PIB, crise e mudanças


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Foi divulgado que o PIB do primeiro trimestre do ano caiu 0,8% em comparação com o trimestre imediatamente anterior. Essa informação não deveria causar grandes surpresas (como realmente não causou) porque, na verdade, especulava-se que a queda seria maior. Essa especulação representa bem a dualidade do ser humano, da sociedade, das instituições e, obviamente, da política. De um lado temos o governo otimista (e não poderia ser diferente). De outro, a oposição, procurando se cacifar e se credenciar em cima da desgraça generalizada. Fato comum. Parece-me que já há farto material disponível sobre as causas da atual crise financeira. E já foi exaustivamente criticado o atual modelo financeiro internacional que, tendo como sede os Estados Unidos e desnudado pela crise financeira das hipotecas subprime, precisa urgentemente sofrer alterações. Na verdade, alteração não seria o termo correto. O que se busca é um novo modelo financeiro internacional que mude a lógica econômica. Nesse sentido, vale a pena ler um documento publicado por um movimento chamado Put People First (Ponha as Pessoas Primeiro - ou algo mais politicamente correto como, "Salvar as Sociedades Primeiro", -www.putpeoplefirst.org.uk ) criado na Inglaterra às vésperas da última reunião do G-20, que representa a coalizão e articulação de mais de 100 movimentos sociais que foram chamados para apresentarem uma saída possível e responsável para a recessão econômica inglesa. Esse documento, dividido em capítulos, aborda os temas: regulação financeira (numa preocupação de evitar futuras crises como a atual), no capítulo 1; empregos decentes e serviços públicos para todos, no 2; Justiça: fim da pobreza e das desigualdades globais, no 3 e Clima: construir uma Economia Verde, no 4. O que chama a atenção no documento é a objetividade nas propostas apresentadas que fogem à tradição panfletária de movimentos dessa natureza. Trata, também, de problemas reais da sociedade inglesa e, certamente, de todas as demais. A importância de termos parâmetros comparativos nesse momento de discussão sobre a crise e suas consequências, é a de não centramos nossa preocupação e ações apenas no salvamento do atual sistema financeiro mundial. Aliás, essa tem sido a atitude do governo americano, que concentra seus maiores esforços apenas no núcleo central da crise - o setor financeiro. O resultado dessa ação e o que realmente preocupa, conforme a economista Maria da Conceição Tavares, é `o fato de que nem a crise bancária americana, nem a crise de crédito global se encontram perto de solução...`. Assim, qualquer solução deverá contemplar mudança radical no futuro modelo econômico-financeiro mundial que atenda não só tradicionais centros econômicos internacionais, mas todos os países, emergentes ou não, que vivenciam, socialmente, as consequências da crise. Quanto ao Brasil, deve-se baixar os juros para fomentar ainda mais a economia doméstica e espantar o excesso de dólares especulativos; continuar a usar a reserva cambial para financiar exportações (já que os financiamentos internacionais ainda não voltaram), investir em obras públicas que movimentem todos os setores econômicos e produtivos e criar debate na sociedade para nos sintonizarmos com quem realmente quer mudanças conceituais e estruturais e não apenas paliativas. Cassiano Pimentel Agente de exportação e professor universitário

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