aos reclamos de boa parte da população brasileira que ainda resta sonhando e lutando contra a libertinagem que assola o País, incluindo decisões judiciais homologando adoções de crianças em lares inadequados constituídos por uniões do mesmo sexo. Finalmente, por justo, louvar Clodovil por um ato de coragem, é preciso. Sua mais consciente e equilibrada sugestão em favor do povo brasileiro ficou registrada na Câmara Federal ao propor a salutar diminuição do dispendioso contingente de pseudo representantes do povo, quando, na realidade, cuidam de representar-se em isolados interesses. O corporativismo vigente no Congresso, o apetite insaciável dos políticos, jamais consentiria sequer a admissão do tema na pauta da Câmara. Diminuir os 513 deputados para pouco mais de 200 resultaria em elevada economia de recursos públicos empregados em salários, verbas indenizatórias, pagamento de passagens aéreas de apaniguados, familiares e outras menos explicadas, deslizes morais e éticos com infindáveis agrupamentos de servidores que nada servem ao povo nos muitos gabinetes da República. Que em aplaudindo sua propositura, possamos todos alimentar a esperança de surgimento no Congresso de alguém homenageando sua memória, para reafirmar a necessidade das mudanças em número de cadeiras – no máximo 300 – como disse Lula: picaretas. Garcia Netto Jornalista

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