Alienação


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Alienação é a `falta de interesse, de conhecimento ou de consciência sobre as questões importantes da sociedade, sobre os acontecimentos do País e do mundo`; no sentido filosófico, é a `falta de compreensão a respeito da própria condição e das relações reais do sujeito, sua existência no mundo` (Dicionário Digital Aulete). Os comerciais veiculados pela mídia, além de divulgar o produto, deveriam ter algum conteúdo instrutivo, cultural. Parece, porém, que o interesse dos anunciantes é causar alienação no público-alvo. Num comercial de cerveja na TV o sujeito diz: `Segunda Guerra Mundial? Não. Nós somos torcedores`. Para ele, pouco importa o que acontece em volta, nada é mais importante do que se juntar a um bando de marmanjos para torcer pelo time do coração e beber cerveja. Num telejornal vi um torcedor dizer que pagou R$ 150,00 para assistir a um jogo de futebol no Pacaembu, jogo que passou ao vivo em canais abertos. De aparência e fala simples, ele reclamou do preço, mas pagou porque queria ver o Ronaldo jogar. Não quero posar de intelectualoide; gosto de futebol, mas nunca faria isso que fez o torcedor. Com tal valor dá para comprar uma penca de bons livros. O meu Dom Quixote, com capa dura e papel de qualidade, custou R$ 9,90. Vai ver, no mundo atual, alienados somos eu e outros que lemos sobre alguém que vê gigantes perigosos em moinhos de vento. A preguiça mental é uma forma de alienação, de alheamento, pois leva à fuga de coisas que trazem efetiva satisfação e realização, mas que exigem certo sacrifício, esforço, empenho, como estudar, ler bons livros. Das pessoas que se dispõem a ler o jornal, poucas são as que se detêm nos textos de opinião; vão direto para a seção de esportes, de horóscopo. Na incapacidade de distinguir o que é relevante do que não é, dá-se demasiada importância a coisas que deveriam ser mero passatempo, ou seja, aquilo que se faz quando não há nada mais necessário e útil com que se ocupar. Dar excessiva importância a coisas sem relevância implica negar valor a outras realmente valiosas. Não digo que se deva chegar à neurose de passar o tempo todo só em busca de coisas sérias. Sabendo administrar o tempo, sempre sobra algum para amenidades, para relaxar. O que não se pode é inverter, ou seja, relaxar na maior parte do tempo, pois isso é alienação. Deve-se unir o útil ao agradável. Buscar prazer e satisfação à custa do esforço a-heio é alienação. A verdadeira satisfação se obtém com o próprio esforço. Cada um é livre para fazer o que quiser da própria vida. Liberdade, porém, é um bem que não se sustenta sem responsabilidade. O alheamento da realidade torna a pessoa emocionalmente frágil, insegura, manipulável, mais suscetível ao ludíbrio, leva à perda da identidade. A alienação faz a pessoa abdicar da própria vida para ficar à margem da vida alheia. Em outras palavras, deixa-se de ser diretor da própria vida para ser figurante de outras. A alienação cedo ou tarde será motivo de dura frustração, pois pior do que frustrar-se com os outros é frustrar-se consigo mesmo. Gostaria de crer que não vivo num país com alto índice de alienação, mas, com um templo dessas igrejas de araque em cada esquina, com tantos viciados em drogas, com tanta jogatina, com o nível da educação, com a programação da TV, com a podridão que se vê, com o voyeurismo revelado na estrondosa audiência de programas como o `BBB`, é difícil. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro `Pensando na Vida` – paulopereiracosta@uol.com.br

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