Arte de Aleijadinho é a atração de Congonhas


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Detalhes - Um dos profetas criados por Aleijadinho: Congonhas recebe visita de turistas de todo o mundo para contemplar as obras
Detalhes - Um dos profetas criados por Aleijadinho: Congonhas recebe visita de turistas de todo o mundo para contemplar as obras
Quem chega à cidade mineira de Congonhas (91 quilômetros de Belo Horizonte) pode estranhar que essa localidade, situada em região de montanha, coberta com uma perene mistura de fumaça e fuligem que vem da extração do minério de ferro e, para ser sincero, um tanto feia, possa atrair tantos turistas. A explicação, para quem ainda não se deu conta, é que estamos falando do berço do Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos, onde repousa uma das maiores joias do barroco colonial brasileiro: os 12 profetas de Aleijadinho (1730-1814). A criação máxima do mestre Antônio Francisco Lisboa é parte de um complexo formado por 78 esculturas, cujos expoentes são os profetas feitos em pedra-sabão, dispostos no adro da igreja que leva o nome do santuário. As demais imagens, em madeira, representam os passos da paixão de Cristo e estão protegidas em capelas fechadas. Mais que a representação figurativa da fé e da religiosidade típicas da época, seria o santuário o resultado da devoção de um português chamado Feliciano Mendes, que decidiu fazer uma promessa para livrar-se de uma doença adquirida nas minas de ouro. Devoto de Bom Jesus dos Matosinhos, passou boa parte de sua vida coletando esmolas para construir a igreja e as capelas. A obra começa em 1757, mas Mendes morre em 1765, antes que fosse concluída. Na linha do tempo que seguiu, a igreja foi construída em 1777; em 1790 foi a vez do imponente adro com suas belas escadarias. Alguns anos mais tarde Aleijadinho começou sua obra-prima, o trabalho pelo qual seria mundialmente conhecido e no qual também imprimiria marcas de um imenso sacrifício pessoal. Entre 1796 e 1805, o santuário foi tomando forma, mas especula-se que Aleijadinho não trabalhara sozinho. Especialistas encontraram em 66 estátuas pequenas diferenças de estilo que provariam a participação de outros escultores. Nesta época, o escultor trabalhava com as ferramentas amarradas aos braços, pois suas mãos já haviam perdido os movimentos. Estudos feitos na ossada de Aleijadinho comprovaram que ele sofria de um reumatismo deformante. A dor intensa fez com que o escultor decepasse alguns de seus dedos. Mesmo nestas condições continuou trabalhando. A visita a Congonhas vale por todo o Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos, mas especialmente pelos profetas. Castigados pela ação do tempo e do homem, é polêmica a proposta da prefeitura local de tirar as imagens e substituí-las por réplicas. De perto, Amós, Ezequiel, Isaías e todos os outros estão corroídos pela fuligem do minério que cerca a região. Chuva e sol também agem impiedosamente sobre as estátuas, ação completada pela irresponsabilidade de turistas que não hesitam em riscar as imagens com objetos pontiagudos, dano irreparável na pedra-sabão, bastante macia e porosa. A destruição, no entanto, não é coisa que acontece há pouco tempo. Nos muros da igreja e nos próprios profetas, há inscrições de visitantes que estiveram lá em 1823, 1850 e por aí vai. Há 30 anos a paróquia resolveu intensificar a fiscalização e hoje atos de vandalismo contra o santuário são considerados crimes federais. [FOTO2] Para estudiosos, Aleijadinho teria se baseado na figura dos inconfidentes mineiros para desenhar a fisionomia dos profetas. Os semblantes tristes das estátuas e os vários símbolos que elas ocultam, em seus gestos e posicionamento, revelam a angústia e a resposta do artista diante do desfecho trágico da Inconfidência. Seja qual for o objetivo da visita a Congonhas e aos profetas, vale lembrar o que disse sobre a obra o francês Germain Bazin, considerado o maior estudioso de arte barroca no mundo: “É, talvez, um dos mais belos trabalhos da terra. Acredito que seja a última aparição de Deus evocada pela mão do homem”.

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