Jesus foi crucificado, Barrabás foi solto. Cícero foi assassinado. Otávio, filho adotivo de César, Lépido e Marco Antônio, ficaram com o poder. Tiradentes foi esquartejado, o Imperador Pedro festejado. Kennedy foi assassinado, Bush foi eleito. Tancredo foi “diverticulado”, Sarney empossado. Protógenes, o delegado, virou réu e os denunciados, vítimas.
Outros fatos históricos nos chamam a atenção, como o “suicidado” Getúlio Vargas; a trombada aérea do Castelo Branco; o sumiço marítimo do Ulisses Guimarães e o terrestre do Juscelino; o “renunciado” Jânio Quadros. Aqui, bem perto de nós, cidadão honesto e trabalhador atira em ladrão que invadira sua casa e é preso em flagrante por porte ilegal de arma. O ladrão? Fugiu. Muitos outros casos e “causos” do tipo demonstram muito bem que a incongruência e a inversão de valores é coisa antiga e não se trata de mal exclusivo do nosso século.
Alguns membros do alto e até do baixo Judiciário vendem sentenças, doam passagens aéreas a parentes e amigos, batem boca entre si em público; os do Ministério Público voltam aos tempos do farwest e gostam muito de aparecer na mídia, mas somente em fatos que apesar de grande repercussão, não estão no ranking das prioridades; delegados resolvem imitar os velhos “gangsteres” e montam quadrilhas; advogados cansam de defender réus e passam a ser defendidos tal como. Médicos erram, pessoas morrem, mas, ninguém comenta. Só à boca pequena.
Em outras profissões ou cargos, devem ocorrer tais disfunções, mas são menos divulgadas. Por que, não sei.
Bispos, padres, pastores, ao invés de pastorearem seus rebanhos, “pedofiliam” ou arranjam filhos fora do casamento com a igreja ou com o templo. Empresários, ao invés de aplicarem parte dos ganhos de capital na empresa, cuidam do lazer e da(s) concubina(s), iniciando outra atividade bem longe da praça onde labutam. Na ocorrência de quebra, saem ilesos, ao contrário dos seus empregados e fornecedores. E é ainda pior: quando "baixa a poeira", voltam ao mercado através de “laranjas”.
Aliás, continua moda uma empresa manter no mesmo barracão várias razões sociais (como uma mãe barriguda de um monte de gêmeos, ou um laranjal), de preferência como micros, pequenas e EPPS, todas produzindo a mesma mercadoria, que não é filho e nem laranja. O futebol virou bolsa de valores e o dinheiro corre frouxo entre os dirigentes e alguns jogadores privilegiados. Perdeu o romantismo do amor à camisa. Passou a ser vitrine de marcas e lojas. Mal se podendo enxergar o brasão do time. Disse, a propósito, o filósofo da bola Vampeta: “Eles fingem que pagam e eu finjo que jogo”.
Quanto à classe política, não falo mais nada. O óbvio ululante precisa, sim, de punição. Diante dessa torre de babel, acho melhor continuar correndo contra o tempo e lutando para ter uma vida melhor junto dos meus. Nem Jesus conseguiu consertar o mundo. Como o futuro ao pai de Jesus é que pertence, esperemos que após Sua posse, as coisas se arranjem e o que relatei neste texto seja só parte do passado. Que assim seja!
Odorico Antônio Silva
Advogado
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