Foram quatro anos dedicados à universidade e outros três à profissão. O que antes ocupava integralmente o tempo de Lucas Porto, 27, hoje transformou-se em atividade restrita às horas vagas. Designer gráfico apaixonado pelos desenhos, a vida de Lucas sofreu uma reviralta após ele perder o emprego em uma gráfica. O computador deu lugar a uma pasta com palm top, bloco e caneta. O designer agora é vendedor de componentes para calçados. A troca para ele foi necessária. "Sou casado, tenho um filho. Estamos construindo nossa casa. Não podia ficar esperando a abertura de uma vaga no meu ramo".
Trabalhar fora da área de formação é uma realidade comum hoje em dia. Concorrência acirrada e vagas restritas são apontadas como principais fatores que deixam um profissional graduado fora da sua área. Não é possível afirmar, porém, o número de pessoas que estão nesta situação. Mas é fato que ela existe.
Paulo César Gonçalves, psicólogo e orientador vocacional da Unifran, explica que a mudança de área também acontece porque, às vezes, a pessoa tem um ideal que não corresponde com a realidade da profissão escolhida. "Isso leva a pessoa - depois de formada ou já próxima de concluir um curso - a desanimar porque não tem a ver com aquilo que ela idealizou", analisa.
E há outros motivos. Amanda Silva Oliveira, 27, também é uma das pessoas empregadas em setores que nada têm a ver com a faculdade que cursou por quatro anos. Amanda concluiu a faculdade de Direito em 2006. À época ajudava os pais a gerenciar o restaurante da família. Logo depois de formada surgiu a oportunidade de atuar com vendas em uma empresa de telefonia. "Comecei, gostei e continuei", disse.
Mesmo com emprego fixo e garantido, ela tinha a intenção de prestar o exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e começar advogar. Não deu tempo. Dentro da mesma empresa surgiu a oportunidade de trabalhar com mercado público. "Hoje estou ganhando bem. O Direito me ajuda porque trabalho com licitação, compras diretas com prefeituras e autarquias. A graduação, aliás, foi uma das condições para ter o cargo", disse.
A situação vivida por Amanda é considerada como um aprendizado pelo psicólogo. "A profissão não é estática. Você não pode engessar o sujeito. Ele precisa ter a liberdade de fazer novas escolhas a qualquer tempo. Durante a formação, após a formação ou mesmo após muito tempo de trabalho dentro da área de atuação. Aliás, é saudável que seja assim. Que nós tenhamos a liberdade quer seja para confirmar a preferência por aquela área ou para mudarmos".
Lucas Porto, o personagem do início desta matéria, está feliz e realizado com o emprego de vendedor de componentes. Mas deu um jeito para não deixar totalmente de lado a profissão para a qual estudou. Depois de trabalhar quase nove horas por dia, ele ainda arruma tempo para dedicar-se ao desenho. À noite e aos fins de semana faz artes em revistas e jornais de publicidade. Uniu o útil ao agradável. "Faço o que sinto prazer e, ao mesmo tempo, consigo incrementar minha renda".
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