Ouro Preto: riqueza histórica e muita energia


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Charme único - Vista geral de Ouro Preto, Minas Gerais. À esquerda, umas das dezenas de igrejas da histórica cidade. Já à direita da imagem, o Pico do Itacolomi, referência que os portugueses e exploradores tinham
Charme único - Vista geral de Ouro Preto, Minas Gerais. À esquerda, umas das dezenas de igrejas da histórica cidade. Já à direita da imagem, o Pico do Itacolomi, referência que os portugueses e exploradores tinham
‘Ouro Branco! Ouro Preto! Ouro podre! De cada ribeirão trepidante e de cada recosto de montanha o metal rolou na cascalhada para o fausto D’El-rei, para a glória do imposto”. Com estes versos, o poeta modernista Manuel Bandeira tentou traduzir parte de sua emoção ao visitar, no final da década de 1930, a antiga Vila Rica, Ouro Preto, que surgiu e se desenvolveu nos áureos tempos em que o metal brotava de suas minas. Inspirado pela beleza e pela história que surpreendem a cada igreja secular visitada, cada ladeira, cada monumento barroco, cada lembrança do movimento urdido pelos inconfidentes, ele registrou suas impressões escrevendo um livro dedicado à cidade. Ouro Preto é uma cidade fantástica, encravada entre uma cadeia de montanhas, destacada pelo Pico do Itacolomi. Patrimônio Histórico da Humanidade, título concedido pela Unesco em 1980, é um lugar onde cada centímetro que se caminhe aponta para, no mínimo, dois séculos e meio de história. De um anacronismo que fascina e impressiona, a cidade foi o ponto de convergência política e religiosa do Império Português no Brasil. Para todos os lugares que se possa olhar, para cada uma das suas igrejas e ladeiras, que são muitas, a antiga capital de Minas Gerais é um convite à descoberta, que começa virando a esquina. Dizem que os médiuns dificilmente conseguem visitar Ouro Preto. A carga de energia, positiva ou não, que paira sobre suas vielas e construções é tanta que até aos mais descrentes parece impossível não notar que não se entra nem se anda sozinho por ali. Acredite em Benê da Flauta, poeta visionário e andarilho de Ouro Preto: “É uma fascinante maquete do que a humanidade produziu de melhor e pior. Aqui a história pesa em nossos ombros”. Para conhecer a fundo, comece pesquisando pela história. Denominada Vila Rica, foi fundada em 1711 e ostentou o nome até 1823, um ano após a independência do Brasil, quando recebeu o título de Imperial Cidade de Ouro Preto, conferido por Dom Pedro I. Foi muito à frente de qualquer outra cidade mineira contemporânea, a que mais experimentou os benefícios e as desgraças que o ciclo do ouro e diamantes trouxe à então colônia. Permaneceu como capital de Minas Gerais até 1897, quando Belo Horizonte foi criada. Como não é possível imaginar que alguém, brasileiro ou estrangeiro, vá a Ouro Preto e desconsidere a história que permeia sua existência, tire ao menos dois dias inteiros para visitar seus museus, bem estruturados, que guardam nas paredes e nos porões aspectos da vida cotidiana. Passe pelo Museu da Inconfidência (www.museudainconfidencia.com.br), na Praça Tiradentes, imponente construção que serviu como casa de câmara e cadeia, datada da primeira metade do século 18. Com três anexos, possui um impressionante acervo de armas e mobiliário da época e perto de 40 mil documentos do período colonial. Conheça também a Casa dos Contos e aproxime-se da história que nem os livros contam. Construída pelo cobrador de impostos João Rodrigues de Macedo, foi sua residência e local onde administrava seus negócios. Serviu para fins pouco gloriosos, como para o cárcere de alguns inconfidentes. Sob uma de suas escadas morreu enforcado Cláudio Manoel da Costa, um dos líderes do movimento. Restaurada em 1984, 200 anos após sua construção, hoje pertence ao Ministério da Fazenda, fazendo jus à sua origem e finalidade. Em seu interior oferece exposições permanentes da Casa da Moeda e do Banco Central brasileiros. Abriga ainda o Centro de Estudos do Ciclo do Ouro de Minas Gerais. Não deixe de perguntar sobre a cozinha onde os escravos cozinhavam e a senzala. Você irá se impressionar com o que vai ver. Levante cedo e se prepare para as subidas em ruas de pedra. São ao menos oito museus, entre civis e religiosos, dispostos quase todos no Centro de Ouro Preto. Cada um com um acervo mais rico que o outro. A sensação que fica ao se visitar essa cidade é, inevitavelmente, de uma volta no tempo. Mas basta virar a rua para perceber que pessoas de todas as idades a descobrem todos os dias, razão pela qual suas ruas centrais, lojas, cafés e restaurantes fervilham até perto das 20 horas. Depois desse horário, com ou sem névoa, torna-se uma cidade de aspecto sombrio, intrigante ao extremo. As pessoas caminham caladas tarde da noite. Se você não tiver um olhar para o passado não conseguirá aproveitar Ouro Preto como se deve e como ela merece.

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